Fica em casa, classe média!

 

 

Por que é tão difícil pra classe média ficar em casa durante a quarentena? Por que vemos nossos amigos e amigas postando mirabolâncias, fazendo joguinhos, mandando correntes, dizendo o que estão e o que não estão fazendo neste período? E nem vou dizer que é apenas a primeira semana, porque as previsões mais otimistas davam três meses de confinamento para a primeira onda do coronavírus iniciar uma curva descendente na velocidade de contágio. Gente com Internet, videogame, serviço de streaming, livros, discos, simplesmente não consegue lidar com o tempo extra?

 

Aqui em casa somos três e mais duas gatas. Estamos cozinhando, arrumando a casa, vendo séries, conversando, ouvindo música constantemente, trabalhando em projetos, estudando. Não devo dizer que estamos sofrendo por estarmos assim, exceto, claro, pelo medo da pandemia se tornar algo ainda pior do que está. Acompanhamos as notícias que chegam da Itália, da China, da Espanha e vemos o nosso coração disparando perante a ignorância do governo federal em relação ao que acontece. Mas não estamos surtando, acho. Vejo gente à beira do colapso nervoso em uma mísera semana. E eu acho que tenho uma explicação para isso.

 

O neoliberalismo é uma variação do capitalismo extremamente cruel e devastadora. Talvez a maior perda que tenhamos – além de direitos e estabilidade nos empregos – é a de tempo. O sistema nos leva todo o tempo disponível. Nos faz pensar diuturnamente em trabalho, dinheiro, como vamos pagar tal conta, como vamos quitar tal boleto…O sistema nos faz ser hamsters na rodinha, presos na gaiola que se tornou o mundo. Neste espaço reduzido – nossas casas, pagas em aluguel, quase nunca nossas – só entramos para dormir e, logo cedo, sair novamente para trabalhar ou para o home office, deixando de lado a sensação de estar em casa. E o sistema ainda nos obriga a comer fora, fazer ginástica, fazer cursos fora, pós-graduação, deixar filhos em creches, escolas, tudo fora de casa. Só estamos preparados para as férias escolares e olhe lá. As famílias de classe média não têm mais … a casa.

 

Falo isso porque, aos quase 50 anos, vivi um tempo em que não havia neoliberalismo como hoje e o sistema era, digamos, mais frouxo. No início dos anos 1980, ainda vivendo sob o estado de bem estar social – e sem Internet e a rapidez de hoje – era possível ter uma vida diferente. Eu jogava botão, ouvia rádio, meus discos e fitas, estudava para o colégio e via TV. Só. Não tinha 1/10 das opções de lazer disponíveis hoje, na minha casa copacabananse dos anos 1980. Já pensou como seria se a Internet fosse desligada amanhã? O que essas pessoas fariam? Acho que optariam por sair às ruas mesmo com o risco total de contrair a covid-19.

 

O ser humano dos anos 2020 perdeu a capacidade de habitar um espaço que seja seu. Perdeu a noção de ter tempo de sobra. Por mais que ele reclame que falta tempo em sua vida, ele não consegue desfrutá-lo sem sentir-se mal ou culpado ou perdido. A falta de tempo livre pautou a nossa vida nesses últimos 30 anos. A música mudou, o cinema mudou, a TV mudou, tudo relativo às artes mudou para se adaptar a esta realidade. O próprio espaço público mudou para que as pessoas convivam … sem conviver. As coletividades perderam o sentido de interação, se tornaram efêmeras e individuais, por mais paradoxal que pareça. Não há o compartilhamento de experiências, vivências. Ou seja, o ser humano está muito solitário pelo sistema e agora, em quarentena, está duplamente solitário.

 

Minha recomendação é: viva um dia de uma vez. Vá ler um livro, ouvir um disco, ver um filme, sem qualquer compromisso em interromper a experiência. Abra mão dos botões de pause e stop, vivencie a obra de arte sem determinar quanto tempo isso vai demorar. Não interfira na duração, procure se readaptar à presença abundante do tempo em sua vida. Talvez ajude. Curta a sua casa, descubra como se apaixonar por ela, và até a janela, olhe para a rua vazia, reflita. Pense no tempo em que não havia outro jeito a não ser esperar.

 

Em tempo: este texto não serve para os amigos que estão com filhos pequenos em casa, uma consequência ainda mais profunda do vínculo do sistema com o tempo e a vida contemporânea. Nesse caso, minha recomendação – sem ter filhos pequenos – é que usem e abusem de todo o arsenal disponível para distrair, interagir e amenizar o impacto deste período anômalo na vida dos pequenos. Mas algo sempre conta: seja criativo e amoroso com a cria. E isso vai, por mais cansativo que seja, se transformar em distração e eficaz meio de passar o tempo mais rápido.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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