Arthur C Clarke contra o racismo

 

 

Se há algo absolutamente inconcebível para mim, é o racismo. Não só pela desumanidade implícita em seu “conceito” como pela absoluta crueldade que tal ideia abriga. Além disso, a quantidade de mortes, sofrimento e infortúnio que ele trouxe para a humanidade ao longo dos tempos, é tão ou mais severa que as guerras e as religiões extremadas. Sem falar quando estas são conduzidas em nome do … racismo.

 

No plano pessoal, o racismo também me é insuportável. Fui criado por uma mãe biológica e uma mãe de afeição, que era negra como a mais bela das noites estreladas. Ela me deu amor, carinho, atenção, cuidado e me alimentou, sem falar no prazer que era ter sua presença. Desde 2003 ela não está neste plano e, desde 2011, minha mãe “natural” também não está. Sempre que vejo o acirramento das questões baseadas no preconceito de cor, minha alma se contrai em tristeza e fúria.

 

Por conta dos protestos recentes e velhos demais sobre o assunto, a morte de George Floyd, a morte do menino Miguel, a morte do menino Luis Paulo, acabei me lembrando de um conto implacável do escritor  inglês Arthur C. Clarke, autor, entre outras obras, de “2001” e “O Fim da Infância”, só para ficarmos nas mais conhecidas. Morto em 2008, Clarke deixou vários livros sensacionais, que ajudaram a me definir enquanto jovem leitor, lá pelos doze, treze anos. Entre eles, está “O Vento Solar”, um compêndio de contos sobre ficção científica. De todas as pequenas histórias do livro, “Reunião” é a que mais gosto. Escrita por Arthur em 1971, quando as batalhas pelos direitos civis nos Estados Unidos já pareciam arrefecer, ele pensou numa história implacável de reencontro entre civilizações irmãs, que dividiram a Terra no passado. Resolvi transcrever o conto – ele é pequeno – e postar na íntegra por aqui.

 

Sendo assim, se gostarem, comprem o livro, porque vale muito.

 

“Reunião”

Arthur Clarke, 1971

 

… Chegamos em paz – e por que não? Pois nós somos seus primos; Nós já estivemos aqui antes.

 

Você nos reconhecerá quando nos encontrarmos, daqui a algumas horas. Estamos nos aproximando do sistema solar quase tão rapidamente quanto esta mensagem de rádio. Seu sol já domina o céu à nossa frente. É o sol que nossos antepassados ​​e os seus compartilharam há dez milhões de anos. Nós somos homens, como você é; mas você esqueceu sua história, enquanto nos lembramos da nossa

 

Colonizamos a Terra, no reinado dos grandes répteis, que estavam morrendo quando chegamos e a quem não pudemos salvar. Seu mundo era um planeta tropical na época e achamos que seria um lar justo para nosso povo. Nós estávamos errados. Embora fôssemos mestres do espaço, sabíamos muito pouco sobre clima, evolução, genética.

 

Durante milhões de verões – não havia invernos naqueles dias antigos – a colônia floresceu. Por mais isolado que fosse, em um universo em que a jornada de uma estrela para a próxima leva anos, manteve contato com a civilização parental. Três ou quatro vezes em cada século, naves estelares ligavam e traziam notícias da galáxia.

 

Mas dois milhões de anos atrás, a Terra começou a mudar. Durante eras tinha sido um paraíso tropical; então a temperatura caiu e o gelo começou a descer dos pólos. À medida que o clima mudou, os colonos também mudaram. Percebemos agora que era uma adaptação natural ao final do longo verão, mas aqueles que fizeram da Terra sua casa por tantas gerações acreditavam que haviam sido atacados por uma doença estranha e repulsiva. Uma doença que não matou, que não causou danos físicos – mas apenas desfigurada.

 

No entanto, alguns eram imunes; a mudança poupou eles e seus filhos. E assim, dentro de alguns milhares de anos, a colônia se dividiu em dois grupos separados – quase duas espécies distintas – suspeitos e ciumentos um do outro.

 

A divisão trouxe inveja, discórdia e, finalmente, conflito. À medida que a colônia se desintegrava e o clima piorava constantemente, aqueles que podiam fazê-lo se retiravam da Terra. O resto afundou em barbárie.

 

Poderíamos ter mantido contato, mas há muito o que fazer em um universo de cem trilhões de estrelas. Até alguns anos atrás, não sabíamos que nenhum de vocês havia sobrevivido. Então captamos seus primeiros sinais de rádio, aprendemos seus idiomas simples e descobrimos que você havia feito a longa escalada de volta à selvageria. Viemos cumprimentá-lo, nossos parentes há muito perdidos – e ajudá-lo.

 

Descobrimos muitas eras desde que abandonamos a Terra. Se você deseja trazer de volta o eterno verão que reinou antes da Idade do Gelo, podemos fazê-lo. Acima de tudo, temos um remédio simples para a praga genética ofensiva, porém inofensiva, que afligiu muitos dos colonos.

 

Talvez tenha continuado – mas, se não, temos boas notícias para você. Povo da Terra, você pode se juntar à sociedade do universo sem vergonha, sem constrangimento.

 

Se algum de vocês ainda for branco, podemos curá-lo.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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