A Família Skywalker Disfuncional

 

 

O menino pequeno cresceu. Perdeu a mãe para bandidos da areia. Ele volta para onde moram os assassinos e os mata com requintes de crueldade. Precoce, tem um romance com uma mulher mais velha, governante de seu planeta. Desta união – proibida, porque ele não pode ter relacionamentos amorosos por conta do juramento que prestou à sua “religião” – nascem gêmeos. Como o rapaz tornou-se um adulto irascível e mau, seus filhos são escondidos e levados para lugares distantes, onde crescem sem saber da existência um do outro. O rapaz é solitário e ingênuo, a moça é postulante ao trono de seu planeta adotivo. Mas ele – o planeta – é aniquilado por uma máquina de destruição comandada pelo próprio pai. Há um pequeno flerte entre os irmãos ocultos, mas nada muito sério.

 

Algum tempo depois, o filho e o pai se encontram e duelam, afinal de contas, um está contra o outro. O pai decepa o braço do rapaz e confessa o parentesco. Enquanto isso, a menina tem um romance com um contrabandista gente boa, mas o vê ser aprisionado…também por seu pai. Momentos antes, o bandido bom sacara uma arma laser contra o “sogro”, sem muito sucesso. As ações vão continuar até que pai e filho se encontrem num duelo definitivo. Nesta altura os dois irmãos já sabem de seu parentesco, ambos concordam que matar o pai é a única saída para todos. Dito e feito. A partir daí, os dois irmãos vivem em harmonia. Ela, casada com o bandido, tem um filho. Ele, dedica-se à religião do pai, desenvolvendo-se e assumindo o treinamento do sobrinho.

 

Com o passar dos anos, ele percebe que o sobrinho tem o mesmo potencial maligno do avô. Decide então matá-lo antecipadamente, visto que o risco é enorme. Fracassa. O rapaz foge e se transforma numa criatura má. Sua mãe e seu pai se separam, frustrados. Anos depois, o rapaz – já adulto – mata o próprio pai, tendo antes assassinado várias pessoas no meio do caminho. Ele também tenta matar sua mãe, mas fracassa. O que ele deseja mesmo é matar o tio, que também tentou tirar-lhe a vida. Num planeta distante, cuja superfície parece um bolo red velvet, ele pede que os canhões de todas as máquinas de guerra disponíveis sejam mirados no tio, que está solitário, tentando defender os rebeldes. Não dá certo. Ele então decide lutar contra o ex-mentor, mas percebe que este só projetava uma imagem de si mesmo, estando, na verdade, a anos-luz de distância. Diante do esforço, ele morre pouco depois.

 

Mas ainda há esperança. O rapaz – agora líder de seu novo Império – tenta cooptar a neta do ex-Imperador, mentor de seu avô. Consegue, mas quase morre no meio do caminho, quando, finalmente, tem uma visão de seu pai, que o perdoa por … tê-lo matado. Afinal de contas, essas coisas podem acontecer com qualquer um, certo? Sua mãe, esforçando-se para trazê-lo de volta para o caminho do bem, morre. Agora, o rapaz está sozinho no universo, pois avô, pai, mãe e tio morreram. Daí ele tenta proteger a neta do ex-Imperador, afinal de contas, voltou a ser um cara bom. Antes disso, trucidou e matou milhões, assim como seu avô. Mas, ora bolas, isso acontece com todo mundo, certo? Perdoado, beijado e revisitado, o rapaz morre em glória, tentando trazer o bem para a galáxia.

 

Ao fim das contas, a família Skywalker, pelo que consta, acabou. Saímos ganhando, porque, fala sério, quanta gente maluca, maníaca e desfuncional.

 

PS: a família não acabou. A neta do ex-Imperador adotou o nome. Socorro.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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