Carole King hippie em 1968

 

 

Hoje, dia 09 de fevereiro de 2021, Carole King faz 79 anos. E amanhã, seu disco “Tapestry”faz 50. Vamos comemorar ambas as datas. Hoje a gente traz de volta um texto que publiquei no Monkeybuzz em 2016, falando do início da carreira dela como cantora, num projeto que foi abortado, o The City. E amanhã traremos um texto bacana sobre o próprio Tapestry, com faixa a faixa e tudo mais que o álbum merece.

 

Aqui está link para a publicação original do texto. Divirtam-se!

 

 

Carole King é uma compositora tão – ou mais – influente que Brian WilsonPaul McCartney ou John Lennon. Simples assim. Sua obra, seja como autora na maior parte dos anos 1960, seja como cantora e compositora multiplatinada nos anos 1970, é decisiva para o entendimento da Música Pop como força transformadora da juventude e, mais ainda, como algo com que esses jovens se identificaram a ponto de se confundirem com tais canções e composições. Depois de um determinado ponto, a partir de 1965/66, já não era mais possível separar canções, filmes, obras de arte em geral, todas pareciam fazer parte de um kit de atitudes que rumavam na direção de uma sociedade mais plural, abrangente. Esta mudança de pensamento, na qual, entre outras manifestações artísticas, o Rock se torna Pop e, a partir disto, reivindica seriedade e poder transformador para uma parcela maior de pessoas, afetou tanto ouvintes quanto compositores e, nesta última categoria, Carole, ao lado dos gigantes mencionados logo na primeira frase do artigo, desempenhou papel decisivo.

 

 

Claro que tal mudança não foi algo pensado numa sala, na qual as pessoas se reuniram e determinaram que pensariam de forma diferente a partir daquele momento, mas é possível notar uma evolução de pensamento na sociedade americana a partir de meados da década de 1960, fruto do próprio movimento artístico, do crescimento das cidades, do aumento de jovens como mercado consumidor atingido por uma mídia crescente e própria, tudo apontava para um momento futuro de mudança no mercado e na produção e ele não tardaria a chegar. Podemos dizer que a apropriação de um artista folk como Bob Dylan de elementos do Rock, como guitarra elétrica e uso de uma banda com instrumentos elétricos (a nascente The Band) a partir de 1965, lançando álbuns e excursionando por Estados Unidos e Inglaterra, fez com que a tal música adolescente e hormonal de The Beatles, até então encerrada como moda exclusiva de “alienados”, fosse redesenhada e revista. Tudo mudou a partir disso e ninguém estava imune.

 

 

Para uma compositora de talento como Carole, tal mudança de paradigma significava manter-se atual e sintonizada com as demandas de um mercado adjacente à própria indústria musical da época. Integrante de um time laureado de compositores Pop desde o início da década, sediado no famoso Brill Building, em Nova York, prédio no qual se encontravam vários escritórios de gravadoras, editoras e selos, ela tinha em Gerry Goffin, seu marido, o maior parceiro dentro do ofício. Com vários hits no currículo, compondo para artistas como Neil Sedaka, The Drifters, The Monkees, The Shirelles e Aretha Franklin, que surgiria para a audiência planetária com um sucesso da dupla, a belíssima (You Make Me Feel Like) A Natural Woman, em 1967. Apesar do sucesso e do reconhecimento, Carole queria uma carreira como cantora e já havia tentado gravar sem muito sucesso. Pianista desde os quatro anos, vocalista com registro peculiar e doce, mas talvez sem os gestos estudados e extravagantes que poderiam dar-lhe alguma projeção, ela mantinha-se à espera de uma chance. Com o casamento desgastado, ela e Gerry não tardariam a seguir caminhos distintos a partir de 1968.

