Entrevistão Frank Jorge

 

 

Frank Jorge é um discreto herói do rock nacional. Este sentido “nacional” é uma abstração nossa, porque, (in)felizmente, Frank é um patrimônio cultural do Rio Grande do Sul. Com uma folha de serviços extensa prestada aos bons sons, ele já esteve em bandas como Cascavelettes e Graforreia Xilarmônica. Também constituiu uma sólida carreira solo, na qual tangencia o rock dos anos 1960 e suas abstrações jovem-guardistas e psicodélicas. E agora ele se junta ao produtor e multitarefas Kassin para lançar “Nunca Fomos Tão Lindos”, um disco moderno, diferente e cheio daquele humor característico de Frank, meio caótico, extremamente crítico e afiado.

 

Frank também tem uma vida de professor de música na Unisinos, já há 14 anos e a gente fica pensando na sorte desses alunos em estabelecer convivência acadêmica com semelhante figura.

 

Batemos um papo com ele sobre o novo álbum, a parceria com Kassin e todo o contexto de pandemia/pandemônio que se abate sobre o Brasil.

 

 

– Este é um de seus trabalhos mais diversos, rolou uma retomada dos tempos de Graforreia Xilarmônica ou é só impressão?

Olha…confesso que não tinha olhado por este ângulo… em alguma medida, seja na Graforreia ou no Frank Jorge solo, tento não me repetir e assim, fazer o que tenho vontade. Mas acho que podemos enxergar sim, um certo caráter “libertário”, “sem fronteiras total” que estava sempre presente na Graforreia. Mesmo que o trabalho solo do Kassin explore bastante o universo banda Black Rio, Lincoln Olivetti e outros mestres de música dançante brasileira, tem sempre elementos muito pessoais, muito particulares; no meu “frank solo”, também existe isto. O Nunca Fomos Tão Lindos é um outro “alien” que inventamos. (he he he) E nos deixou muito felizes.

 

 

– O Kassin sempre se mostrou um fã da Graforreia, que foi uma das grandes influências do Acabou La Tequila, a banda que ele montou lá no fim dos anos 1990. Como foi o contato entre vocês e como surgiu a ideia do disco a dois?

O histórico de nossa amizade é bem interessante!!! Kassin produziu o disco Graforreia Xilarmônica Ao Vivo em 2004/ ano da gravação (álbum saiu em 2006) junto com o Berna Cepas e foi um momento de conhecê-lo melhor. Mas, justamente, tinha um outro encontro e umas sincronicidades anteriores-confusas: em 1992 a GX tocou no festival Super Demo e segundo o Kassin, fomos apresentados… não recordo muito bem deste momento mas ocorreu de fato. Em 2001 saiu o álbum Bloco do Eu Sozinho dos Los Hermanos e como muita gente, fiquei encantado com aquele álbum… produção do Kassin. Em 2019 assisti em fevereiro o show dele com sua banda em Porto Alegre no Bar Agulha, conversamos um pouco. Fomos trocando umas ideias “pilhadas” por um amigo em comum, inscrevemos o projeto no NATURA MUSICAL 2019 e fomos contemplados!!! Comecei a compor materiais para este projeto pensando em música brega dos anos 1970, rock’n roll dos anos 1970 e conversando muito com ele por telefone, vídeo-chamadas. Final de fevereiro de 2020, antes do semestre letivo iniciar, gravei no Estúdio Marquise 51 um material demo com 14 músicas, com violão, teclado, guitarra, baixo, sem bateria. E ele foi erguendo ideias rítmicas com muitos sons e efeitos eletrônicos interessantíssimos!

 

 

– Você tocou todos os instrumentos, compôs todas as canções, como foi o processo criativo deste disco e em que ele difere do processo dos trabalhos anteriores?

Independentemente de eu assinar todas as composições do álbum, rolou muiita troca e diálogo através de ligações telefônicas, vídeo-chamadas, e-mails, falando sobre referências musicais em comum, como Celly Campelo, Brian Wilson, High Llamas, DEVO… Organizávamos na véspera das datas de gravação uma espécie de roteiro do que eu gravaria no dia seguinte, por exemplo, gravar guitarra em tais e tais músicas, guitarra base, algum dedilhado, algum solo, e assim por diante. Eventualmente ele trouxe sugestões de suprimir alguma “volta” na música que estava duplicada, coisas deste tipo. Todas suas ideias foram sempre muito bem vindas e respeitadas. Nos meus trabalhos anteriores (que culminaram em álbuns) eu geralmente chego com um repertório pronto, amplo, aos amigos Thomas Dreher (Estúdio Dreher) ou Alexandre Birck (Estúdio Sangha) e um par de ideias já relativamente direcionadas para cada música… daí… justamente, a semelhança do do que rolou com o Kassin, escuto as opiniões dos amigos-colegas-técnicos-de-som ou sound-designers, como queira, e´vamos em busca da arca perdida! Eu toquei vários instrumentos no álbum, baixo, piano, violão, guitarra, mas dependendo da faixa o timbre está super processado, escondido, adulterado, junto com outras ideias de instrumentação eletrônica, efeitos, baixo e baterias programados, uma belezura só.

 

 

– Falando em trabalhos anteriores, eu sei que é como perguntar qual o filho preferido, mas você tem algum disco que seja mais especial?

