Obrigado, Mangueira!

Depois de vinte anos formado em jornalismo, resolvi que deveria fazer outra faculdade. Foi um desses movimentos que a vida nos obriga a fazer, vocês sabem bem como essas coisas são. Dentre as opções possíveis, um velho desejo: cursar a faculdade de História. Estudei o que podia, contei com a sorte nas provas de exatas de consegui passar para o melhor curso do país na área: o da UFF. Não por coincidência, a cerca de quinze minutos de casa. Melhor impossível.

Isso foi em 2009. Hoje, dez anos depois, estou formado, concluí um mestrado em História Social e curso o Doutorado na mesma área, pesquisando bailes soul do Rio de Janeiro e sua relação com a memória da resistência à ditadura civil-militar que governou o país entre 1964 e 1985. Sim, os bailes soul do subúrbio carioca eram, além de festanças de som, importantíssimas manifestações de resistência à opressão e momentos de profunda afirmação do orgulho negro. Vocês não imaginam a quantidade de documentos que dão conta da ação de agentes do sistema nos bailes, procurando terroristas, dinheiro vindo do exterior, conexões com lideranças negras fora do país e mais um monte de suspeitas que soam estapafúrdias mas que fazem total sentido dentro da lógica de terror e opressão instaurada naqueles tempos.

Dentro da faculdade de História nada pode ser tão legal e moderno quanto a História Oral. É – grosso modo – a chance de revisitar a História com base em entrevistas e depoimentos de testemunhas de eventos ocorridos. A História Oral é uma das ferramentas importantes dentro de um movimento de revisão historiográfica que norteia a academia nos nossos tempos, o de valorizar e analisar fontes documentais de todos os tipos. Antes, sobretudo em meados do século 20 e nos tempos anteriores, a História era prisioneira dos registros oficiais dos governos e dos vencedores em guerras e conflitos. Isso vem mudando aos poucos, é uma batalha constante travada por alunos, professores e estudiosos da História e será inevitável olhar para fatos do Brasil e do mundo com outro olhar. Já está acontecendo. Em toda parte.

Qual não foi a emoção que senti quando dei de cara com o desfile da Mangueira neste Carnaval de 2019. O enredo, “História Pra Ninar Gente Grande”, do carnavalesco Leandro Vieira, fala sobre justamente esta questão dentro do estudo da História. E aplica sua essência para a nossa realidade nacional. E faz tudo isso num desfile da escola de samba mais famosa do país. O que essa gente conseguiu foi uma façanha. Em 71 minutos de desfile, o objetivo de recontar a história do Brasil privilegiando índios, negros e pobres, foi plenamente alcançado.

Em tempos como os atuais, em que há pessoas acreditando que o ensino deve ser reformado, ceifado de seu pensamento crítico – que alguns chamam de “escola sem partido” – ver a Mangueira na avenida soa como uma deliciosa e necessária afronta. Ela realizou o sonho de vários historiadores, que lutam para que testemunhos de oprimidos possam ser usados para validar fatos que condenam seus opressores. Exemplos não faltaram ao longo do desfile da escola: O Duque de Caxias, conhecido como “O Pacificador”, surgindo sobre corpos de índios e negros fuzilados; o “Marechal de Ferro”, Floriano Peixoto, igualmente pisando sobre cadáveres, especialmente os gaúchos que foram dizimados na Revolução Federalista; os bandeirantes, que massacraram índios e negros em busca de ouro no interior de São Paulo, os próprios navegantes portugueses retratados como conquistadores, em vez de descobridores, tudo isso me deixou com um nó na gargante e de alma lavada.

Sem falar na justiça de falar dos heróis anônimos, negros, pobres e índios, que escreveram a nossa história com sangue derramado. Ou como diz a belíssima letra: “há sangue retinto pisado atrás do herói emoldurado”.

Não tem preço ver “ditadura assassina” escrito num carro alegórico, no qual Hildegard Angel vem vestida de negro, usando um colar de cruzes, feito por sua mãe, a estilista Zuzu Angel, homenageando as vítimas do regime civil-militar, entre elas, Stuart Angel, seu filho.

Como coroamento de sua importância como verdadeiro mito da resistência e da inclusão de mulheres, de negros e pobres, a vereadora Marielle Franco, assassinada no Rio ano passado, num crime que revoltou o país e indignou o mundo, ainda sem solução, é mencionada na letra do samba-enredo, junto com Dandara, Leci Brandão e outras personalidades negras da resistência. De ontem e de hoje. Por tudo isso, o desfile da Mangueira é histórico. Me emocionou como em 1984, quando a escola passou exaltando o falecido compositor Braguinha trazendo o próprio no último carro alegórico, sentado num banco de praça sob a sombra gentil de uma mangueira.

Talvez a escola não vença o Carnaval carioca de 2019. A cidade é governada por um prefeito que é bispo licenciado da Igreja Universal e o estado tem como governador um indivíduo que estava na ocasião em que políticos conservadores quebraram a placa de rua com o nome da mesma vereadora Marielle e ostentaram seus fragmentos como troféus de uma guerra insana. Talvez isso afete o resultado, talvez não. Não importa. O que aconteceu na avenida em 2019 já está na história. E, se tudo der certo, será lembrado, estudado e vivenciado por conta da pesquisa de historiadores movidos pelo desejo de não deixar de fora de seu ofício nenhum registro, nenhuma prova, nenhuma fonte documental.

Obrigado, Mangueira. De coração.

OBS: este texto foi escrito na madrugada do dia 06/03, portanto, ANTES do resultado final da apuração do Carnaval carioca.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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