Gil Baiana – Gilberto Gil e BaianaSystem

 

 

Gênero: Reggae, eletrônico

Duração: 33 min.
Faixas: 7
Produção: Fafá Giordano, Maria Fortes e Fefe Oliveira
Gravadora: Gegê, Máquina de Louco

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

Gilberto Gil é um dos mais importantes compositores e pensadores da música mundial, sem qualquer exagero. Ele é o maior cronista da diáspora negra e seus efeitos na música popular brasileira. Nos anos 1970, os discos de Gil documentou a incorporação de formas universais de pensamento sobre a presença do negro pós-colonial na criação e conceituação da arte, no caso específico, da música. Com o tempo, sua obra tornou-se absolutamente decisiva e serve de farol para quem se arvora a explicar aquele momento especial. O grupo BaianaSystem é um dos mais fiéis “repensadores” (para falar nos moldes da trilogia “Re”, por exemplo) deste assunto, inserindo elementos contemporâneos e atualizando um discurso que não envelhece. É absolutamente natural e genial que ambos colaborem, ainda mais num álbum ao vivo, caso específico deste inestimável “Gil Baiana”.

 

Gravado em novembro de 2019, em Salvador, o disco traz composições de Gil, de Bob Marley e Russo Passapusso, todos inseridos na mesma lógica, cada um com seu recorte e interpretação das mesmas vivências. O formato adotado foi o mais lógico: Gil e sua guitarra, devidamente acompanhado pelo pessoal do Baiana, com repertório escolhido justo pelas interseções temáticas – pobreza, improviso, sobrevivência, orgulho – experimentadas nas cidades e dentro da lógica diaspórica. Religiosidade miscigenada, afetos, tudo está presente nestas sete faixas, num trabalho de concisão e síntese invejável. Em pouco mais de meia hora, Gil e Baiana dão o recado que o ouvinte precisa ouvir e, por que não, aprender.

 

A seleção de faixas consegue não deixar o ouvinte com saudade de nenhuma outra. “Is This Love”, de Marley, abre os trabalhos, em seu formato imaculado e imexível, com Gil exibindo sua autoridade de intérprete e releitor da obra marleyana sem qualquer embaraço. Aliás, é bom que se diga: o reggae é o fio condutor para a exploração deste espaço, uma vez que é idioma fluente que une todos os presentes, público e artistas. “Nos Barracos da Cidade” é outro tema universal, que questiona governos brancos sobre o tratamento em relação aos negros. E “Extra” é a afirmação dos valores e traços. A releitura de “Pessoa Nefasta” despe o original e arranca o arranjo new wave original, vestindo-a de um intrincado híbrido reggae-funk, coisa linda.

 

O orgulho vem sob a forma de “Sarará Miolo”, atualizada como um samba-reggae de carnaval baiano, cheia de percussões eletrônicas e humanas, abrindo espaço para uma ótima mistura de “Emoriô” (composta por Gil em parceira com João Donato e registrada por este em seu álbum “Lugar Comum”, de 1975) com “Dia da Caça”, do BaianaSystem, que toma o protagonismo na canção seguinte, a ótima “Água”, que, por sua vez, é emendada com “Água de Beber”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, perfazendo uma espécie de somatório geral de uma crônica ainda não encerrada.

 

Num tempo de tantas situações lamentáveis marteladas no cotidiano do Brasil, é espantoso que surja um artefato tão delicado e forte sobre a identidade brasileira e sua natureza afetuosa e múltipla. Nos faz lembrar do quanto somos maiores e mais complexos que questões suscitadas pelas pessoas que se empenham em negar a nossa identidade miscigenada. Que Gil e Baianasystem se sintam sempre honrados por proporcionar este verdadeiro milagre em tempos de obscurantismo. Bravo.

 

Ouça primeiro: “Emoriô”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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