Realmente é uma pergunta difícil… cada disco representa uma fase da vida pessoal/ vida-artística com o perdão do clichê desta afirmação…Mas sem dúvida alguma, no momento, o NUNCA FOMOS TÃO LINDOS é o predileto, muitas escutas e reeescutas!!! Vida de Verdade, segundo álbum solo, com meu pai e mãe na capa, mora bastante no meu coração… é um álbum um pouco mais sério, menos cronista, menos galhofeiro. Mas eu me pego volta e meia reescutando todos eles com igual prazer, igual carinho..

 

 

– Em meio ao distanciamento social, como aconteceram as gravações e tudo mais?

Ocorreram em Porto Alegre, eu e o técnico de som Beto Silva no estúdio Marquise 51 e no Rio de Janeiro, Kassin em seu estúdio. Como comentei antes, fizemos muitos contatos, muitas conversas sobre o repertório e o instrumento que seria gravado no dia seguinte, dicas preciosas sempre. No dia seguinte no estúdio, Kassin entrava via Zoom pelo notebook e fazia a produção da sessão de gravação. Fluiu super bem. Poucas gravações e takes foi sem este esquema. Kassin estava sempre super atento, interessado e o disco ficou supimpa!!!

 

 

– Como está sendo a pandemia pra você? O que você tem feito para passar o tempo?

Sou professor e coordenador de um curso de música na Unisinos em Porto Alegre; tive bastante trabalho para sincronizar adaptação ao ensino remoto, sessões de gravação, leituras, idas ao supermercado, mas não tenho como não reconhecer que diante da realidade de muitos brasileiros, eu estava numa condição favorável. Minha esposa Daniela tem doença auto-imune artrite reumatóide: teve covid lá por 24, 25 de março.;.. crises de dores, internação em hospital. Recuperou-se com isolamento em casa, gerenciei sua alimentação e distanciamento dos nosso dois filhos (de quatro que temos) que ainda moram conosco. Ela “fez-se” escritora neste período e começou a publicar poemas nas redes sociais digitais. Publicou o E-book gratuito , TANTO FIZ QUE DEU POEMA. E desde então, levo o café na cama a ela todos os dias. Ela é professora de inglês e está trabalhando bastante.

Consegui assistir vários filmes, documentários, li “Tremor”, do Jonathan Franzen, li “A Cruel Visita do Tempo”, de Jeniffer Egan, fiz lives em festivais, lives bem caseiras pelo IG, doei livros, vinis, CDs, revistas, comida…vi o Inter ser roubado e não ganhar o título brasileiro de 2020.

Estar vivo é um privilégio. Perdi alguns amigos de mesma idade para a Covid-19, um deles ontem mesmo…

 

 

– Que bandas você tem ouvido? Alguém novo para recomendar, dentro e fora do RS?

Paul Mauriat, Elvis Costello (o álbum “Punch The Clock”), Dexys Midnight Runners, T.Rex, Herb Albert, Roger Eno, Vírus (Argentina), Andrés Calamaro (Argentina) High Llamas, Brian Wilson, Beach Boys, The Jam, Fernando Mendes, Johann Sebastian Bach, Bodji (de São Sebastiao do Caí, morando um tempo em POA, estou produzindo seu primeiro álbum com 10 faixas), MGMT, The XX, Arlo Parks, The Supremes, Nick Cave and The Bad Seeds, Chico Buarque, trilha do Rock’n Roll High Scholl (Ramones e muito mais), Céu, Luana Carvalho, Tulipa Ruiz, The Cure, DEVO, Human League, Kraftwerk, Os Mutantes, Rita Lee, Celly Campelo, Quarto Sensorial (RS)

 

 

– Há um bom tempo você dá aula na UNISINOS. Conta pra gente como foi a tua passagem para o meio acadêmico:

Estou envolvido há 14 anos com docência no Ensino Superior e é uma experiência importante,… trabalhar com jovens, organizar vivências e conteúdos para construir algum recorte histórico e chamar a atenção da turma; preparar com bastante seriedade o pessoal para um mercado que está constantemente se modificando. Gratidão por esta possibilidade de estar na Unisinos. É cansativo, sim, mas muito gratificante.

 

 

– Em que medida o atual momento do Brasil te inspirou e como?

A inspiração principal diante de tudo o que vivemos era a e superação; em algumas letras, escritas entre novembro de 2019 / fevereiro 2020, manifesto minhas ideias sobre liberdade, liberdade de criação, minha hojeriza à truculências, ofensas, e claro, aquele mix maluco de referências literárias e culturais a la Mutantes, Beatles que sigo gostando muito de fazer. Muito triste esta página que estamos vivendo com este governo federal… lembro o período de adolescência, com a anistia em 1979, eleições indiretas com Tancredo e um clima de redemocratização concreto, na segunda metade dos anos 1980 em diante. Retrocedemos cruelmente.

 

 

– Na tua opinião, como a presença de um governo como este em nível nacional e as estações repetidoras estaduais e municipais podem prejudicar a cultura e sua difusão?

O cerceamento das liberdades individuais, desrespeito ao diferente, ao contraditório, são retrocessos muito sérios. Os artistas são agentes importantes na sociedade e suas diferentes formas de expressividade, não podem ser tolhidas, direcionadas. Como digo numa música deste álbum… ahhhh / eu nunca desisto… e vejo desta forma, não desisto de dizer as coisas que vejo, sinto, mas, dizendo do meu modo. Mesmo que nem todos possam gostar, se identificar ou entender, merrrmo. Diga não à repressão!!!

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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