Frejat – Ao Redor do Precipício

 

 

Gênero: Rock, pop

Duração: 43 min.
Faixas: 13
Produção: Humberto Barros, Kassin, Maurício Negão e Frejat
Gravadora: Independente

3 out of 5 stars (3 / 5)

 

 

A gente sabe, Frejat deixou o Barão Vermelho para consolidar um caminho diferente em sua carreira. Sua ideia é ser um “artista adulto”, em que o rock passa a ser apenas uma de suas influências – junto com blues, soul, MPB – na intenção de compor um quadro de estilos no qual ele transita com certa desenvoltura. Em vez de canções mais intensas à frente de sua antiga banda, ele opta por um modelo mais convencional de arranjo, execução e concepção instrumental. Na teoria isso poderia funcionar, mas, é fato que o hábil guitarrista e vocalista ainda mostra dificuldades para se justificar como artista solo, não raro recorrendo a covers e versões para completar sua proposta quando em apresentações ao vivo. Aqui, neste “Ao Redor do Precipício”, seu quarto álbum, Frejat segue com seu maior problema: a estagnação vencendo qualquer chance de inovação.

 

Pode parecer papo de crítico, mas não é. Mesmo que um artista tenha seu estilo próprio e nele siga ad infinitum, é preocupante que a ausência absoluta de novidade em um tempo tão complexo e caleidoscópico como o nosso se configure em característica. Frejat é assim. Suas canções são mistos de blues elétrico estilizado com algum toque de baladas clássicas e um tanto de MPB. Quando muda a fórmula, ele vai para algum flerte com a soul music pasteurizada de branco, colocando sua eficaz guitarra a serviço de arranjos que soam tediosos e burocráticos. Se é para fazer este tipo de música, melhor que ele seja econômico em seus lançamentos, mas é bastante desagradável falar algo assim de um artista que milita na música desde o início dos anos 1980 e já assinou participações em gravações tão bacanas como “Quem Me Olha Só” ou “Pense Dance”, só para ficar em algumas.

 

Sendo assim, a minha orientação ao ouvir as faixas deste novo disco foi buscar qualquer centelha de novidade válida e nada nos moldes lamentáveis do que o Barão fez quando lançou “Puro Êxtase”, o seu “disco eletrônico”, nos idos de 1998. Felizmente, ainda que em número baixo, há faixas que dão fôlego para a carreira de Frejat oferecer um mínimo de curiosidade para o ouvinte. São quatro momentos em que “Ao Redor do Precipício” se mostra fresco, simpático e capaz de cativar. Dá certo alívio perceber que Frejat está de olhos e ouvidos ligados no que a música pop tem apresentado nestes tempos.

 

“Amar Um Pouco Mais” é a mais convencional destas faixas. Parceria com Leoni (gravada por este em 2015), a canção é uma bela composição em midtempo, com arranjo belo em que há ênfase no piano. “Tudo Que Eu Consegui” já é mais surpreendente, com uma bela batida disco e arranjo de metais, arejada, leve e pronta para Frejat se reinventar como cantor. Deste mesmo jeito, só que ainda mais arrojada, é “Planetas Distantes”, parceria dele com Dulce Quental, tem arranjo que lembra New Order (!!) e vocais dobrados, mostrando que é possível pensar em novas versões deste Frejat que soa vetusto na maioria do tempo. Fechando este ról de composições que soam como ar fresco em ambiente fechado, surge a arrepiante balada reggae/blues “A Sua Dor É Minha”, que tem vocais de Alice Caymmi, com arranjo que alterna claros e escuros.

 

Se Frejat optar por singrar mares de invenção e reinvenção, pode contar com nossa simpatia constante. Se insistir em manter esta persona limitante em sua própria capacidade artística, sempre estará abaixo do que pode oferecer.

 

Ouça primeiro: “Planetas Distantes”

 

2+

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 comentários em “Frejat – Ao Redor do Precipício

  • 11 de junho de 2020 em 01:14
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    Pois é. Acho o disco do Barão mais interessante. Recomendo ouvir o do Guto Goffi.

    0
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  • 10 de junho de 2020 em 23:34
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    Escutando no exato momento em que leio sua honesta opinião. Adorei “A sua dor é minha”!
    Em live com Zeca Camargo, Frejat alegou que o disco nada tem com o momento atual, porque é um apanhado de canções feitas bem antes de qualquer pandemia (há a do vírus corona e a do verme que nos governa). Enfim… Vale e é bom, mas nem de longe é melhor ou tão bom quanto Viva do Barão Vermelho.

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