Entrevistão Fabiano Maciel

 

 

Fabiano Maciel é cineasta, gaúcho – morador de São Paulo – gremista, colaborador bissexto da Célula Pop e gente boa. É desses caras capazes de dar fluidez e contexto a qualquer assunto, do futebol na Guerra Fria à cena do samba-jazz carioca dos anos 1960. Agora ele assina – ao lado de Jorge Bodanzky – a direção de “Transamazônica – uma estrada para o passado”, que vem sendo exibida às quintas-feiras, 21h, pelo canal HBO Mundi, numa co-produção com a Ocean Films, tendo Nuno Godolphin à frente.

 

Diante da importância da série e da própria história de Fabiano, fizemos esta entrevista, não só sobre suas realizações no ramo do audiovisual, mas para mostrar como o setor está paralisado por conta das ações do atual governo e como, tristemente, isso afeta ao país.

 

 

Como surgiu a ideia de rodar uma série sobre a construção da Transamazônica?

A ideia foi do produtor Nuno Godolphin. Poucos sabem, mas o Nuno tem uma longa conexão com a Amazônia. Ele é antropólogo e fotógrafo, e também tem um espírito aventureiro. Nos anos 80 ele foi um dos primeiros cinegrafistas do projeto Saúde e Alegria, que fez história em Santarém atendendo as populações ribeirinhas do Tapajós. Depois ele foi perambular pelos garimpos do Pará. No início dos anos 2000 ele foi o produtor de campo e um dos pesquisadores de personagens do meu document_ário Vaidade, sobre as revendedoras de cosméticos nos garimpos. Bem, o Nuno rascunhou o projeto junto com o Tiago Carvalho. O Tiago é um jovem ninja que temos orgulho de acompanhar o trabalho dele desde o começo. Ele acabou não participando da série porque foi fazer um projeto dele, também amazônico, O índio Cor de Rosa Contra a Fera Invisível, sobre o médico Noel Nutels.

Bem, o projeto inicial seria com o Pereio, reencarnando nos dias de hoje, seu personagem no filme Iracema, uma Transamazônica feito pelo Bodanzky em 1973. Ele viajaria pela estrada relembrando os tempos do Brasil ame-o ou deixe-o. Acabou não rolando assim. Por uma destas coincidências da vida, eu estava fazendo um trabalho na produtora da Laís Bodanzky e sugeri que o Jorge também participasse. Aí o HBO se interessou.

 

Você consideraria a obra um fiasco?

Uma das personagens que encontramos em Medicilândia (sim, existe uma cidade com este nome no Pará, assim como existe outra chamada Presidente Figueiredo no Amazonas) questiona isto. Ela tem uma história interessante: Neta de gaúchos que migraram primeiro para o norte do Paraná, depois, atraídos pelo canto de sereia das campanhas publicitárias do governo se organizaram para mudar pro norte. O pai dela foi conhecer a região, o avô pediu que ele voltasse com amostras de terra da região. Analisando a terra trazida em diferentes vidrinhos, o velho escolheu o lote onde eles iriam plantar. Este velho homem era um agricultor nato! E assim a família dela foi ocupar uma das primeiras agrópolis construídas pelo governo militar. Hoje esta moça é uma das principais produtoras de cacau do país. É claro que ela é uma exceção. Mas para muita gente, a Transamazônica, foi um bom negócio. Para a maioria da população foi um fiasco. Fiasco em todas as esferas: como estrada, até hoje ela não foi concluída, e sequer chegou ao final previsto, que era no Peru, ligando Atlântico-Pacífico. Mas mesmo com pouco asfalto e muito buraco e muita lama, ela serviu de caminho para o surgimento de inúmeras mazelas e o agravamento de outras tantas:

-desmatamento, queimadas, aquecimento global, garimpo, tráfico de drogas, prostituição, exploração sexual de menores e de mulheres, trabalho escravo, biopirataria, tráfico de animais silvestres, monocultura da soja e dos eucaliptos, pecuária extensiva, violência no campo, grilagem de terra, exploração ilegal de madeira e o massacre maior, que é a destruição das populações indígenas…são tantos problemas que é mais fácil perguntar: tem algo que tenha funcionado? Praticamente não.

 

 

Os episódios da série têm uma preocupação com a divulgação dos fatos históricos e das propagandas estatais da época. Você acredita no potencial didático da produção?

Vendo os comentários sobre a série, encontro muita gente mais nova falando que a série “é uma aula sobre a estrada”. Neste sentido, acho que ela funcionou. Sobre os cinejornais. Eu sou fascinado por eles. De qualquer época. Mesmo os mais chatos, ufanistas e delirantes. E tem um fato também que me surpreende até hoje. É incrível como basta ouvir o tom da voz do locutor para que eu seja levado imediatamente para a minha infância. Eu cresci nos anos 70. Estes cinejornais eram exibidos no cinema antes do filmes. Então, provavelmente quando eu ia assistir Teixeirinha, ou Tubarão, ou Judoca, os cinejornais rolavam. E a gente odiava. (Menos quando tinha canal 100).

