Felipe Neto no Roda Viva

 

 

O Youtuber, empresário e influencer carioca  Felipe Neto esteve ontem no programa Roda Viva. Muita gente viu, um número bem maior ainda não viu, mas o fato é que a presença dele era aguardada por todo mundo que já entendeu a necessidade de se manifestar contra o atual governo federal. Durante cerca de noventa minutos, Felipe esteve diante – virtualmente, claro – da bancada do Roda Viva, que tinha, entre outros participantes, os apresentadores Edgard Piccoli (da Jovem Pan) e Raquel Sheherazade (do SBT), que se referiu a Neto como sendo um “ex-hater seu”. No centro das discussões, o posicionamento que o Youtuber adquiriu recentemente, de usar seu espaço online para tentar esclarecer e se manifestar contra as ações do governo federal.

 

A presença de Felipe Neto nesta luta, assim como a de Anitta (ainda que ela não se manifeste claramente, mas que esteja abrindo espaços para informar seu público) é decisiva. O professor Jesse de Souza, autor do livro “A Elite do Atraso” e tantos outros, elogiou a postura destes entes sociais neste momento e cravou: “precisamos confiar na direita, na direita democrática. Naqueles políticos que não se importam com a desigualdade, que não se mobilizem pela troca do sistema, mas que prezam a democracia e respeitam as regras do jogo democrático”. Acredito que tenha sido esta percepção que moveu Neto, por exemplo. É um erro cobrar dele uma postura anti-capitalismo, por exemplo, mas é possível/provável que ele seja uma pessoa que preze os valores democráticos a ponto de lutar por eles.

 

O Youtuber disse que se sentiu incomodado e indignado quando começou a ver que o atual ocupante da presidência havia colocado sua tendência de entusiasta da ditadura militar e do autoritarismo à mostra, especialmente quando começou a endossar as manifestações pró-ditadura e contra as instituições. Felipe mencionou que, não só começou a se manifestar como cobrou que outros influenciadores fizessem o mesmo, ainda que isso lhe custasse críticas e represálias. E assim o fez, passando a veicular conteúdo em que ataca os desmandos do governo federal para um público estimado em 38 milhões de seguidores no Youtube e outros dez milhões no Twitter. E acrescentou: “acho que vivemos um período de carência total, que se reflete na importância que o influenciador tem nessa hora. Deveria haver mais gente, em outros setores, falando sobre o perigo que este governo representa”. Bingo!

 

Felipe Neto está certo. A pulverização da mídia em vários canais, mas ainda com pouquíssimos donos, faz com que os veículos tradicionais sejam cada vez menos acessados, sobrando um espaço enorme para inúmeras alternativas. Só que tal pluralidade não se traduz em opções, mas num vácuo que dá a entender que, ao contrário de abundância, tenhamos um enorme vazio. A audiência é preguiçosa, esteve acostumada a ligar a TV e o rádio e tudo ser entregue de bandeja. Nestes novos tempos é preciso procurar, cavar, tudo com a certeza de que o resultado é certo, porque a tal abundância de opções existe. E está lá, esperando para ser acessada e descoberta. É mais ou menos o que tentamos fazer aqui na Célula Pop. Te informar de coisas que existem, são legais e vão te transformar, mas, para isso, você vai ter que ir atrás delas. E a gente te mostra o caminho.

 

Voltando ao Felipe Neto.

 

Com uma postura humilde em relação a aprender sobre política e sociedade, algo que ele disse estar fazendo continuamente, ele chamou o impeachment sem provas de Dilma Rousseff de golpe e se disse muito arrependido do tempo em que batia nos petistas. Certamente é um dos raros casos de gente que despertou para o desejo vazio de mudança, um slogan encampado pela mídia em relação aos governos de Lula e Dilma. Lembram da “alternância de poder ser saudável”? Pois é. E Felipe ainda falou algo muito importante sobre meritocracia. Ao ser perguntado sobre o assunto, tendo ele mesmo como exemplo de peso ao ter, mesmo com sua origem humilde, se tornado um empresário influente num país injusto como o Brasil, se acreditava em meritocracia, ele disse:

 

– Absolutamente que não. A meritocracia é uma grande ilusão liberal criada por pessoas que querem vender sonhos e que, muitas vezes estão lucrando com a venda desses sonhos. A meritocracia ela só existe se você tiver duas pessoas em exatas condições. Se você já está comparando uma pessoa branca e uma pessoa negra, já não existe esse assunto. Ainda mais num país como o Brasil. Pra isso basta olhar as estatísticas. Falo isso como um observador, como alguém que gosta de se inteirar. Entre homens e mulheres, negros e brancos, pobres e ricos, não existe. O fato de ter vindo de um lugar pobre não faz de mim a regra. A regra é que todas as pessoas que lá ficaram são a prova de que a meritocracia não existe.

 

Um pouco antes, ele já dissera que o governo bolsonaro se alimenta da disseminação do caos em vez de oferecer propostas para o país. Atacou os isentões, cobrou melhor uso da linguagem política para atingir os jovens e admitiu erros no passado por alguma eventual colaboração à destituição do governo Dilma. Se isso não é benéfico para o país atualmente, o que poderia ser?

 

Enquanto a esquerda brasileira seguir desunida, letárgica e sem penetração, teremos que confiar nos direitistas democratas e nos influenciadores digitais com capacidade de reflexão. É melhor que nada, mas poderia ser muito melhor. De qualquer forma, parabéns ao Felipe pela posição e pelas palavras. O Brasil também agradece.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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