Black Keys tenta dar a volta por cima

The Black Keys – No Rain, No Flowers
37′, 11 faixas
(Easy Eye/Warner)
(3,5 / 5)
Vamos pegar leve com o Black Keys. Explico. O ano de 2024 era pra ser um marco na carreira do duo composto por Patrick Carney e Dan Auerbach. Shows marcados em festivais bacanas, filme-documentário rodado e uma turnê que divulgaria o álbum “Ohio Players” para vários públicos, dentro e fora dos Estados Unidos. Os primeiros indícios de que algo estava errado vieram quando o disco teve números bem menores do que o esperado e, a partir disso, os ingressos para os shows começaram a empacar. A dupla resolveu cancelar várias apresentações, demitiu empresários e divulgadores e resolveu, como se diz por aí, baixar a bolinha. É até surpreendente que “No Rain, No Flowers” chegue agora, pouquíssimo tempo depois dessa maré de baixo astral. Digo isso porque a ideia do novo álbum passa por demonstrar otimismo, dentro e fora das músicas, primeiramente numa prova de resistência diante do perrengue, já pelo próprio lançamento do álbum. E, em segundo lugar, o teor das canções e do próprio espírito da empreitada, sugerindo força diante do desgosto. É válido, claro. Mas poderia ser melhor, não?
O Black Keys surgiu para o gosto alternativo lá por meados dos anos 2000 com uma proposta bem legal – turbinar uma modalidade de blues rock garageiro com a estética dos duos (baterista e cantor/guitarrista com efeitos), um formato que estava em alta naquela época. E havia a presença de Auerbach, que logo se mostrou um nerd de música, colecionador de faixas e álbuns de blues raríssimos e ressuscitador de carreiras/descobridor de talentos, dando espaço para essa galera em seu selo Easy Eye. Vieram álbuns bem bacanas nesta trajetória, mas, em algum lugar entre “El Camino” (2011) e “Turn Blue” (2014), a banda começou a repetir fórmulas e diluir sua sonoridade em busca de uma veracidade blues que mais parecia neura de Auerbach do que qualquer outra coisa. Claro, o Black Keys é talentoso o bastante para entregar, pelo menos, discos sempre competentes, mas essa mesmice foi deixando o trabalho do duo empalidecido. Nos anos 2020, Auerbach e Carney encasquetaram com essa busca sonora, não mais apenas pelo blues, mas, ao mesmo tempo, pela “autenticidade” do próprio som. Os últimos discos, “Dropout Boogie” e “Ohio Players” tentam esses dois resgates simultâneos, confundindo mais que explicando. Bons, mas meio confusos, mal resolvidos.
O que nos traz de volta a “No Rain, No Flowers” que, segundo consta, busca seguir nos resgates mencionados acima e, além disso, dar um tom mais pop-relax às canções. O resultado, claro, é confuso e estranho. A faixa-título, que abre o disco, soa como Kings Of Leon, algo que jamais pensei em associar ao Black Keys. Não é ruim, mas não é exatamente bom, entende? E essa sensação periga adentrar o disco, numa batalha entre canções mezzo mezzo e algumas boas sacadas, deixando a gente sem saber se essa faixa vai resgatar alguma coisa, se a outra canção é mais blues ou algo assim e se aquela outra música lá é mais pop. Mesmo diante dessa barafunda, é possível enxergar o talento da dupla, especialmente quando ela se recorda de um dos seus maiores atributos – a simpatia pela soul/funk music mais radiofônica, esquecida e empoeirada dos anos 1970. Não por acaso, uma das melhores gravações da história do Black Keys segue sendo a cover para a lindeza torturada que é “Never Gonna Give You Up”, presente em “Brothers”, seu ótimo disco de 2010.
Aqui temos duas faixas lindas, que ciscam no terreiro dessa variante de soul music. “On Repeat”, que tem aquele jeitão lindo de pepita incrustrada numa trilha sonora de filme de Quentin Tarantino, com melodia belezura, pianos, acordes que abrem e fecham a janela em busca de sol. E “Make You Mine”, que é da mesma cepa, porém tem aquele viés desesperado de canção de amor que fala sobre sofrimento e não-correspondência enquanto enfileira cordas e pianos. E há outras três canções bacanudas. “Kiss It” é outra que sai desse escaninho soul-funk, brincando com dedilhados de guitarra e andamento rapidinho. “All My Life” também é bacana e funky, ainda que o arranjo pudesse caprichar um pouco mais na ambiência. “Man On A Mission” parece uma faixa de “Ohio Players”, trabalho em que a dupla colaborou com um velho camarada de baladas, Beck. Pra deixar a gente confuso, “Neon Moon”, encerrando o disco, tenta parecer uma incursão country dos Faces ou Stones mas soa como Bon Jovi.
“No Rain, No Flowers” segue o périplo do Black Keys. Até quando esperaremos por um bom álbum, livre, desimpedido de cobranças, neuras e travações? De boas canções ganchudas, bem resolvidas e bacanas? O crédito da dupla existe, mas está acabando.
Ouça primeiro: “On Repeat”, “Make You Mine”, “Kiss It”, “All My Life”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