 

 

Quais foram os principais obstáculos que você enfrentou?

Eu posso dizer que a viagem, de modo geral foi tranquila. O nosso inimigo, como sempre era o tempo. No sentido de querer ficar sempre mais um pouco em alguns lugares. Alguns trechos da viagem são mais cansativos, dependendo das condições da estrada, em algumas regiões você leva 1 tarde pra percorrer 100 quilômetros. Mas não posso reclamar. Esta não era uma série sobre os melhores spas do Caribe.

 

 

Teve que percorrer toda a extensão da estrada?

Eu fiz o trecho nordeste inteiro, do km zero da estrada que fica em Cabedelo no litoral da Paraíba, cruzando a Paraíba inteira, parte do Ceará, Piauí, Maranhão, o bico do Tocantins e o sul do Pará, passando por Altamira, Marabá e Itaituba. De Itaituba até o final em Lábrea, quem fez a viagem foi o Bodanzky. E este trecho “amazônico” da Transamazônica é muito mais selvagem, as distâncias entre as cidades e os vilarejos são maiores.

 

 

À medida que os episódios vão avançando, os problemas iniciais – logística, engano, oportunismo político – vão dando espaço para situações mais violentas e virtualmente criminosas, apontando as próprias origens dos conflitos que temos hoje na região. Dá pra reverter esse estado de coisas por lá?

Dá, porque temos que ser otimistas. Só que não dá! He he. Com este governo, jamais! Talvez, com um governo de esquerda novamente, e assim mesmo, com muita luta para peitar os grupos econômicos e conciliar as pressões de todos os lados. Com muito trabalho e principalmente, fiscalização, presença real e plena de agentes do estado (cientistas, ambientalistas, policia ambiental, agrônomos, biólogos, médicos, professores, promotores de justiça comprometidos com os interesses das populações mais carentes, etc, etc) se consiga reverter algo. O antropólogo Viveiro de Castro disse numa entrevista algo que concordo. De modo geral, os governos do PT tiveram uma visão equivocada da Amazônia, uma visão ainda desenvolvimentista, fizeram Belo Monte, que é indefensável. Mas ao mesmo tempo adotaram diversas medidas de apoio às populações indígenas e aos ribeirinhos. O que ele deixa claro é que, ao contrário dos cretinos opinadores da grande imprensa, que tentam colocar no mesmo saco Lula e Bolsonaro, com Lula e Dilma, havia diálogo, havia projeto e havia alguma tentativa de equilíbrio. Hoje não há diálogo e só há um projeto: destruir tudo e rapinar tudo, o mais rápido possível.

 

 

Conta para o nosso leitor um pouco da sua carreira como diretor de cinema.

Eu comecei como estagiário de produção, no Rio de Janeiro, no meio dos anos 80. Cai no documentário por acaso, porque era o que se podia fazer com o equipamento que dava sopa nas produtoras. Fiz um video com o Fausto Fawcett sobre os surfistas de ônibus (existiam no início dos anos 90) e depois comecei a fazer documentários na antiga TV Educativa. E nos últimos 30 anos, fico equilibrando, tentando fazer meus projetos pessoais e pagar as contas. Aí, pra isto, vale quase tudo.

 

 

Como está a situação atual do audiovisual no Brasil? Muito pior do que podemos imaginar?

Audiovisual? O que é isto? Se come? Tem como superfaturar?
Sim, muito pior do que podemos imaginar. como tudo no governo Bolsonaro, o projeto é de desmonte e destruição. é uma visão tão estúpida e burra, que não consegue nem ver que o audiovisual gera empregos, divisas, etc, etc. é um negócio. Mas este é um governo que não faz negócios, só negociatas.

 

 

Como você, na condição de criador e profissional do setor, vê o streaming e a mudança de paradigma para se consumir cinema e produções para a tv?

Eu acho que o streaming é inevitável. E acho que num mundo ideal, sem pandemia, as duas opções conseguem existir e ocupar espaços simultaneamente.

 

 

Existe algum assunto que você gostaria de levar para um documentário e que não levou ainda? Qual seria?

Vários. Uma biografia do meu herói de todos os tempos, o Barão de Itararé; um filme sobre os tropeiros gaúchos que trabalham ainda no pampa entre o rio grande e o Uruguai; uma versão cabocla do Cidade e as Serras do Eça…

 

 

Se você pudesse escolher um profissional do cinema – ator, diretor, produtor – para trabalhar, qual seria e por que?

Caramba! Meus filmes costumam ser muito simples, e de um modo geral, eu trabalho com as mesmas pessoas tem muito tempo. Pra você ficar dois meses dividindo uma van, aviões, hotéis, etc, você tem que gostar de estar ao lado destas pessoas. É um pouco o que o Niemeyer falou sobre Brasília, que durante a construção levou uns amigos que não eram arquitetos, porque não queria ficar no cerrado falando só de colunas e cálculos estruturais.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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