Rocketman – A Crítica

 

Finalmente, “Rocketman”, o filme inspirado na vida de Elton John, está em cartaz. Tenho uma teoria simples: nunca haverá uma cinebiografia de popstar perfeita. Pelo menos, dos artistas que realmente merecem uma biografia. Sempre haverá fatos sobrando, histórias mal contadas, situações contornadas, enfim, nunca haverá uma fidelidade total aos fatos e isso é bom. Se você quer esta precisão histórica, os documentários são a sua pedida e é neles que você vai encontrar a paz. Porém, há várias formas de se contar a história de um artista pop e a escolha deste formato é crucial para que o filme seja o mais fiel possível. Às vezes tal precisão surge nas sutilezas, nas abstrações e este é o caso de “Rocketman”.

 

Se você está se perguntando se este é um filme melhor que “Bohemian Rapsody”, eu te respondo com todas as letras: SIM. Mas, veja, é MUITO MELHOR. Ainda que a biografia do Queen cumpra sua função junto ao público, “Rocketman”, podemos dizer, está à altura de um ícone da música do século 20 como Elton John. A direção de Dexter Fletcher, produtor executivo de “Bohemian Rapsody”, a partir do roteiro de Lee Hall, se vale das abstrações e das próprias canções de Elton e seu parceiro, Bernie Taupin, para contar sua própria história. Ainda que algumas licenças cronológicas sejam tomadas ao longo da narrativa, o método impressiona pela eficiência. A cenografia é belíssima, a fotografia e as interpretações das canções são tudo o que o filme do Queen poderia ser se ousasse um pouco mais.

 

Aliás, “ousadia” é uma palavra que está presente em “Rocketman”. O próprio Elton declarou recentemente que sua vida não havia sido “PG-13”, ou seja, “censura livre”. O filme não economia nas alusões à homossexualidade de Elton, seu estilo de vida e sua espiral descendente em relação ao uso de várias drogas. A razão, já sabemos: jovem reprimido, criado num lar sem amor, ignorado pelo pai, desprezado pela mãe, que encontra uma maneira alternativa de viver e identificar-se com algo, no caso, através do estudo do piano e, logo depois, pelo surgimento do próprio rock’n’roll.

 

Nenhuma análise do filme, por mais superficial que seja, estará completa se ignorar a atuação magistral de Taron Egerton. Se Rami Malek comoveu o mundo – e foi premiado – por sua performance como Freddie Mercury, Taron merece o dobro de prêmios pelo Elton que coloca nas telas. Não bastasse a aparência física impressionante, o ator inglês consegue compor um personagem muito complexo, cheio de linguagem corporal, emoção, dualidade e tristeza. Em certos momentos, o mito do palhaço triste surge nas performances de Elton, em contraste com sua confusa vida pessoal, orbitando pessoas gananciosas e procurando, acima de tudo, ser amado. O filme, aliás, é sobre isso, a falta e a necessidade de amor.

 

“Rocketman” é um filme sério e intenso. Se a música de Elton John é exuberante, belíssima e cheia de lirismo, sua história tem mais tons cinzentos do que aparenta. O mérito maior do longa é deixar o espectador com esta certeza absoluta, mesmo os que não conhecem o trabalho do cantor e compositor inglês. A parte final, na qual Elton procura retornar aos palcos, a música escolhida e o fecho do filme, são perfeitos e precisos. Não deixe de ver.

 

Rocketman
Duração: 121 min.
Direção: Dexter Fletcher
Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemma Jones.

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em “Rocketman – A Crítica

  • 3 de setembro de 2019 em 02:31
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    Confesso que não costumo fazer comentários sobre filmes, por ser algo extremamente subjetivo. Contudo, fui assistir ao Rocketman que retrata a vida de Elton John e me surpreendi com a sua profundidade. Devido a isso, fui conduzida a descrever as minhas impressões sobre a trama. No início da história fica evidente o relacionamento conflituoso de Elton com o pai que demonstra ser um sujeito bastante bruto e impaciente com o filho. Ele tentava aproximar-se do genitor que pedia para silenciar-se e escutar o disco que tocava no cenário. O garoto trancava no quarto aonde buscava refúgio e imaginava uma orquestra sinfônica amenizando a sua tristeza. Parecia que a música era uma forma de Elton paradoxalmente aproximar-se do pai e de expressar as emoções que precisavam muitas vezes serem silenciadas. É válido ressaltar que o enredo é desenvolvido num grupo terapêutico em que o cantor relatava as suas angústias. Ao ingressar na associação ele entra com uma fantasia “extravagante” espantando os personagens. Esclarecendo-me que os seus trajes serviam como uma forma dele ocultar o verdadeiro ser que escondia-se nas máscaras. Ao longo das suas falas ele passa a conhecer o estrangeiro que habitava nele fazendo com que não fosse mais necessário “maquiar” as dores sentidas, por isso a vestimenta exagerada passe a ser gradativamente retirada. Além disso, torna-se evidente que seus óculos escuros tinham o intuito de disfarçar um olhar triste. Ainda, pode-se afirmar que para o cantor apesar de inúmeras expressões de encantamento da plateia nos seus shows faltava o verdadeiro olhar de reconhecimento dos seus pais mostrando que o menino que clamava pela atenção da família encontrava-se presente no seu interior,afinal, diante todo adulto habita uma criança interior. Apenas senti falta de uma conexão da história de Elton John com a atualidade. Todavia, a música trazia magia para todo o contexto expresso e consequentemente transmitia a emoção dele para o espectador tornando o filme imperdível.

    Marcelle Córdula Pereira.

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