Yusuf/Cat Stevens – Tea For The Tillerman 2

 

Gênero: Folk

Duração: 39 min.
Faixas: 11
Produção: Yusuf Islam
Gravadora: Cat-O-Log/Universal

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

Cat Stevens, Yusuf Islam, Steven Demetre Georgiou, você pode escolher o nome. O que não dá pra negar é a importância e o talento deste sujeito e sua relevância pra música pop dos últimos … cinquenta anos. Seja o descendente de gregos tentando a sorte, seja o jovem popstar místico, seja o homem que se converteu ao Islã, sumiu e depois voltou, pazes feitas com seu passado, não dá pra escapar. E não dá pra ignorar a atitude que ele tomou ao celebrar as cinco décadas de seu quarto e mais importante trabalho. “Tea For The Tillerman”, um álbum escrito, pensado, tocado por um jovem de 22 anos, ressurge agora, revisto por um senhor de 72 anos. As mesmas músicas, mas … como estarão os sentimentos, as visões de mundo, as impressões? E quantas dessas letras permaneceram atuais? Quais arranjos foram revistos? Como fica, por exemplo, “Father And Son”, uma das mais importantes canções de Cat, com todo este tempo? Ele, que é avô há tempos…Se em algum tempo da minha vida eu senti falta de um pai, certamente foi ouvindo a letra desta canção, apenas por não ter um homem mais velho por perto para eu poder desafiar e vencer. Mas isso é assunto pra outro texto. Temos então, gente, “Tea For The Tillerman 2”, esta maravilhosa surpresa musical.

 

A empreitada é ideia de Yusuf. Em 2008 o disco ganhou uma versão dupla, com um CD extra com apresentações ao vivo e algumas sobras de estúdio. Parecia sem sentido e oportunista outro relançamento com mais extras. Daí veio a sacada genial de regravar as canções em sua totalidade, mudando o que fosse possível para dar ao disco a profundidade que só o tempo pode dar. A arte original da capa – feita por Yusuf – também foi atualizada. O simpático timoneiro original, vestido com roupas antigas, tomando chá sob o sol, agora surge com um traje espacial, iluminado pela luz noturna da lua. É uma adorável chance para analisarmos o impacto do tempo, de meio século de cultura pop, de acontecimentos, de impactos e impressões na vida de um artista e de seu público. E Yusuf não se furtou a mergulhar novamente nas canções, dando-lhes novas perspectivas.

 

Não há qualquer medo em mexer nos clássicos. Aliás, para seu criador, uma canção como “Wild World”, já revista por tanta gente com uma fidelidade quase religiosa, ressurge aqui com um arranjo que mistura andamento de cabaré, pianos, instrumentos de sopro e algo que poderia ser ouvido num bar de Nova Orleans. Outra faixa belíssima, “Where Do The Children Play”, não muda muito no instrumental, ganhando, talvez uma pontuação bonita de piano elétrico e uma explosão de cordas mais pro fim. Mas a voz de Yusuf falando sobre devastação do meio ambiente há tanto tempo…nos faz olhar para o que restou do mundo hoje com um olhar de vergonha e tristeza por nossa burrice e inconsequência diante de tantos avisos, vindos de tantas partes. “Sad Lisa”, uma de suas mais lindas criações desde sempre, ganha profundidade, cicatrizes, noções que só as porradas diárias podem fazer com a gente. O belo fraseado de piano é encorpado com alguns efeitos de sintetizadores, gerando um efeito belíssimo.

 

Outras canções ressurgem adoráveis: “Longer Boats”, uma preferida pessoal, é uma criatura novinha, com groove e belos efeitos de baixo e vozes piratas. “On The Road To Find Out”, séria e austera, tem novos ares de folk britânico recriado hoje por novos artistas, mas Yusuf mostra como é melhor quando se tem um maior tempo de janela. E ela, “Father And Son”, que já foi cantada até por Johnny Cash, tem aqui a maior reviravolta temporal. Se Cat era o filho, Yusuf hoje é o pai e, pra quem conhece o original, a mudança na voz é algo perceptível e lindo. E o tipo de pai que talvez ele seja é totalmente diferente do pai do registro original. Um cara mais gente boa, mais camarada, um companheiro de vida. Tudo isso é perceptível em um arranjo próximo do original, mas que ganha uma amplitude muito maior com sopros e um coral. Coisa linda.

 

“Tea For The Tillerman 2” é um disco que pode existir sem seu pai, de 50 anos. Pra quem fez cinco década neste ano, assim como o álbum, esta noção do tempo transcorrido, das mudanças, do que éramos, fomos, somos e seremos é estranhamento bem-vinda. Recomendar com que palavras?

 

Ouça primeiro: “Father And Son”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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