A trajetória curta e intensa dos Heróis da Resistência

 

 

A entrevista com Leoni, feita no início de 2019, foi uma das primeiras que publicamos aqui na Célula Pop. Ele recebeu a mim e ao meu amigo-irmão Ricardo Benevides em seu apartamento no Jardim Botânico, Rio de Janeiro e, por mais de duas horas, nos ofereceu um ótimo e generoso papo sobre sua carreira (veja a entrevista aqui e aqui). Há tempos um consolidado cantautor, Leoni tem no passado duas experiências dignas de menção: ser um dos fundadores do Kid Abelha, grupo no qual permaneceu até o início de 1986, tendo saído por divergências estéticas e desgaste emocional. Além disso, Leoni queria mais espaço para cantar as letras que compunha e que davam identidade ao canto da vocalista Paula Toller, sua ex-namorada. Por conta disso, o baixista e compositor principal do Kid, havia montado uma banda paralela, na qual conseguia por em prática algumas das ideais que vinha tendo e que o escopo do seu grupo principal não comportava. Em algum ponto de 1985, Leoni montou o Heróis da Resistência, com o tecladista Lulu Martin, o baterista Alfredo Dias Gomes e o guitarrista Jorge Shy. Com essa galera, ele gravaria três discos, entre 1986 e 1990, ampliando seu raio de ação como compositor e contribuindo para uma das produções mais peculiares dentre as bandas daquele tempo.

 

 

Escrevo este texto por conta da entrada da obra dos Heróis no streaming. Não sei exatamente o dia, mas, há até pouco tempo, apenas uma coletânea genérica representava os três discos de estúdio que a banda gravou. Pode parecer pouco, mas a trajetória do grupo é peculiar o bastante para considerar indispensável que todos os álbuns que produziu estejam disponíveis. O motivo? “Heróis da Resistência” (1986), “Religio” (1988) e “Heróis 3” parecem gravados por grupos distintos, tamanha a diferença de abordagem sonora que eles têm. A estreia, bem sucedida, que gerou quatro singles de projeção nacional, a saber – “Nosferatu”, “Esse Outro Mundo”, “Dublê de Corpo” e “Só Pro Meu Prazer”, serviu para consolidar a excelência de Leoni como um dos mais importantes compositores de seu tempo. Além disso, os músicos que compunham o grupo tinham experiências distintas: Lulu Martin vinha do ambiente do jazz, assim como Alfredo Dias Gomes, ambos com experiências com vários nomes da música brasileira, enquanto o guitarrista Jorge Shy vinha de São Paulo, após participar do grupo Tokyo. Ou seja, todo mundo era bastante hábil em seu instrumento, algo que se tornou visível nos arranjos e na execução das canções deste primeiro álbum dos Heróis.

 

 

Durante o ano de 1986/87, o grupo de Leoni esteve nas paradas e se tornou hitmaker nacional com a balada “Só Pro Meu Prazer”, que entrou na trilha sonora da novela Hipertensão, exibida pela TV Globo às 19h. A Warner, mesma gravadora do Kid Abelha, havia assegurado a ele liberdade criativa total, bem como a escolha do formato de seu novo trabalho – banda, solo – e estava sorrindo de orelha a orelha. Tal sucesso e a confiança da gravadora, resultou na aposta total no segundo álbum dos Heróis, cujo repertório ainda estava engatinhando. Mesmo assim, a gravadora bancou a gravação das canções em … Los Angeles. A ideia surgira pelo fato do grupo querer contar com Liminha para a produção, assim como fora com o álbum de estreia e, como este agora residia na cidade californiana, a ideia de gravar tudo lá fazia certo sentido. O “certo” fica por conta do enorme gasto que viria com a manutenção dos quatro integrantes por lá, além dos custos com o estúdio escolhido, o Ocean Way, no qual Michael Jackson gravara “Thriller” cinco anos antes.

