Eu não consegui ver o Oscar 2021

 

 

Há um bom tempo eu acompanho a premiação do Oscar. Ontem, no entanto, por uma série de motivos, me limitei a observar aqui e ali algumas coberturas “jornalísticas” para me inteirar do evento. E neste ano eu nem acompanhei os filmes indicados. Dos que disputavam o prêmio de Melhor Filme, eu só vi “Os 7 de Chicago”, de Aaron Sorkin, e “Meu Pai”, de Florian Zeller.  Os outros ainda não passaram no meu radar e, dentre eles, confesso que apenas “Minari” me despertou alguma curiosidade. Ao saber das premiações, eu fiquei bem feliz com a vitória de Sir Anthony Hopkins por seu papel em “Meu Pai”. Nada poderia ser mais justo, mesmo sem ver os outros desempenhos. O que este senhor fez na tela ao interpretar um homem em estado avançado de senilidade é para poucos e raros. Também fiquei feliz com a vitória de “Soul”, especialmente no prêmio de Melhor Trilha Sonora.

 

E parei por aí mesmo.

Mas o que me aflige e me motiva a escrever essas linhas é relatar a vocês o absoluto desespero para encontrar alguém que falasse com propriedade sobre os filmes, atores, diretores e tudo mais. O que vi foi um oceano de desinformação, falta de noção, desconhecimento em estado bruto, tudo indo ladeira abaixo. Foi assustador e lamentável perceber que os formadores de opinião no jornalismo cinematográfico brasileiro atual não entendem patavina do que estão vendo. E isso é até lógico, dado o fato de que nem precisam entender. A demanda que o mercado de digital influencers é volátil e exige apenas a capacidade de gerar cliques, likes e só. Conhecimento e análise minimamente séria não fazem mais parte do que é necessário para se posicionar sobre o assunto. E isso também se aplica a outros campos da cultura pop, especialmente música e TV.

 

Eu mesmo digo que não entendo muito de cinema. Eu acho extremamente difícil escrever uma crítica sobre um filme, justo porque exige tempo de compreensão, captação de nuances, detalhes e bastante estudo. Fazer jornalismo fast food a respeito disso é quase inevitável nesses dias. Mas o que vi ontem nem era jornalismo. Vários canais do Youtube faziam lives e todas elas, TODAS ELAS, mostravam os “analistas” vestido como se estivessem na cerimônia do Oscar, com longos, smokings e, tristemente, falando muita besteira, quando não estavam perdidos em lodaçais de piadas internas sem graça. A única que fazia algum sentido, mas que esbarrou na minha falta de conhecimento sobre os indicados, foi a do Choque de Cultura, que, em essência, é um deboche sobre o assunto. As outras, pretensamente sérias e reais sobre o evento, eram insuportáveis.

 

E quando fui para o “jornalismo sério” do grupo globo, esbarrei na lamentável postura de seus apresentadores, Maria Beltrão e Arthur Xexeo, evidentemente despreparados e desconectados do assunto. Lamentei apenas por Dira Paes, a única pessoa na mídia brasileira – grande e alternativa – a estar no ar ontem com conhecimento e postura dignas. Pra completar o caos absoluto, Xexeo, um dos mais renomados da Cultura no jornalismo carioca, disse, ao ouvir “As”, de Stevie Wonder, como sonorização da parte “in memorian”: Pelo menos esse ano eles colocaram uma música mais “balançada”. A letra de “As” fala sobre perda, tristeza e saudade. Ou seja, ninguém sabe mais nada de nada.

 

Então, gente o que pode ser feito? Nada, né?

 

Essas pessoas seguirão fazendo grana às custas da hipnose internética de um exército de espectadores sem noção, que serão sempre reféns dessa burrice concentrada e dessa indigência disfarçada de esperteza? Não dá mesmo pra esperar alguém minimamente sério e preparado, falando sobre o assunto?

 

Sim, tem uma pessoa que eu recomendo a vocês. Isabela Boscov, que foi crítica de cinema da revista veja e que tem um canal no Youtube no qual ela faz análises ótimas e comprometidas com seu ofício. Tristemente, não conheço outra pessoa fazendo isso atualmente em português do Brasil. Prestigiem a moça e cortem o fluxo de patrocínio de pizza, aplicativo, empresa de alimentos, telefonia e demais mantenedores da burrice disfarçada de esperteza que está lobotomizando a gente.

 

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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