Dolores Fantasma – Voto de Silêncio/Horror Vacui

 

 

Gênero: Eletrônico, rock alternativo

Faixas: 10
Duração: 32 min.
Produção: Olavo Rocha
Gravadora: Independente

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Ouvi este disco único da Dolores Fantasma com o coração na mão. Logo nos primeiros acordes da faixa de abertura, “Voto de Silêncio”, a gente já nota o risco da empreitada: música alternativa no sentido do termo, ou seja, de e para poucos. Eletrônica artesanal, cultivada qual horta orgânica em meio ao latifúndio artístico do presente. Gente destemida fazendo música pelo prazer de seguir influências e tendo qualquer fator como objetivo final, menos o dinheiro, o lucro, o comércio. Dolores Fantasma é a materialização desta atitude corajosa/louca de produzir algo sem que se espere qualquer remuneração. Em tempos de neoliberalismo e consumo como meio de vida, fazer um álbum como “Voto de Silêncio/Horror Vacui” é nadar de cachorrinho contra a corrente, surfar na cara da sociedade de consumo, dar petelecos na orelha do trump e seus seguidores.

 

Sim, porque um disco como este é político até a medula, mesmo que você não ache. Ele é assim na raiz, na intenção. Não bastasse isso, ele é sensacional e dinâmico, diferente de tudo que está sendo feito no país atualmente. Aliás, pra ser sincero, talvez só haja paralelo entre o que Dolores Fantasma deixa aqui e alguns momentos isolados do fim dos anos 1980, quando algumas bandas como Fellini, Nau, Vzyadoq Moe, Sexo Explícito se meteram a decalcar timbres e atitudes equivalentes ao lado D do pós-punk britânico. Tem postura de gente como Durutti Column, um certo “virtuosismo punk”, investindo pesado na contradição de termos para poder existir.

 

Por trás do projeto está Olavo Rocha, líder da ótima Lestics e participante do Gianoukas Papoulas. E com ele estão, além de seu filho, Pedro Canales , vários convidados, que vão de Marcelo Patu, Ivan Santos e Loop B a Rubinho Troll e Thomas Pappon, não por acaso, mentes pensantes de Sexo Explícito e Fellini, respectivamente. Com um espírito colaborativo e gentil, Dolores Fantasma recria climas cinzentos e graciosamente datados, mas que, por estes milagres do tempo, soam atuais também. São canções de refugiados urbanos, gente cinza por falta de opção, que vaga pelas ruas e deposita vapores nas paredes de concreto sem que sejam notadas. É tristeza que dá gosto de ouvir e vivenciar. Tem guitarras, mas tem programações de bateria e ritmos diversos que conferem um clima de sonho estranho, quase-pesadelo, ou não.

 

Canções legais são várias. “Espelho”, com Pappon, é enguitarrada e evoluiu para climas tensos no final. “No Grito”, com Loop B, é um Prodigy triste, com baixo orçamento e desespero para pagar boletos no fim do mês. “O Passado Ataca Por Trás” é belamente desconcertante e traz Ivan Santos como co-participante. “Voto de Silêncio” traz o ex-Lestics e também Gianoukas Papoulas, Umberto Serpieri e evoca a solenidade banal do ir e vir pelas ruas da cidade e a nossa incapacidade de quebrar este ciclo. “Horror Vacui” é soturna e tem eletrônica minimalista/vintage subterrânea, enquanto “Jogar Os Dados” é quase normal, com guitarras, violões e algo de música de circo, mas sem plateia e por acaso.

 

Dolores Fantasma parece um projeto casual, destes que são condenados a passar rápido. Se for, terá deixado uma baita marca na música alternativa e independente nacional. Daquelas destinadas a representar privilégios de poucos e bons. Se for uma banda/projeto que veio para ficar, este primeiro disco é um dos cartões de visita mais sensacionais dos últimos tempos.

 

Ouça primeiro: “Espelho”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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