Cobra Kai é imperdível

 

Quem viveu nos anos 1980, lembra do primeiro “Karate Kid”. Lançado em 1984, o longa trazia a história de Daniel Larusso (Ralph Macchio), um adolescente gente boa que se muda com a mãe para Los Angeles e é obrigado a lidar com uma nova realidade. Dentro deste novo contexto está a tarefa de fazer novos amigos na escola e todos sabemos como isso é difícil, ainda mais quando você tem um bando de valentões – praxe em filmes americanos – enchendo o saco. Pior quando eles são todos lutadores de caratê, treinados como soldados por um mestre picareta e mauzão. Para sobreviver no novo lar, Daniel irá precisar de ajuda e ela chega com os ensinamentos de um zelador do prédio em que mora, um sujeito como o nome de … Miyagi (Noriuki Pat Morita). Daniel se torna popular, aprende caratê com Miyagi, ganha dos valentões e ainda conquista Ali (Elizabeth Shue), a namorada do líder, Johnny Lawrence (William Zabka). Ponto final.

 

Este parágrafo acima mostra como o filme é superficial e, mesmo assim, ainda é o melhor dentre os quatro que foram lançados, baseados na história. O último, que traz apenas Miyagi, tem a curiosidade de marcar um dos primeiros papeis de Hillary Swank, como uma adolescente mimada que aprende caratê. Nunca, entretanto, nenhum outro longa foi tão importante como o primeiro. Até a chegada da sensacional e inesperada Cobra Kai, série baseada nos personagens e no mundinho de Larusso e sua turma. Ou melhor, não. É um produto totalmente novo, cativante e surpreendente, que aprofunda de forma impressionante as tramas e subtramas insinuadas no primeiro “Karate Kid”.

 

O protagonista da vez não é mais Larusso, mas Johnny Lawrence. Na meia-idade, deprimido, desempregado, sem contato com o filho e dirigindo um Pontiac Firebird, Lawrence é um sujeito antiquado e resmungão. Vive às turras consigo mesmo e não suporta ver o quanto Daniel se tornou bem sucedido, dirigindo uma rede de concessionárias de carros de luxo, casado, pai de dois filhos e um exemplo de cidadão. Até que ele conhece Miguel (Xolo Maridueña), um vizinho de origem equatoriana, recém-chegado à cidade, que sofre com valentões no colégio. Johnny ainda guarda seus troféus dos tempos de carateca e se nega a ajudar Miguel a se defender de garotos mais fortes, até que o vê apanhando no lado de fora de uma loja de conveniência. E tudo muda. Inclusive os papeis, os valores, tudo.

 

Cobra Kai, para quem não lembra, é o nome da academia na qual Johnny e os outros valentões dos tempos do primeiro filme treinavam, sob a orientação terrível de John Kreese, o tal mestre barra pesada. E é o nome que ele vai reativar quando decide, sim, ensinar Miguel a se defender. O problema é que a postura, os valores, as ideias de Johnny não antiquadas, ele não tem jeito como professor, dá conselhos desonestos e tudo mais. A bondade do menino, no entanto, é o que fará a diferença, iniciando uma relação de pai e filho, uma vez que Miguel vive com a mãe e a avó e Johnny tem problemas de relacionamento com seu próprio filho, Robbie (Tanner Buchanan), que, por sua vez, é dado a fazer pequenos furtos e aplicar pequenos golpes.

 

Daniel Larusso, por sua vez, é o sujeito bem estabelecido da história. Casado com Amanda (Courtney Henggeler) e pai de Sam (Mary Mouser) e Anthony (Griffin Santopietro), ela com 16 anos, ele ainda criança, ambos desinteressados pela sabedoria oriental que Larusso precisou deixar de lado por conta dos negócios, mas que ainda cultiva e guarda consigo. Quando percebe que o Cobra Kai voltou a existir, Daniel adotará uma postura em que sua conduta passa a ser questionável, não medindo esforços para prejudicar a empreitada redentora de Johnny, vendo a rivalidade entre ambos voltar a existir.

 

E este é o pano de fundo adorável para a existência da série, que já tem duas temporadas e já teve a terceira aprovada. Primeiramente lançada no Youtube, Cobra Kai teve cinco milhões e meio de visualizações nas primeiras 24 horas de exibição quando foi ao ar, em maio de 2018. Agora as duas temporadas estão disponíveis na Netflix e a série já se tornou uma das mais exibidas do serviço de streaming.

 

Falando pessoalmente, sempre achei Daniel um chato absoluto. Ele nunca teve carisma, era mimado, metido a estourado e apanhava muito para se dar bem no final. Por mais que desejasse secretamente que ele se ferrasse, jamais imaginei que alguém poderia dar profundidade e nuances para ele. E nunca pensei que seria possível a construção de um personagem complexo como Johnny Lawrence. William Zabka, um ator inexpressivo e cuja única aparição de sucesso foi essa, nos idos de 1984, se mostra sensacional, mesmo com pouco talento interpretativo. Sua postura durona, “mauzão mas com coração” dá espaço para várias reviravoltas, sendo impossível não gostar dele.

 

Tal trabalho é mérito exclusivo de Josh Heald, Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg, que pegaram os esboços do original, escrito por Robert Mark Kamen e geraram uma história que mistura afeto, rejeição, redenção, arrependimento, humor e tudo que você possa imaginar. Com episódios curtinhos – entre 22 e 37 minutos – Cobra Kai é uma das melhores novidades recentes em termos de séries. Lembra um pouco os filmes da franquia “Creed”, que reavivam o personagem “Rocky”, criado por Sylvester Stalonne, mas talvez seja ainda mais legal. Vejam e amem.

 

 

3+

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

One thought on “Cobra Kai é imperdível

  • 7 de setembro de 2020 em 19:15
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    Rapá, já estava franzindo a testa até o seu redentor penúltimo parágrafo. Karatê Kid nunca me pegou, o Ralph Macchio é um ator ruim, que não convence nunca e seu Daniel merecia apanhar mais e perder!!!
    Na verdade, do primeiro filme lembro é da Elisabeth Shue, acompanhei-a em Cocktail, De Volta para o Futuro, O Santo, até seu Oscar em Despedida em Las Vegas. A última vez que a vi estava em Piranha 3D (ninguém merece!). Ontem vi até às três da matina e continuo hoje; torcendo para o Larusso tomar uns tabefes. O playboy velho tomar tendência e, quem sabe, a Elisabeth apareça!!!!
    Valeu a dica!!!!!

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