Canções que formaram Herbert Vianna

 

 

Desde a meia-noite está disponível nos serviços de streaming “HV Sessions, vol.1”, um delicado feixe de dez canções em que Herbert revisita algumas canções que o fizeram escolher ser um músico – dos melhores. Quem acompanha os Paralamas do Sucesso desde sempre, irá perceber algumas escolhas muito familiares mas poderá estranhar algumas outras, algo que é perfeitamente explicável para um artista complexo como ele. O que cativa no álbum é a fragilidade que os registros ostentam, basicamente levados pelo próprio Herbert na voz e violões, secundado por Chico Neves no minimoog, em alguns teclados e na produção do álbum. Eles repetem a dupla que trouxe ao mundo “Victoria”, trabalho anterior de Herbert, no qual ele cantava vinte composições próprias, especialmente lados-B e algumas canções que ficaram famosas nas vozes de intérpretes. A beleza é a mesma, partilhada entre os dois álbuns, separados por sete anos no tempo.

 

Como “HV Sessions vol.1” é um disco em que a crítica musical não parece muito útil, especialmente porque é um registro pessoal e querido, não norteado por instâncias como a novidade, a urgência ou a sintonia com o tempo em que vem à tona, talvez seja melhor dar uma investigada no repertório e aproveitar algumas falas que o próprio Herbert faz sobre as canções. É um processo sincero de olhar para os tempos de adolescência, entre Brasília e Rio, os tempos de colégio e início de faculdade, os reais anos que nos jogam no mundo e nos arremessam verdades no meio das fuças. E, sim, a música é um poderoso escudo/arma que temos para vivenciar essa época. Sendo assim, fazer um disco com este mote, nesta altura da vida, é algo muito legal e digno de atenção. Por isso, vamos deixar as músicas falarem por si e dar um pouco de voz ao próprio Herbert sobre as escolhas.

 

– Pinball Wizard, The Who – faixa conhecidíssima de “Tommy”, a ópera-rock do The Who, que flexionou os parâmetros do disco/show de rock naquele fim de anos 1960. Herbert, guitarrista virtuoso, é fã de Pete Townsend, como poderia se esperar. “Cheguei até a aprender o giro que ele fazia com as mãos” – diz ele.

 

– While My Guitar Gently Weeps, Beatles – um clássico da lavra de George Harrison, com a gravação original trazendo participação de Eric Clapton, algo bem raro em se tratando da banda de Liverpool. Herbert consegue uma solução de arranjo bem simples e singela, deixando a canção desnudada em belezura.

 

– Tempted, Squeeze – beleza de canção do grupo inglês Squeeze, do qual o apresentador Jools Holand fez parte. Herbert menciona a importância de conhecer a canção pela Rádio Fluminense FM, no início dos anos 1980 e como ela passou a fazer parte do seu cotidiano. “Era uma sonoridade oriunda do pós-punk britânico, que quebrou muitas barreiras” – ele confirma.

 

– Purple Haze, Jimi Hendrix – nesta versão do clássico de Jimi Hendrix, Herbert consegue a ótima sacada de fazê-la soar leve, ao contrário do original. O riff marcante é diluído numa levada que comporta base e solo, algo bem engenhoso. Há alguns respingos aqui e ali, que colorem com tons psicodélicos ocasionais. ,

 

– And I Love Her, Beatles – mais uma canção dos Beatles, desta vez, da fase inicial da carreira do grupo. Uma das melodias mais belas já compostas por Paul McCartney, com um riff de guitarra marcante e solene. A voz grava de Herbert se encaixa como pode em meio à singeleza proposta e o resultado é bem legal. É o figurino do manual dourado das baladas pop universais. Fim.

 

– Opportunity, Elvis Costello – outro representante do pós-punk inglês, contemporâneo do pessoal do Squeeze, Costello tem um início de carreira vertiginoso. Herbert não propõe grandes mudanças no original, apenas desplugando-o e colocando dentro do contexto do álbum, com gentileza e respeito.

 

– There’s a Kind of Hush, Herman’s Hermits – um dos clássicos do pop-rock sessentista universal, que ganhou versão marcante dos Carpenters em 1975, é uma surpresa na lista de canções formadoras de Herbert. Segundo ele, é uma das canções que figuravam nas fitas que seu pai ouvia, logo, tornou-se uma memória afetiva e profunda na vida do sujeito. A versão é bela e respeitosa.

 

– Wichita Lineman, Glen Campbell – um dos maiores clássicos da canção americana dos anos 1960, composta por Jimmy Webb e gravada primeiramente por Glen Campbell, em 1968. Herbert menciona a versão de Ray Charles de 1971, outra que costumava frequentar as fitas gravadas pelo pai. A beleza da melodia está preservada no arranjo econômico e há espaço para um belo e simpático solo de guitarra.

 

– Sunshine Of Your Love, Cream – mais um clássico do rock inglês dos anos 1960, mais uma canção com um riff marcante que Herbert transforma em levada e em solo ao mesmo tempo, numa demonstração inequívoca de habilidade. Declaração de amor a Eric Clapton, o pai da criança.

 

– Europa, Santana – clássico guitarreiro dos anos 1970, “Europa” é prima de “Samba Pa Ti”, que Santana lançou em 1971, puxando o ótimo álbum “Abraxas”. Herbert se refere à melodia como “brega”, mas é algo para discordarmos veementemente. As baladas santanianas são líricas e sentidas. Ele enfatiza o jeito peculiar do mexicano executar as melodias, lembra dos tempos de universidade – quando “Europa” era um hit entre os amigos – e manda uma versão enxuta e bela.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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