Perca duas horas e meia vendo “Army Of The Dead”

 

 

O mais novo longa de Zack Snyder, “Army Of The Dead”, é tão ruim quanto os filmes que ele tem realizado para a DC Studios. Não dá pra entender a boa vontade que o público e parte da crítica têm para com ele, um diretor mediano e roteirista pouquíssimo criativo. E olha que este novo filme marca a volta do sujeito a um “cinema de raiz”, uma vez que sua estreia na direção, lá em 2004, foi com “Madrugada dos Mortos”. Bem, se Snyder sabia algo do assunto, seu tempo na frente de produções maiores encarregou-se de levar este conhecimento embora. “Army…” é confuso, estranho, desfila clichês em todos os lados e, quando tenta inovar, chafurda no péssimo roteiro, mas, gente, é PÉSSIMO mesmo. Pra não dizer que o filme é perda total de tudo, há a presença de uma atriz iniciante que rouba as cenas nas quais está, a inglesa Ella Purnell.

 

Ella é a filha do mercenário gente boa Scott Ward (Dave Bautista, cuja atuação faz que brucutus como The Rock e Vin Diesel sejam atores no mesmo nível de um Lawrence Olivier). Scott teve presença importante no combate a um surto de mortos-vivos que vitimou a cidade de Las Vegas num passado recente. Por conta de um acidente, uma criatura escapa da custódia do exército e inicia uma trilha de mortes até chegar na Sin City. Os combater acontecem entre militares e os zumbis, com a derrota dos primeiros, o que acarreta o cercamento da cidade e seu isolamento. Tudo isso acontece nos primeiros dez minutos de filme, mostrando ao espectador o que aconteceu. Várias lacunas surgem, mas a gente vai esperando que o roteiro explique minimamente o que aconteceu, mas ficamos na saudade.

 

O fato é que Scott, como todo mercenário bonzinho, acaba ferrado pela vida, trabalhando como chapeiro numa casa de hamburguers, até ser encontrado por um chefão obscuro, que o contrata para voltar a Las Vegas e resgatar um montante de 200 milhões de dólares, esquecidos num cofre sob um dos vários hotéis cassino da cidade. Pra isso, Scott precisa reunir uma equipe para penetrar em Vegas e efetuar o roubo. Detalhe: o prazo é curto, já que o governo americano, diante das possibilidades esgotadas, decidiu jogar uma bomba nuclear na cidade, como o único meio de erradicar os zumbis.

 

A equipe abusa dos clichês. Tem engraçadinho, tem vilão oculto, tem ex-mercenário amigo do passado, tem ex-amor mal resolvido, tem nerd simpaticão, tem alívio cômico, tem mulheres empoderadas e por aí vai. A presença da personagem de Ella Purnell, Kate, é a única coisa boa nos momentos que exigem capacidade mínima de atuação. Até Ana de La Reguera, boa atriz mexicana, que brilhou em “Narcos”, não consegue fazer de sua personagem algo relevante. Sendo assim, resta ao espectador focar nos zumbis e aí o filme ganha nova dimensão…de problemas. Há dois tipos de mortos-vivos. Os “trôpegos”, que são zumbis normais, banais, lentos e facilmente vencidos. E tem os “alfas”, que parecem versões do Marilyn Manson ou do Glen Danzig, dependendo da hora, que se movem rápido, pensam e chegam a ter uma organização social na cidade. E a gente nem imagina como tudo isso aconteceu.

 

Sabemos bem que uma produção como “Army Of The Dead” não existe para que apreciemos o desempenho shakespeariano dos atores, mas é preciso um mínimo, um tico de carisma, e só Purnell tem isso. O resto é o velho coquetel snyderiano: bombas, explosões, carnificina generalizada e aquela overdose de sangue, vísceras e gosma pulando de um lado para o outro da tela. Quem gosta disso – e apenas disso – vai se divertir. E o pior é que este longa é o início de uma leva de produções para a Netflix, incluindo as séries “Army Of The Thieves”, que vai mostrar os mesmos personagens em prequels e spinoffs diversos, numa coisa chamada “armyverse”, um universo que será rodado e filmado sobre o assunto, TODO ELE NA MÃO DE ZACK SNYDER.

 

Se for se arriscar na empreitada, prepare-se para momentos de constrangimento dramático extremo. E preste atenção em Ella Purnell, porque ela ainda vai dar o que falar.

 

ANO:2021

PAÍS:EUA

DURAÇÃO:2h28 min

DIREÇÃO:Zack Snyder

ROTEIRO:Joby Harold, Zack Snyder, Shay Hatten

ELENCO:Ella Purnell, Dave Bautista, Michael Cassidy

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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