Grace Jones, ou o afrofuturismo em 1981

 

Icônica e desconcertante

 

Nascida na Jamaica, em uma família com sete filhos. Criada em um ambiente cristão, sob forte disciplina religiosa. Nos Estados Unidos, estuda teatro e descobre outra vida na contracultura dos anos 60. Chega na França como modelo de moda e fotografia. Retorna a Nova York e integra-se à cena disco, gravando seus primeiros três álbuns no final da década de 70. Nessa época, atua em alguns filmes, mudando de patamar quando participa de Conan, o Destruidor (1984) e 007, Na Mira dos Assassinos (1985). E os anos 80 nem tinham terminado…

 

Grace Jones não é pouca coisa: modelo, cantora, atriz, performer… Na fase disco, ela se notabilizou como uma diva gay. Nos anos 80, suas imagens se tornaram ícones pop e influenciaram muitas artistas. Depois, ela ainda se dedicou à produção musical. Escreveu suas próprias memórias e foi escolhida como tema de um documentário que mostra as conexões entre sua arte e sua vida. É reconhecida como uma referência de estética negra.

 

Nightclubbing é parte do momento em que Jones está bastante dedicada à música. Seus três primeiros álbuns estão vinculados à cena disco. Warm Leatherette (1980) inicia uma outra fase, em que Jones se associa à new wave, fazendo uma significativa mudança de rumo dentro da mesma gravadora, a Island Records.

 

A Island Records pertencia a Chris Blackwell, que em 1979 havia produzido os álbuns de estreia da The B-52’s e da The Slits. Em 1980, a gravadora contratou uma banda chamada U2. O inglês foi uma figura importante na promoção de artistas africanos, como o nigeriano King Sunny Ade, uma das principais referências da “Juju music”.

 

Blackwell, que cresceu na Jamaica, teve ainda papel central na disseminação do reggae. Mesmo se, conforme alguns críticos, ele mais tirou do que ofereceu. De todo modo, foi ele o produtor do antológico Catch a Fire (1973), de Bob Marley, que lançou o reggaeman para o público britânico.

 

Em 1977, Blackwell montou o Compass Point Studios, nas Bahamas. Além de ter sido o local onde a AC/DC gravou Back in Black, o estúdio se tornou a base de um time excepcional de músicos: o baixista Robbie Shakespeare, o baterista Sly Dunbar, o tecladista Wally Badarou, os guitarristas Mikey Chung e Barry Reynolds e o percussionista Uziah Thompson. Essa rapaziada foi a banda de suporte para um dos álbuns de Joe Cocker e dois álbuns da Tom Tom Club (com o casal que era metade da Talking Heads).

 

Os três primeiros álbuns dos anos 80 de Grace Jones foram gravados nesse estúdio e com essa banda. A produção ficou nas mãos de Chris Blackwell e do engenheiro de som Alex Sadkin. Das nove faixas de Nightclubbing, algumas foram registradas ainda em 1980 durante as sessões de Warm Leatherette. Seis singles destacam músicas do álbum, incluindo extras e novos remixes.

 

A capa de Nightclubbing é uma das imagens mais icônicas de Grace Jones. Seu autor é Jean Paul Goude, fotógrafo e designer francês. Juntos, como um casal, Goude e Jones criaram uma estética que combina elementos díspares: referências africanas e ocidentais, femininas e masculinas.

 

Essa estética pode ser vista em movimento nos vídeos que Goude produziu e no show que ele dirigiu. Esse material foi reunido em One Man Show, lançado em 1982, com a maior parte de seu repertório composto de músicas de Nightclubbing.

 

Nessa estética, Grace Jones aparece andrógina e androide. A negritude entra aí de uma forma complexa, ao mesmo tempo empoderada e exposta, mas também objetificada por uma abordagem às vezes exotizante. Tão complexa que mereceu recentemente uma exposição na Inglaterra, com a contribuição de muitos artistas. Organizada com a participação da própria Jones, coloca-a como foco e também pretende propor um olhar crítico sobre a produção de sua imagem.

 

Juntando fotografias e objetos relacionados à cantora, a exposição reúne registros desde os anos 1970 até as duas primeiras décadas do século atual. É exatamente pelas variações desconcertantes apresentadas por sua imagem, embaralhando tempos e gêneros, que Grace Jones desponta como uma referência incontornável para o afrofuturismo.

 

Voltando à capa de Nightclubbing: o trabalho de Goude faz Jones parecer uma estátua, dessas que tanto fazem falta nas ruas de nossas cidades, povoadas de monumentos representando, em sua imensa maioria, homens brancos.

 

 

Combinações visionárias

 

Nightclubbing é um “álbum de reggae” tanto quanto seria Selvagem?, dos Paralamas. Ou seja, não é – no sentido de algo que o defina. Pois ao mesmo tempo que o reggae está em tudo, não é suficiente, deixando espaço para outros ingredientes entrarem.

 

No caso de Grace Jones, os “culpados” pela onipresença do reggae são Sly e Robbie. Figuras incontornáveis da cena jamaicana dos anos 1970, a dupla protagonizou ou acompanhou muito do que se fez em torno do reggae. Inclusive nos desenvolvimentos que transformaram o gênero. Essa dupla fenomenal assume a bateria e o baixo em Nightclubbing.

