Woods – Strange To Explain

 

 

 

Gênero: Folk rock

Duração: 47 min.
Faixas: 11
Produção: Jeremy Earl
Gravadora: Woodsist

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Um dos enormes paradoxos da música pop hoje é como fazer as pessoas conhecerem os incontáveis artistas que fazem trabalhos excelentes. Por exemplo, como fazer o leitor brasileiro se interessar por uma banda tão bacana como Woods? É basicamente um duo, originado no Brooklyn, Nova York, que se dispõe a revisitar/recriar os caminhos e ambiências do folk rock setentista, dando uma turbinada na mistura com insights psicodélicos e lo-fi típicos da atualidade. A ideia dos caras é trabalhar essas referências e criar belas canções, falando de temas da vida atual, nada muito rebuscado. O fato que diferencia o nível do Woods em relação ao grande moedor de carne industrial é que os caras sabem fazer belas/belíssimas canções, com arranjos que misturam violões e guitarras com toques sensacionais de teclados e pequenos efeitos especiais, tornando a experiência de se ouvir um álbum como este “Strange To Explain”, bem, perdoem o trocadilho…difícil de explicar.

 

Na verdade, o Woods é um duo. Jeremy Earl e Jarvir Taverniere já são amigos há duas décadas e lançaram vários álbuns juntos. Ao longo do caminho, incorporaram influências estranhas – como o jazz africano – mas se mantiveram fieis à trilha aberta por bandas com Crazy Horse e The Band, misturando tudo isso com algo de Flaming Lips. Este novo trabalho marca a distância que agora separa os dois amigos, uma vez que Taverniere se mudou para Los Angeles e o processo ocorreu via Internet, com Earl finalizando e produzindo as gravações em Nova York. Em entrevista recente, o músico confessou que a inspiração para as canções do álbum surgiu por conta do nascimento do filho, que o levou a entrar na habitual roda-vida de cuidar da criança. Nas horas vagas – e como terapia para não sucumbir ao cansaço físico e mental – Jeremy encontrou na composição uma terapia. E viu que a coisa iria pra frente. Sendo assim, o disco foi inspirado como uma alternativa à realidade, algo que dá pra notar.

 

Os arranjos e a qualidade das canções chamam a atenção. Sempre há um efeito, um detalhe, um quê de belezura extra espalhado no campo musical que se descortina à frente do ouvinte. As quatro primeiras faixas do álbum estão entre as mais belas de 2020, sem dúvidas. “Next To You And The Sea”, a primeira, é uma lindeza em midtempo, com guitarras num wah-wah estranho, bela linha de baixo e vocais que emulam delicadeza, andanças à beira-mar e uma pontuação constante de teclados, que se alterna a um refrão diluído em meio ao todo. “Where Do You Go When You Dream” é outra pequena maravilha de fraseados ao teclado, com pianos elétricos e uma melodia angelical, para dizer o mínimo. Seus quase seis minutos passam voando, com vocais dobrados e uma levada que sugere uma cruza de Fleetwood Mac com Neil Young, enquanto os pianos insistem em citar a frase de “Stormy”, hit maior de Classics IV, lá de 1969/70.

 

“Before They Pass By” é, apesar do título, uma canção solar e “pra cima”. Novamente o teclado faz a diferença aqui, fornecendo tonalidades discretíssimas, mas necessárias. “Can’t Get Out” é muito mais próxima do rock psicodélico atual, com um arranjo que poderia ser do Tame Impala inicial, misturado com algo de My Morning Jacket. “The Void” tem guitarrinhas e metais, sendo uma dessas raras faixas instrumentais que não têm cara de encheção de linguiça, enquanto “Feel So Hard” acelera na levada mais próxima do indie rock atual, com bom senso e lindeza. “Light Of The Day” é, como o título sugere, linda e luminosa, com melodia que lembra algo que poderia ter sido feito em 1969. O fecho com “Weekend Wind” é a consagração definitiva de tudo o que o álbum representa, a saber, ar, luz, contemplação e revisita sem cara de nostalgia.

 

“Strange To Explain” é um disco que tem destino certo: as listas de melhores trabalhos de 2020. Ouça logo, se apaixone e vá conhecer mais bandas e artistas que estão por aí, fazendo belos trabalhos, enquanto você fica achando que a música de hoje não presta. Corra.

 

Ouça primeiro: “Where Do You Go When You Dream”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em “Woods – Strange To Explain

  • 26 de maio de 2020 em 19:35
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    Realmente, bonito mesmo. Bela dica.

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