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Lô Borges segue na estrada em disco póstumo

 

 

 

 

Lô Borges – A Estrada
34′, 10 faixas
(Deck)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

 

A trajetória de Lô Borges desde 2018 é um dos fenômenos mais notáveis da música brasileira recente. Muito provavelmente, ele foi o artista mais produtivo da música brasileira no período entre 2018 e 2025, lançando mais de um álbum por ano. “Tênis + Clube” (2018), “Rio da Lua” (2019), “Dínamo” (2020), “Muito Além do Fim” (2021), “Chama Viva” (2022), “Não Me Espere na Estação” (2023), o registro “50 Anos de Música – Ao Vivo na Sala Minas Gerais” (2023), “Tobogã” (2024) e o encontro “Céu de Giz” (2025), gravado com Zeca Baleiro. “A Estrada” (2026), portanto, não é um projeto isolado, trata-se do ápice de um arco criativo onde o compositor, aos poucos, foi despindo sua obra de adornos e reinventando suas marcas registradas sonoras. O folk rock rural, a prosa musical de origem beatle, as reminiscências do “Clube da Equina”, além das vivências e relatos de uma Belo Horizonte que ainda guarda muito de décadas atrás, as tais marcas sonoras de Lô, foram revisitadas e refeitas pelo artista. Esse percurso até 2026 mostra um processo deliberado de busca pela transparência total.

 

O que diferencia “A Estrada” dessa sequência é o esvaziamento do verniz. Enquanto discos como “Chama Viva” (2022) ou nas texturas de “Tobogã” (2024) ainda investigavam as possibilidades da produção em estúdio — alternando entre o pop refinado e o rock clássico rural-setentista —, este novo trabalho assume uma crueza importante e intencional. A parceria com Márcio Borges, retomada aqui com o peso de uma vida inteira, parece ter sido o gatilho para essa mudança de direção. As letras abandonam o lirismo épico e as metáforas dos anos 70 para tratar da logística da existência: o trânsito, a pausa, o deslocamento e a finitude. É uma escrita funcional, direta, que reflete o ritmo de quem continua em movimento mesmo quando o destino se aproxima.

 

A criação deste álbum difere radicalmente do que vimos na parceria com Zeca Baleiro em “Céu de Giz” (2025), onde a produção visava o diálogo entre vozes e timbres contrastantes, retomando a lógica dos outros discos de inéditas do período, sempre compostos por Lô e um parceiro fixo, que escrevia as letras. Em “A Estrada”, o estúdio funciona como um receptáculo passivo. A voz de Lô, gravada com o desgaste natural de quem não parou de produzir por quase uma década, não tenta esconder as marcas da idade; pelo contrário, o timbre torna-se a textura central da obra. A mixagem prioriza a simplicidade também no som, dando a impressão de ruídos e pequenas imperfeições que, em outros momentos, teriam sido editadas. É um registro que se coloca em oposição frontal à tendência de “limpeza” sonora, tornando a audição uma experiência de extrema proximidade.

 

O grande trunfo do disco no contexto dessa discografia recente é sua capacidade de fechar o ciclo com uma economia de meios que nenhum dos trabalhos anteriores ousou levar ao limite. Enquanto “Não Me Espere na Estação” (2023) ou o registro ao vivo na Sala Minas Gerais ainda mantinham o compromisso com o “espetáculo” da carreira de Lô, este álbum se posiciona como um ponto final técnico. Ele não tenta ser o disco mais complexo da década, nem o mais nostálgico. Ele se assume como um documento dessa despedida precoce, trazendo-a da forma mais identificada com a carreira de Lô, seja na intimidade do registro, seja no título e na temática das canções. E dentre essas, certamente “Encruzilhada” e “Sem Saída” surgem como as mais interessantes e bem acabadas criações do homem, identificadas tanto com a produção recente quanto com os grandes clássicos do passado.

 

Em última análise, a relevância de “A Estrada” reside na sua coerência com esse projeto de vida que Lo Borges cultivou desde sempre e que acelerou drasticamente após 2018. Ao recusar o conforto da nostalgia e a segurança das grandes produções, ele nos deixa um roteiro existencial: a constatação de que o valor de um compositor não reside no monumento, mas na insistência em registrar o tempo que passa. O disco é o desfecho lógico de um homem que tratou a música como ocupação diária e que, no final da jornada, percebeu que a harmonia perfeita nunca foi o destino, mas a própria estrada.

 

Ouça primeiro: “Sem Saída”, “Encruzilhada”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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