 

E há no álbum músicas cuja base é indefectivelmente o reggae temperado pelo dub. Nessa lista vão estar “Walking in the Rain”, “Use Me” e “I’ve Seen That Face Before”, o que já é um terço das faixas de Nightclubbing. A questão é que cada uma dessas músicas tem ingredientes que as distanciam do que se esperaria de “um reggae”.

 

Coincidência ou não, as três composições são versões de músicas gravadas por outros artistas. Trata-se de algo recorrente na carreira de Grace Jones. Seu primeiro hit foi uma versão disco de um standard da chanson française. Na fase a que pertence Nightclubbing, há vários exemplos, com outras fontes servindo de manancial.

 

A questão é que as versões de Grace Jones têm o poder de transmutar as originais. Não apenas musicalmente, mas também liricamente. Ou seja, não se trata apenas de releitura, mas de uma espécie de provocação que revela uma concepção artística muito diferente. Há algo de antropofágico no trabalho de Jones, como mostra sua versão de um clássico do pós-punk. “She’s Lost Control”, da Joy Division, virou um reggae(!) em que a letra se refere a quem canta a música, e não mais a outra pessoa, como foi composta por Ian Curtis.

 

Isso se aplica aos três reggaes de Nightclubbing. “Walking in the Rain”, que abre o álbum, foi gravada originalmente por uma banda australiana, Flash and the Pan, em 1978. Pode ser descrita como um tecnopop. Sua frieza e contenção desaparecem na versão de Grace Jones. Há mais: a letra que é entoada como um lamento de inadequação, na voz de Jones se transforma em auto-afirmação: “Me sentindo como uma mulher, parecendo um homem, soando como nem isso ou aquilo, me acasalando quando der”.

 

“Use Me” foi originalmente composta e gravada por Bill Withers, que a incluiu em seu álbum de 1972, Still Bill. Um soul cheio de suingue. Jones dá uma enquadrada na música, o reggae servindo de base para Badarou inserir um solo de teclado que soa progressivo. A letra, em que alguém responde aos que o alertam que ele está sendo usado por uma mulher, fica mais escrachada, dialogando com outra composição, esta da própria Jones: “Algumas pessoas gostam de ser usadas, eu fui usada e entretida, mas é assim que eu me vejo, look My Art Groupie”.

 

“I’ve Seen That Face Before”, um dos pontos mais altos de Nightclubbing, incorpora o tema de “Libertango”, música de Astor Piazzolla, registrada em um álbum de 1974. Ao contrário do tango de Piazzolla, o reggae de Jones não é instrumental. A letra fabula uma cena de flerte na noite parisiense. Há trechos em francês (foram feitas versões em que esses trechos estão em espanhol e, sim, em português), que acrescentam um tom perigoso ao romance.

 

Lembremos que em 2021 Piazzolla completaria 100 anos e tomemos a faixa de Nightclubbing como uma devida homenagem. Mesmo antes do acordeão entrar, há algo fascinante nessa música. Enquanto baixo e bateria produzem a fervura, o teclado intervém com toques glaciais. A combinação faz inveja a muito “tango eletrônico” que apareceria anos depois.

 

Outro ingrediente básico de Nightclubbing é o funk. Em nenhuma outra faixa isso é mais evidente do que em “Pull Up to the Bumper”, um dos sucessos do álbum. Em certos trechos, o funk vira disco, e a música continua embalando qualquer pista que se preze. A letra foi feita no estúdio e você pode escolher se está dançando ao som de uma narrativa automobilística ou de alusões e metáforas sexuais.

 

“Demolition Man” também tem no funk a sua base. Mas quando acelera dá destaque às guitarras, de um modo que a permitiria colocar em uma playlist do pós-punk. A letra, aliás, foi um pedido de Jones para Sting, e a The Police gravaria sua versão alguns meses depois, incluindo-a em Ghost in the Machine. Novamente, Jones se diverte – e nos confunde – com a letra: “Sou um desastre ambulante, sou um homem-demolição”.

 

“Art Groupie” pode ser escutada como um synth-pop, Jones declarando sua relação com o mundo das artes. “Feel Up” é um loop de baixo e bateria, base para estripulias variadas, destacando o estilo vocal da artista, meio falado, meio cantado. O teclado acrescenta tons de pop africano ao conjunto. Enquanto a primeira é mais fria, a segunda é tórrida, em outro exemplo da combinação de opostos.

 

“I’ve Done It Again” é uma composição de Marianne Faithfull com o guitarrista Barry Reynolds, parceiros em vários álbuns da cantora britânica. Foi feita para as gravações no Compass Point Studios. A letra nos convida a viajar por lugares e tempos variados. Sonoramente, é uma balada classuda, dançante, um perfeito relaxante para encerrar o álbum.

 

Mas não esqueçamos da faixa título, outra versão. “Nightclubbing” é uma homenagem a David Bowie e Iggy Pop, que a compuseram. O vocalista da The Stooges incluiu a música, com letra descrevendo diversões noturnas, em seu primeiro álbum solo, The Idiot, de 1977. A versão de Grace Jones é hipnótica. Poderia estar na lista dos reggaes. Mas os ingredientes eletrônicos e percussivos a tornam uma predecessora do trip hop.

 

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Emerson G

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).

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