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REM contra Ronald Reagan em “Document”

 

 

“Qual seu disco preferido do REM?”…Esta é uma pergunta bem difícil de responder. Aliás, com o passar do tempo, lista de preferências da vida são cada vez mais impossíveis de equacionar. No caso do REM, banda querida do coração, é complicado porque há vários fatores agindo. Hoje, 55 anos na lata, digo que meu álbum preferido deles é “Automatic For The People”, de 1992. Amo os timbres, as canções, o conceito e tudo isso ainda é, digamos, potencializado por uma dose considerável de memória afetiva. Mas nem sempre foi assim. Houve tempo em que meu disco mais querido do REM era “Life’s Rich Pageant”, de 1986. Pela aura independente, por conter minha canção mais querida da banda – “Fall On Me” – e por achar que, escolhendo ele, eu estava indo contra o sistema. Bobagem. Sinto saudades do REM mas entendo sua atitude de encerrar a carreira quando “não tinham mais nada a dizer e começavam a se repetir”, segundo seus próprios integrantes disseram nas entrevistas finais. Lembro bem que o início de tudo, no que diz respeito a admirar, depois amar, a banda aconteceu aqui, com “Document”. E isso foi há, caramba, 38 anos.

 

Olhando de trás pra frente, “Document” tem um papel de destaque na discografia do REM. Foi seu quinto álbum, lançado em 1987, quando o grupo – Michael Stipe, Bill Berry, Peter Buck e Mike Mills – iniciou uma rota de ascensão em sua carreira. Depois de quatro trabalhos em que se tornou um pilar do rock alternativo universitário americano, o REM pretendia chegar noutro patamar. Chamou Scott Litt para produzir o disco e buscou amplificar sua sonoridade de um modo a atingir em mais gente, ir além do nicho alternativo. Ainda com o contrato com o selo IRS vigendo, o movimento seria, digamos, afiançado pela “herança alternativa”, mas acenaria com as paradas de sucesso. Naquele tempo isso era muito importante, mas para uma banda como o REM, era crucial, exigindo planejamento e cautela, sob condição de perder um público extremamente fiel que se criara desde 1982, quando o grupo deu seus primeiros passos. Quando chamamos de “outro patamar”, falamos de composições que se comunicassem com mais gente, acostumada a outros parâmetros de som, de timbres de guitarra e, especialmente de vocalista. Michael Stipe criara um estilo instransferível, ancorado numa postura trovejante no palco, mas que era temperada por um jeito introspectivo de cantar. Algo como se ele murmurasse.

 

Em “Document” isso desaparece. Ou melhora bastante. Foi aqui que o REM conseguiu entrar no Top 10 da Billboard pela primeira vez, a bordo do hit alternativo “The One I Love”. Foi o cartão de apresentação da banda para esta tal “audiência maior” e isso incluía a gente, aqui no Brasil. Ainda que os discos anteriores do REM tenham saído por aqui em tiragens pequenas – e até resenhados na Bizz -, gerando até alguns clipes em programas como “Clip Clip”, foi com “Document” que o grupo chegou com pinta de campeão. Naquela época, era uma opção a U2 ou The Cure, os nossos “alternativos oficiais”. “The One I Love” tinha aquela polidez de folk rock dos Byrds, devidamente encampada por alguma banda punk no meio do caminho entre o fim dos anos 1960 e aquele 1987. Era misteriosa, apaixonada e tocou bastante, em toda parte. Algo espantoso, mesmo se tratando de uma canção feita para ser ouvida e ouvida sem parar. Esse sucesso esconde um pouco o fato de que, se “Document” era algo visando uma audiência mais ampla, também era um disco cuidadosamente revestido de temas importantes para a banda. Se havia a tal preocupação em transcender, havia também o desejo manifesto de seguir fazendo crônicas daquele mundo estranho.

 

Fazer isso significava atacar os Estados Unidos da Era Reagan. Em 1987, o país viva seu sexto ano do governo do ex-ator hollywoodiano, famoso por ser um dos pilares do neoliberalismo, ao lado de margaret thatcher. Isso significou, em termos bem reduzidos, uma variante especialmente cruel do capitalismo, que visava, além de garantir lucro e ampliar diferenças entre pobres e ricos, carcomer direitos trabalhistas, seguridade social, subsídios estatais e liberar geral, como se não houvesse amanhã. Defender essa postura no campo econômico requeria uma contrapartida nos campos social e político. Canções como “Exuming McCarthy”, por exemplo, falam de conservadorismo a tal ponto que parecia que o senador Joseph McCarthy, um dos símbolos da “Caça às Bruxas” ocorrida no fim dos anos 1950, havia ressuscitado. “Welcome To The Ocupation” é outro momento em que a banda fala do governo, no caso, das várias intervenções que eram feitas em países da América Latina, como El Salvador, Granada, Nicarágua, tudo sob reagan. “Finest Worksong” é outro momento em que a banda se mostra atenta à nascente filosofia do consumismo, expondo a confusão entre o que se precisa e o que se quer. Tudo isso vinha emoldurado em belos espécimes esclarecidos de folk rock moderno.

 

Poucos lembram, mas “Document” traz uma rara cover do REM gravada em disco – e não em single ou lado-B: “Strange”, originalmente dos ingleses do Wire, uma das grandes influências de Stipe e seus amigos desde sempre. Mas se há um momento dourado suspenso no ar, ele é “It’s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)”. É como se alguém destampasse uma panela fervente e de lá explodisse um caldo furioso de palavras de ordem, análise de conjuntura, raiva, ódio, frustração, inconformismo e até uma bravata, contida já no título da canção. A levada punk-country enlouquecida é o meio encontrado por Stipe, Mills, Buck e Berry para canalizar a porradaria necessária para aquele momento. Acho que, ao lado de “Teen Age Riot”, do Sonic Youth, esta é uma das poucas canções de gênese alternativa que ganhou o status de “clássico” com o passar do tempo. Em meio ao fogo cruzado da letra quilométrica, meu verso preferido de toda a levra de Stipe: “Offer me solutions//Offer me alternatives//And I decline”. Era muito para quem, aos dezesseis anos, fazia sua transição dos hits mais manjados do rádio para algo, digamos, maior.

 

“Document” documenta (com o perdão do trocadilho) a primeira troca de pele do REM. Foi decisivo, declarou e assumiu intenções e fez da banda a única – sim, a única – dentro de todo o rock americano dos anos 1980 a sair de um berço realmente alternativo para lotar estádios. Ninguém conseguiu isso antes do REM. Que saudade deles, gente.

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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