China – Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos

 

Gênero: Rock alternativo
Duração: 35:31
Faixas: 11
Produção: Yuri Queiroga
Gravadora: Pedra Onze

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Este já é o sétimo disco do qual China participa. Sua estreia foi no distante ano de 1999, a bordo de sua ex-banda, Sheik Tosado, no bom “Som de Caráter Urbano e de Salão”, que teve um mérito: trazer um peso hardcore/metal para o que se chamava de manguebeat à epoca, e que já se encontrava em processo de mutação por conta da morte de Chico Science e da evolução do trabalho do mundo livre s/a, as duas bandas fundadoras da coisa. China, oriundo do mesmo eixo Olinda-Recife, surgia como um entre os participantes de uma segunda geração desta turma de artistas, que não chegou a acontecer de fato. Sua carreira solo foi muito mais no peito e na raça do que uma consequência de alguma herança estética. Este seu novo disco, “Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos”, como o nome já diz, é
uma cacetada no Brasil pós-golpe de 2016.

 

China é um cara que parece ser gente boa. Ele é uma espécie de reserva crítica nas transmissões de eventos musicais do Multishow, se é que isso é possível. Seu jeito peculiar de falar mansamente contrasta diretamente com o teor das letras e das levadas pesadas que povoam as onze faixas do álbum. Há bases rítmicas que honram uma linha de evolução das misturas de rock e estilos nativos de Pernambuco, iniciada pelo manguebeat, mas estas influências surgem total e naturalmente incorporadas à musicalidade do sujeito, com resultados que dão em espécimes híbridos e adoravelmente tortos, de rap/hc/rock com repente, coco, embolada e outros bichos, que convivem em harmonia, sem que tenhamos a impressão que estamos numa aula de Teoria Geral da Comunicação. É tudo legal, ou melhor,
joinha, como diria o próprio China.

 

A produção de “MSDM” ficou a cargo de Yuri Queiroga, que também faz parte da banda que acompanha o cantor. Sua sensibilidade para perceber a necessidade de peso (no sentido punk rock do termo) das letras faz com que as onze canções adquiram uma unidade que só faz bem ao disco. Além dele, o próprio China se aventura na programação de beats, toca baixo, órgão, e seleciona samples. Fechando o trio primordial do disco, o percussionista Lucas do Prazeres. Há convidados especiais como o trombonista Nilsinho Amarante na quase vinheta “Subdesenvolver” e em “O Selvagem”, os guitarristas Neilton (Devotos) em “Fascismo Tupinambá”, e Andreas Kisser (Sepultura) em “Frevo e Fúria”. O filho de China, Matheus Câmara, assina a programação de bateria eletrônica em “Consumo” e em “Mareação”, que também tem baixo de Felipe Faraco e bateria de Arquétipo Rafa. Também há vozes femininas. Bell Puã com sua poesia dura em “Moinhos de Tempo”, Natália Matos que banha de leveza o refrão de “Mareação” e Uyara Torrente (A Banda Mais Bonita da Cidade) que traz profundidade a um dos momentos mais lindos do disco, que é o dueto em “Pó de Estrela”.

 

As letras são um caso à parte. Veja alguns exemplos:

– “Tem que ter na memória e no livro de história que a nossa elite era eugenista. Vaticano doado por um fascista” – em “Moinhos de Tempo”

 

– “Sob as leis todos são iguais, a diferença é quem paga mais” – em “Fascismo Tupinambá”

 

– “Fascista, Cidadão de bem, tabacudo, vai tomar no cu” – em “Fascismo Tupinambá”

 

– “Hoje vai sorrir pra tristeza; Quarta e domingo sempre tem futebol. Os dias só começam depois do carnaval” – em “Mareação”

 

– “Enfrentar qualquer perigo. Coragem para mudar. Pelos olhos do destino. Coragem para mudar Tudo é uma questão de se manter alerta e vivo” – em “Entre Coronéis”

 

– “É proibido pensar, falar, informar; todo o direito de argumentar. É proibido pensar, calar, se esquivar. Engolir a seco com gosto de sangue pra depois deixar sangrar, gritar, se rebelar” – “em “Frevo e Fúria”.

 

Este “Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos” é endiabrado, articulado e de acordo com o deserto de possibilidades do Brasil atual. Um reflexo, uma consequência, uma voz no meio da multidão. Necessário.

 

Ouça primeiro: “Frevo e Fúria”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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