E daí?

 

A cada fala do atual ocupante da presidência do Brasil, eu me choco. Não deveria, afinal de contas, ele já foi capaz de falar as seguintes frases:

“Não vou lhe estuprar, não merece”

“Em memória de Ulstra”

“Quilombola serve nem pra procriar”

“Dei fraquejada, veio mulher”

“Vai pra ponta da praia”

“Se quer saber como o pai desapareceu, eu conto”

“Ela queria dar o furo”

 

As mais recentes foram o uso do verbo “escrotizar” num pronunciamento em rede nacional de rádio e TV, no qual dizia não saber de antemão que a avó e a mãe de sua esposa haviam cometido delitos. Ora, realmente, nada mais normal do que ter pessoas que cometem delitos em sua família, de fato, quem critica isso só pode mesmo desejar … escrotizar com alguém. Depois dessa, a última, proferida ontem, diante do questionamento do repórter sobre o Brasil ter ultrapassado o marco das 5 mil mortes por conta da covid-19.

– Presidente, o que o senhor acha das mais de 5 mil mortes por conta da pandemia?

A resposta veio na seguinte forma:

– E daí? Quer que eu faça o quê?

 

Temo que o Brasil de 2020, fruto direto do Brasil de 2018, por sua vez, filho natural e legítimo do Brasil de 2016, tenha se transformado numa terra em que as pessoas desejam a morte das outras. Porque só o desprezo absoluto pela vida pode resultar na eleição de um homem que fala um “e daí?” diante do fato de 5 mil compatriotas terem perdido a vida para uma doença. Mas, se pensarmos bem, é o mesmo sujeito que também já disse que iria “metralhar a petralhada” num comício, que pegava criancinhas – com a anuência/insistência dos pais – e fazia gesto de porte de arma de fogo.

 

É o mesmo que já deu inúmeras e inegáveis provas de que é um monstro.

 

O Brasil já teve presidentes desastrosos. Teve todo o time da Primeira República, que eram fantoches das oligarquias mineira e paulista. Teve os generais-presidentes, dentre os quais, médici também pode ser inserido na categoria “monstro”. Teve os terríveis governos de Sarney e Collor. Teve o péssimo segundo governo de FHC, no qual ele abriu mão de seu passado social-democrata e abraçou o neoliberalismo em seu nascedouro, levando o Brasil a péssimos números e vários ataques ao aparelho público.

 

Agora, depois de um período de recuperação com os governos petistas, o Brasil vivencia o segundo monstro de seu hall de presidentes. Se médici foi o monstro institucional, carrasco impassível diante do acirramento trazido pelo AI-5, bolsonaro é o monstro do cotidiano, o monstro proverbial, uma espécie de encarnação do mal, do desprezo, da falta de empatia absoluta, ta incapacidade de atender a dores e sofrimentos.

 

Seu governo busca a manutenção constante de um estado de crise para poder se justificar. Afinal de contas, só um momento de crise extrema – de valores, de pensamento, de vivências – pode comportar um governante que faz questão de se mostrar alheio ao sofrimento e às necessidades de seu próprio povo.

 

Se você não trabalha, é preguiçoso.

Se você sofre, é frouxo.

Se você está doente, é fraco.

Se você não conseguiu algo, a culpa é só sua.

Se você caiu, é frescura.

Se você morreu, azar o seu.

 

O ideário deste sujeito de quem ele representa passa por esta visão simplória e conveniente – para eles – da vida.

 

O quanto mais de tempo este sujeito presidir o país, mais estaremos mergulhando de cabeça num poço sem fundo. Por gerações nossos cientistas sociais tentarão explicar a patologia que nos levou a isso. E as pessoas que o elegeram ou se abstiveram de votar em 2018, terão que lidar com a cobrança que a história lhes imporá.

 

E não poderão – por mais que queiram – dizer um simples:

 

– E daí?

 

OBS: minúsculas intencionais

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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