 

 

O grupo passou alguns meses em Los Angeles, compondo, testando e gravando. Tal fato fez com que o orçamento do álbum fosse estourado várias vezes, prejudicando seriamente a divulgação posterior. Além disso, o repertório não era ideal, continha poucas canções e não chegava aos pés do anterior. “Silêncio”, composta lá fora, a partir de uma base criada por Liminha, foi o single que conseguiu alguma visibilidade nas rádios e programas de TV. Pena porque o disco tem uma sonoridade diferente de tudo que era feito por seus contemporâneos, especialmente pelo uso de timbres eletrônicos e abordagem dançante. Como o repertório era, digamos, restrito, há duas faixas em inglês – “Hunt To Feed You” e “Dancing”, a primeira dispensável, a segunda nem tanto – além de um instrumental ok – “Tank” – e uma vinheta abstrata, “Tzu Jan”. Ou seja, das dez faixas, apenas seis tinham potencial radiofônico. Após os diferentes erros de cálculo na produção e lançamento de “Religio” – que ainda tinha um conceito “odara” de mitos e formas de devoção/religião – os Heróis implodiram. Martin e Dias Gomes deixaram o grupo, entrando em seu lugar, o baterista Cadu Vasconcellos, que, no entanto, não duraria muito tempo, sendo substituído por Edmardo Galli.

 

 

Sendo assim, Leoni, Shy e Galli eram os três integrantes da banda quando as gravações de “Heróis Três” se iniciaram, em 1990. Como Liminha continuava no exterior, o grupo gravou as canções no estúdio Nas Nuves, mas com a produção de um assistente dele, Ricardo Garcia que, na época, era responsável pela manutenção. Com um repertório melhor e meio de saco cheio das experiências com eletrônica e timbres dançantes, Leoni e cia. se saíram com um álbum básico de … rock, quase hard rock. Várias guitarras encorpadas, bateria alta e uma abordagem de … power trio. Seria mais estranho se o repertório não segurasse as pontas, se encaixando bem nessa nova roupa, caso explícito do single “Diga Não”, que fez mais sucesso que todas as faixas de “Religio” juntas. Além dela, outras duas belas canções estavam no álbum – “Canção da Despedida” e “O Que Eu Sempre Quis”, que seguem como favoritas dos fãs de Leoni nos shows que ele faz ainda hoje.

 

 

Se “Religio” foi mal na divulgação, a Warner não tinha mais nenhuma boa vontade com o grupo para apresentar o terceiro álbum dos Heróis. Num tempo em que já era possível constatar que o rock vendia menos que axé, Xuxa, lambada, pagode e, especialmente, sertanejo, a gravadora não renovou o contrato com o grupo, que encerrou oficialmente suas atividades em 1992. No ano seguinte, numa realidade totalmente diferente e bem distante dos anos de fama e contratos polpudos, Leoni assinou com a EMI como artista solo, levando consigo algumas canções que seriam gravadas num eventual quarto álbum dos Heróis da Resistência. Uma dessas, “Garotos II”, seria o maior sucesso de sua carreira como compositor, mas aí já é uma outra história. Quanto à obra dos Heróis, analisando com a distância do tempo, dá pra curtir momentos dos três álbuns. Confesso que tenho um fraco por “Religio”, não só porque gosto de discos ousados que beiram a falta de noção, mas porque trata-se de um álbum bem produzido, com uma canção que gosto muito – “Silêncio”. A estreia tem um valor afetivo imenso e o terceiro trabalho tem várias joias escondidas. Ouvir esses discos revela uma trajetória curta, intensa e acidentada, de uma banda que conheceu céu e inferno. Conheça.

 

 

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

One thought on “A trajetória curta e intensa dos Heróis da Resistência

  • 31 de agosto de 2023 em 10:53
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    Que saudade eu tenho das nossas bandas anos 80 como Voluntários, Plebe Rude, Replicantes, Legião, Cabine C, Fellini e tantas outras que foram fortemente influenciadas pelo Pós-punk inglês de Wire, Gang of four, XTC, Echo & Bunnymen, Killing Joke etc….que época !

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