Chicano Batman – Invisible People

 

 

 

Gênero: Funk, rock, eletrônica

Duração: 39 min.
Faixas: 12
Produção:
Gravadora: ATO

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Na virada dos anos 1980/90, uma banda holandesa, chamada Urban Dance Squad, fez certo sucesso com a canção “Deeper Shade of Soul”. Tocou bastante na MTV, muita gente lembra do clipe com os caras cantando numa pista de skate californiana, sob o sol do verão. Lembro de ler uma resenha na Bizz em que André Forastieri dizia que “a Califórnia era o futuro da humanidade, se tudo der certo” e tecia comentários entusiasmados sobre globalização e Aldeia Global, usando a banda como uma prova irrefutável da fragmentação das informações mundo afora, fato que possibilitava um grupo holandês fazer rap, rock, funk e se passar facilmente por uma formação californiana. Corta para 2020, trinta anos depois disso tudo: o espírito ainda é esse, mas de uma forma totalmente diferente e a banda que pegou essa pluralidade no ar foi Chicano Batman, que lança agora seu terceiro disco, “Invisible People”.

 

Não adianta ouvir as doze faixas do álbum em busca de uma sonoridade equialente à do Urban Dance Squad, mas mentes atentas pescarão a referência do primeiro parágrafo, espelhada na absoluta falta de cerimônia em misturar várias fontes e detalhes musicais. Formado por Eduardo Arenas, Bardo Martinez, Gabriel Villa e Carlos Arévalo, o Chicano Batman tem, diria eu, quatro vertentes: rock psicodélico sessentista, rock latino (via Santana Band), r&b clássico e soul vintage. Além dessas vias mais evidentes, a banda resolveu adicionar uma roupagem contemporânea a estas novas composições, dando uma espécie de banho de loja em seu som, que já era multifacetado e adorável desde os trabalhos anteriores. O resultado é um disco tremendamente moderno e arrojado, capaz de tornar referências clássicas em novidade até mesmo para ouvidos calejados. O clima de “Invisible People” é de ineditismo quase total.

 

A produção é perfeita na tarefa de revestir as sonoridades com esta sensação de modernidade inevitável. A psicodelia está totalmente a favor desta empreitada, nunca abrindo espaço para viagens sonoras intermináveis, apostando na concisão como um elemento poderoso, especialmente nos dias atuais em que o tempo é mais valioso que o dinheiro. Não há enrolação, as canções vão direto ao ponto, os instrumentos estão com força total mas não estouram os tímpanos do ouvinte, pelo contrário, tudo é imensamente agradável e intrincado, sem ser difícil e hermético. Quem pousar os ouvidos sobre o disco terá material de sobra para brincar de esconde- esconde, notando detalhes, tics, tacs e instrumentos disfarçados nas sombras coloridas que se projetam aqui e ali.

 

Destaques estão por toda parte. A proto-soul-eletrônica “Color My Life” é uma lindeza de ecos de canções black do passado recente, com levada de guitarra em apoteótico chacundun constante. “I Know It” encapsula The Rascals e Santana numa belezura de dois minutos e meio, com sol na cabeça e céu azul. “Invible People” é mais lenta e misteriosa, abrindo espaço para experimentações com teclados no ritmo e nos solos, inserindo bips eletrônicos com a sutileza de um artesão. “Pink Elephant” é uma canção pop sem nunca ser, usando levada cheia de timbres gordos de baixo e guitarras onipresentes sob vocais de apoio. “The Way” tem levadas intrincadas que misturam vintage soul e uma piscina de efeitos que encorpam e oferecem novas formas, enquanto “The Prophet” esconde detalhes tão pequenos de nós dois numa melodia aparentemente simples. O fecho perfeito é na latinidad 2020 de “Bella”.

 

Este é um disco absolutamente delicioso, que exige atenção com o compromisso de retribuir fartamente com ótimos momentos. Um mergulho numa piscina de bolas coloridas, sob o céu de um planeta qualquer.

 

Ouça primeiro: “Color My Life”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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