Carne Doce – Interior

 

 

Carne Doce – Interior

Gênero: Indie

Duração: 47 min.
Faixas: 12
Produção: João Victor
Gravadora: Carne Doce/Tratore

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

A atmosfera de 2020 está mais que propícia para produções artísticas intensas e questionadoras. A Carne Doce, por si só já traz consigo essa visceralidade, intimidade e crítica sempre cirúrgica ao sistema dominante. Acho que toda mulher se sente parte da voz de Salma Jô, só acho. Depois do sensual e potente álbum “Tônus” 2018) a banda lançou cinco singles que já antecipam o clima de “Interior”, quarto álbum da banda. De Carne Doce (2014) a interior (2020) é possível visualizar o amadurecimento da banda em sua totalidade, tanto instrumental quanto conceitual. Esse movimento é natural no trabalho dos goianos, não é um esforço e isso é prazeroso de seguir e sentir.  Carne Doce é uma dessas bandas que tem o posicionamento bem demarcado na sagacidade e acidez dos versos. Sutileza e papo reto é um dos méritos da banda que consegue misturar com muito brilho as coisas de “interior” com a sonoridade contemporânea, urbana com um toque de natureza.

 

Lá no início, com a música “Idéia”, faixa que abria o primeiro álbum que carrega o nome da banda, já era possível sacar e se apaixonar pela proposta dos músicos: temas urgentes e importantes cantados por uma voz delicada e forte ao mesmo tempo. Se em “Princesa”, de 2016, temos o tom duro e cru do contexto vivido frente aos debates sobre o feminino, o domínio dos corpos, a violência, a natureza e tudo mais que quem nasceu mulher já experimentou, temos a sensualidade e poder de “Tônus”, de 2018.

 

E em meio ao caos de um país com desgoverno do poder e enfrentando uma pandemia, a banda presenteia o público, já consolidado nestes seis anos de carreira, com “Interior”. O álbum é um grande movimento pendular de ir e voltar, transformar.  Como já parte da “personalidade” da banda o falar do dentro e do fora, do íntimo e do público, temas universais, a Carne Doce explora o regional, a raiz, já na capa: um pequi, fruto de pele espinhenta do Cerrado brasileiro usado em preparos doces e salgados, que, além do sabor marcante, tem caroço espinhento e divide opiniões. Bonito, saboroso, único e espinhento, se a Carne não fosse a Carne poderia se chamar Pequi.

 

“Interior” é uma volta ao que está dentro, sem deixar o todo de lado. E a música reflete esse trânsito entre o ser do interior, da roça e ser do mundo, do todo. O disco traz pitadas de reggae, dub, eletrônico, que são muito bem exploradas, todas se encaixam minuciosa e perfeitamente bem no todo do trabalho. É mais um disco coeso e diverso. Todo esse movimento surge nas temáticas contemporâneas como o rir sozinho diante do isolamento. As letras estão ali e, seguindo a ambiência do disco antecessor, a primeira faixa vem embalada com um belo baixo de Anderson Maia, bateria e percussão de Fred Valle e guitarras de Macloys e João Victor. “Temporal” é sobre o fim: “E o que sobrar da vida toda, toda, toda. Toda criatura que não der pra salvar. Tudo o que alguém lembrar. Vamos botar numa cantiga, “viva a vida”.

 

A segunda faixa, que dá nome ao disco, é otimista quando explora a resiliência: “se a saída é ficar para poder ir embora, é parar para seguir adiante”. É delicada e esperançosa, necessária para esses tempos sombrios, já que os corações devem continuar, tudo é espera. “Hater” é um samba-indie e vem aí para escancarar essa teia ambígua que sao as redes sociais, que tanto sustentam quando podem se tornar armadilha. E como em uma arapuca a gente se pega cantando no primeiro minuto “é meu covarde predileto, hater de estimação, que me adora pelo inverso, me odeia com adoração É só falando de mim, que você se sente bem”. Direta e reta como sempre, faixa que será hino, aposto. É aquela coisa que vivemos, o prazer do “eu também vou reclamar”, mas aqui, no conforto do meu sofá, vou odiar com todas as minhas teclas.

 

E com um gingado sensual vem “Garoto”, a faixa mais dançante do trabalho. É o flerte descarado e com vontade, como tem que ser. Mostra e esconde. Que jogo gostoso que Salma canta, impossível não lembrar de “Amor Distrai” tanto na intenção sexy quanto no clima de balada intimista. E tem a já sonhada, mas não óbvia, junção das vozes de Salma e Macloys.

 

 

No meio desses desejos e impossibilidades decorrentes do isolamento, a saudade é o que resta a todos nós. Quinta faixa traz o desencanto e a lembrança dos amores que já não são mais os mesmos, são transformados, desfigurados e perdidos no decorrer da automatização da vida, que impossibilita a assimilação dos “novos outros”. Alerta: provoca saudade até do que não foi vivido. “Passarin” e “A Partida” combinam e também cantam o amor com dor e melancolia com a sonoridade suave do indie pop.

 

 

Nesse passeio surpreendente pelo Interior chegamos à faixa “Sonho”, que é pop e psicodélica, bonita e filosófica, que nos provoca:

“Na vertigem de que tudo tem um final
Num abismo para além do bem ou mal
Lá no fundo eu escuto a voz do sangue
Num instante já não sou animal.”

 

 

E como todos os sonhos carregam interpretações, o ouvinte pode optar e construir a sua.
O falar o que quiser, pois é a minha opinião toma forma em “Fake”, nona música. É mais uma que traz questionamentos da atualidade e do virtual que converge e reflete “a verdade”. A beleza e sinceridade da “minha opinião” baseada em absolutamente nada, exibida em plataformas e não palanques. Típico da nossa era de redes sociais que certifica quem tem mais likes e autoriza aquele que vende e se vende mais. E é cada filtro do absurdo…

“Fake, um mito heróico virtual
É real, todos se iludem no final”

 

Antes que eu esqueça, “Cérebro Bobo” é uma viagem sobre o “deu branco”, ou as peças que nossa complexa mente nos prega. Um experimental bem feito. “A Caçada”, baseada no livro de mesmo nome de Lygia Fagundes Telles, é uma das minhas favoritas. Além de cantante é uma faixa que remete à realidade e à sua própria construção. Se afeta o presente é real? Seja essa mediação feita cara a cara ou virtual? É uma questão que importa, sobretudo neste período em que o toque é quase um insulto e das telas surgem grandes paixões. A levada reggae torna a angústia da letra um tanto leve. E terminamos com a crítica “De Graça”, queridos amigos. Desgraça de graça é pra massa. Verso bem atual. Viver e se manter é um ato político. E de coragem.

 

E a música é política quando nos faz refletir sobre os posicionamentos, as condutas sutis a partir das entrelinhas dos versos. Isso resume o que a Carne Doce vem fazendo nesses anos de estrada. “Interior” é um disco de movimento pendular, como é a nossa existência humana, em momentos dentro da concha e em outros explorando matas e sertões, assimilando os eu e os outros, buscando entender o que talvez não precisemos entender.
Disco belo, coeso e urgente.

 

Ouça primeiro “Hater”, “A Caçada” e “Garoto.”

 

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Ariana de Oliveira

Ariana de Oliveira é canhota de esquerda, Cientista Social, estudante de Jornalismo e comunicadora da Rádio Univates FM. Sobre preferências: vai dos clássicos aos alternativos.

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