Beatles x Kraftwerk? Que bobagem.

 

 

O jornalista André Barcinski publicou ontem em sua coluna no Uol (link aqui) uma provocação, oportuna por conta da morte de Florian Schneider, co-fundador do Kraftwerk: os alemães, pais da música eletrônica em âmbito popular, teriam sido mais importantes que os Beatles na confecção da música pop planetária. Uma afirmação como esta é sinônimo de polêmica e discussão que não leva a lugar nenhum, especialmente porque elas escondem vários vícios que acabam por tornar impossível qualquer tipo de pareamento entre contextos distintos. Pense bem: em que mundo os Beatles e o Kraftwerk existiriam ao mesmo tempo? Só em textos assim.

 

Digo isso porque os Beatles encerraram suas atividades em 1970. Bem antes disso já haviam parado de fazer shows. Começaram a se apresentar no formato que os consagrou no início dos anos 1960, num outro tempo e lugar, impossível de imaginar, exatamente porque não havia nada. Nada. O caminho que Elvis e os pioneiros do rock haviam aberto ainda era uma trilha no meio da mata. Eles inventaram o show, a comunicação com o público, as campanhas publicitárias, a produção via single, a produção via álbum, ajudaram a formatar o próprio álbum como conceito, experimentaram, expandiram a ideia do uso do estúdio como um instrumento, incorporaram experiências com música clássica, erudita, circense e o escambau.

 

Sem a atuação dos Beatles como pontas de lança na criação e expansão do rock como um gênero musical consolidado (claro que eles não fizeram isso sozinhos, mas foram vanguarda na maior parte do tempo), não seria possível pensar num contexto que propiciou o surgimento de bandas progressivas, psicodélicas e experimentais. Não haveria, portanto, a evolução seguinte do rock, que se deu na virada dos anos 1960/70, da qual o Kraftwerk, surgido exatamente em 1970, fez parte. Mas não é tão simples assim.

 

Analisar as duas bandas sob o ponto de vista atual é injusto e falho. Em 2020, uma olhada desatenta para os artistas de sucesso popular irá apontar que o Kraftwerk é mais influente, especialmente pelo uso da eletrônica como um meio de produção musical. Esta é uma visão simplória, justo porque os instrumentos e elementos sintéticos se tornaram comercialmente viáveis, mais baratos e fáceis de serem manipulados, gerando uma cultura pop particular que vai muito além da música “criativa”, inserindo DJs, produtores e todo um conjunto de pessoas. Mais que isso: o conceito de música eletrônica é tão amplo que não dá pra inserir, vejamos, Beyoncé e Underworld no mesmo contexto, a menos que você queira pensar que ambos existem apenas por isso. Além disso, a influência do Kraftwerk está no uso singular da eletrônica. No uso artístico, criativo, que vai além da parte estrutural. É a eletrônica como fator decisivo da própria existência da música. Nestes termos, influenciaram de Depeche Mode a Afrika Bambaataa, de Pet Shop Boys a Portishead, mas também seriam responsáveis por David Guetta e, vá lá, pelo DJ Alok? Gente que usa apenas o meio de comunicação e não a mensagem?

 

Comparar as influências de Beatles e Kraftwerk é impreciso e desonesto com os métodos mínimos de pesquisa. Tudo o que os alemães vivenciaram foi feito a partir do fim dos Beatles. Um cenário que só existiu porque o quarteto inglês o criou com sua música e cultura. Os alemães criaram toda sua imprescindível arte a partir de uma música popular preexistente, enquanto os Beatles praticamente criaram um espaço. Por mais mérito que o Kraftwerk tenha, sua criação impressionante habita um nicho artístico que já existia antes, o da música experimental e eletrônica. Tudo bem que eles o traduziram e modificaram com vistas a fazer algo “novo”, mas sua música e seus conceitos influenciaram artistas como Bowie, Eno, entre outros, como uma visão possível, como um conjunto de elementos que serviria como complemento a outros. Pense no Massive Attack, por exemplo. Uma banda que tem na música negra, no reggae, no soul, no funk e em influências mil, sua razão de existir. A eletrônica entra como um meio de realização mais do que um elemento decisivo da criação. Seria possível pensar no Massive Attack sem a eletrônica? Penso que sim.

 

Finalmente, a comparação entre Beatles e Kraftwerk não interessa a quem gosta realmente de música. Penso que é possível achar que a dupla gonçalense Claudinho e Buchecha, famosos nos anos 1990 do Brasil, tenham sido influenciados por ambos. Que uma canção como “Nosso Sonho” deva igualmente aos Beatles – pela letra de amor e melodia – e ao Kraftwerk – por sua batida e ritmo. Sem os dois, JUNTOS, não seria possível sua existência. Não só dela, mas, aí sim, de toda a música pop. Deixemos de olhar para a música como se fôssemos um misto de Thanos e de um millenial que vai disputar o mercado competindo com os outros.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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