 

 

Como parte de uma nova fase em sua vida, Carole, então aos 25 anos, mudou-se de Nova York para a Califórnia, algo que, em fins dos anos 1960, significava avançar uns 20 anos no futuro. Ela deixou a cidade cinzenta e cosmopolita para morar no bairro dos hippies e intelectuais de Los Angeles, Laurel Canyon. Ali, com as duas filhas pequenas, instalada numa casa confortável e em contato com a natureza, reinventou-se e assumiu uma de suas mais importantes (e esquecidas) personas, a de vocalista de uma banda de Rock. Com sua ida para o oeste, Carole trouxe consigo dois amigos dos tempos de Brill Building, o guitarrista Danny Kortchmar e o baixista (então namorado e futuro marido) Charles Larkey e o velho desejo de tornar-se uma cantora, ampliando e mantendo sua carreira de compositora. Com um punhado de composições inéditas, frutos derradeiros da parceria com o ex-marido, Carole tinha material para gravar um álbum. Ela não tardou a conseguir um contrato de distribuição para novos registros em disco, mas a convivência com os amigos e o próprio clima da época, que privilegiava a coletividade e cooperação, fez com que surgisse The City, o trio compreendido por ela, Kortchmar e Larkey, com a participação do baterista local Jim Palmer.

 

 

A banda lançaria um único disco, o belo Now That Everything’s Been Said, no início de 1968. A impressão era de sucesso retumbante, justamente porque o resultado das gravações – produzidas por Lou Adler – apontava para uma música que misturava em boas proporções a magia radiofônica que os hits compostos por Carole para outros artistas ostentavam, com a moderna roupagem do Rock Psicodélico, que revestia os artistas californianos da época. Tudo fazia crer que The City ganharia a América. As canções do álbum logo foram solicitadas por outros artistas, algo que era comum na época, mantendo a tradição que Carole envergava no terreno Pop. Bandas como The Byrds, Blood Sweat And Tears subiriam nas paradas nos meses seguintes às custas da nova fornada de canções, especialmente The Byrds, que colocariam a belíssima Wasn’t Born To Follow em seu emblemático álbum Ballad Of Easy Rider e, pouco depois, na trilha sonora do filme Easy Rider, clássico da contracultura da época, estrelado por Jack Nicholson e Peter Fonda. Mas Carole não contava com um problema pessoal: o medo do palco. Sua vontade e talento para cantar eram inegáveis, mas a moça viu-se travada completamente e The City não excursionou, tampouco apresentou-se ao vivo.

 

 

O resultado foi o quase total engavetamento do álbum e seu consequente esquecimento a partir daí. O grupo se desfez, o divórcio de Carole e Gerry Goffin abateu-se sobre questões burocráticas das canções e do próprio lançamento do disco e tudo se transformou num daqueles momentos da nossa vida em que o melhor é esquecer e começar de novo. Carole fez isso e, em menos de três anos, seria a cantora com mais discos vendidos nos Estados Unidos por conta de seu emblemático álbum Tapestry. Kortchmar e Larkey continuaram a seu lado como colaborador e marido, respectivamente. Ela conheceria James Taylor e mais um grupo extenso de gente boa no circuito musical da Costa Oeste e reinventaria sua carreira a partir daí. Mesmo assim, o álbum com The City segue como um dos seus mais atraentes e interessantes momentos.

 

Com doze canções, o disco constitui-se numa narrativa de 1968, sem qualquer pretensão de transcendência. Seria mais um punhado inocente de canções, mas o desejo de reinvenção de Carole King é o grande atrativo aqui. Sua vontade de desligar-se de sua persona como integrante da indústria musical para perceber e vivenciar a outra ponta da estrada, no caso, como cantora, artista e intérprete de suas próprias criações é total. Este é o maior trunfo desta estreia, que mostra-se, apesar de veterana no ofício da composição, deliciosamente amadora e iniciante na arte de cantar. Sua entrega em canções lindas como Snow QueenWasn’t Born To Follow (cujo original com The City é melhor que qualquer outra versão, na opinião deste que vos escreve) e Why Are You Leaving é total.

 

 

Now That Everything’s Been Said só foi lançado em CD na Inglaterra no fim dos anos 1990 e permaneceu inédito nos Estados Unidos. Em 2015, a gravadora Light In The Attic relançou o álbum em vinil, recolocando-o nas prateleiras da terra do Tio Sam pela primeira vez desde que Richard Nixon era presidente. Repito: o álbum é um retrato nítido de uma compositora e cantora inestimável para a música popular do século 20. Se você não conhece a obra de Carole King, talvez The City não seja a melhor introdução e, para tal, recomendamos o sensacional Tapestry. É um percurso musical que permanece jovem, lírico e que alimenta um monte de artistas legais que você conhece e gosta.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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