Gerson King Combo, RIP

 

 

 

Certas vezes a gente precisa escrever notas de falecimento e umas sempre são mais duras do que outras. No caso do Gerson Cortes, mais conhecido como o Rei do Soul, Gerson King Combo, lhes afirmo que é tarefa bem árdua comunicar seu falecimento na noite de ontem, 22 de setembro, por conta de infecção generalizada, decorrente de diabetes. Foi tudo bem rápido e eu, sinceramente, espero que ele tenha partido sem sentir dor. Vocês sabem, a gente acompanhou aqui a internação dele no sábado, dia 19, e o adiamento do show que ele faria com a banda Supergroove no mesmo dia. A ausência de notícias e o temor pelo pior se dissiparam com a informação de que ele fora pra casa na manhã de segunda, dia 21. Agora a confirmação de seu falecimento veio no seu perfil oficial no Instagram.

 

 

Gerson começou cedo. Foi dançarino na Jovem Guarda e logo viu-se que ele tinha jeito para cantar e encarnar muito da alma negra rebelde e consciente que vinha de fora do Brasil da ditadura militar. Logo ele tornou-se crooner, cantando em discos de Renato e Seus Blue Caps e The Fevers, para depois fazer parte do time de cantores da Banda Veneno, do maestro Erlon Chaves. A partir disso, Gerson começou a viajar pelo país e exterior, chegando a conhecer nessas andanças James Brown e Stevie Wonder.

 

 

Gerson iniciou os anos 1970 em sintonia com os primeiros passos do Movimento Black Rio. Enquanto os DJ’s Ademir Lemos e Big Boy (também radialista e visionário) levavam as noites do Baile da Pesada adiante, Gerson, que voltara cheio de roupas coloridas, moderníssimas e desconhecidas por aqui, decidiu que era o momento certo de assumir o posto – vago – de James Brown brasileiro. Nosso herói não era o único em sintonia com a música moderna americana e suas andanças pelos novíssimos bailes de subúrbio (antecessores classudos dos bailes Funk e Charm) o levaram a conhecer muita gente que participava daquele momento de criação: Tim Maia, Sandra de Sá, Carlos Dafé, Dom Salvador, Cassiano, Oberdan Magalhães, entre muitos outros. Em pouco tempo, Gerson participaria de encarnações primitivas da Banda Black Rio e assumiria o posto de cantor da banda União Black em 1975. Já como Gerson King Combo, nome inspirado no grupo de Jazz americano King Curtis Combo, ele estava pronto para fazer história com o primeiro disco da União Black, lançado em 1977, ficou evidente que Gerson era maior que o grupo. Com contrato assinado com a Polydor, o homem soltou seu primeiro disco solo no mesmo ano. Gerson lotava shows no subúrbio chegando num Dodge Dart e com um funcionário pago apenas para retirar e colocar sua capa nas apresentações.

 

 

Gerson King Combo, o disco, é uma obra-prima da música negra brasileira, aquela mistura perfeita de Soul e fFnk americanos com uma inefável malandragem de subúrbio, surgida aqui, mas com um dado interessantíssimo: a postura herdada do movimento negro americano. Na época, início dos anos 70, havia algo interessante no ar, a ideia da existência de um “negro universal”, que estava em construção. Era uma identidade que trazia conhecimento adquirido na África, por conta dos processos recentes de independência das colônias francesas, inglesas e portuguesas no continente negro; uma “rodagem” contra o racismo obtida no sul dos Estados Unidos. Essa universalidade recente à época, era traduzida em grupos como os Panteras Negras, em gente como Martin Luther King, Malcolm X e nos artistas negros, como James Brown, Marvin Gaye, Stevie Wonder e Smokey Robinson, todos engajados e conscientes – em diferentes intensidades e demonstrações – do papel deste homem negro universal em construção. Essa noção estava contida no orgulho negro que se estabeleceu no Black Rio, da elegância das canções à elegância das roupas.

 

 

Canções erguidas sobre fortíssima base instrumental, que deixavam pouquíssimo a dever em relação ao melhor da música americana da época, eram a tônica do primeiro disco de Gerson. Com discurso e indumentária cheia de mensagens assimiladas da universalidade negra, Mandamentos Black chegava como uma carta de intenções e versos do calibre de “dançar como dança um black, cantar como canta um black” logo na abertura do disco, mostrando que o homem não estava para brincadeira. Outros momentos em que há a conjunção Brasil x Mundo, em termos de cultura negra, são Ele É o Nosso Black Brother, God Save The King (em homenagem a Martin Luther King) e a sentimental Andando nos Trilhos, em que a epopeia pessoal de Gerson serve como ilustração perfeita dos caminhos percorridos pelos negros, pobres e suburbanos do Brasil – e do mundo – naqueles tempos.

 

 

A união entre sonoridade e discurso dá uma qualidade inestimável ao primeiro disco de Gerson. Foi o momento em que a sintonia entre a música brasileira e a música mundial se estabeleceu contra todos os prognósticos e suposições. No ano seguinte, ele lançaria Volume 2, ainda bastante interessante, mas sucumbiria – como quase todos os artistas negros daquele tempo – diante da Disco Music feita no país.

 

 

A música negra não-sambista ainda ficaria uma década sem manifestações de peso, mas iniciaria os anos 1990 com uma geração inteira de artistas cariocas, paulistas e de vários cantos do país, devidamente influenciados por luminares como Gerson, que gravou novo disco em 2000, outro em 2009 e vinha se apresentando com a banda Supergroove por várias cidades do país. Em julho deste soltou “Eu Parei”, um single. Há também um show e um documentário gravados sobre a vida de Gerson, esperando por chance de lançamento.

 

 

Tive chance de vê-lo ao vivo no Teatro da UFF, em Niterói, em 2015. Sempre amável, ele concordou em ser entrevistado por mim para a minha pesquisa de mestrado sobre o Black Rio, algo que aconteceu em algum ponto de setembro daquele ano, quando me recebeu em sua casa em Madureira, Zona Norte do Rio. Ali, por mais de duas horas, me contou boa parte de sua vida, lembrando de histórias e casos que aproveitei em minha dissertação, que foi dedicada a vários heróis da música negra mundial, ele incluído.

 

Sua partida é uma tristeza sem fim. Seu lugar ficará vago, talvez pra sempre.

 

Eu te amo, brother. Vá em paz e anime o bailão lá em cima.

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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