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Karnak cria fake news para novo álbum

 

 

 

 

Karnak – Karnak Mesozóico
48′, 12 faixas
(Jukebox/Tratore)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

Segundo história contada pelo líder do Karnak, André Abujamra, este “Karnak Mesozóico” traz as primeiras gravações do grupo, realizadas antes do primeiro álbum ser lançado, em 1994. Segundo ele, essas músicas teriam sido registradas numa fita no distante ano de 1982. Ela veio e foi para a Alemanha, ficando em posse de um primo de André, que, depois de longo tempo, a recuperou após sua casa ser demolida em … Dusseldorf. Sendo assim, como a saga Star Wars, esse seria o quarto álbum de inéditas do grupo, mas, na verdade, traria a primeira leva de composições de Abujamra. Parece mentira e, bem, é mesmo. Essa história foi inventada pelo próprio compositor e multinstrumentista paulistano para divulgar o novo trabalho de sua banda, Karnak. Serve para revestir de contexto a pegada oitentista que as faixas do disco teriam, mas, sinceramente, exceto por um ou outro detalhe, as doze faixas de “Karnak Mesozóico” honram a herança de composições críticas, universais e bem humoradas que caracterizam a trajetória de Abu e seus projetos. Foi assim na sensacional dupla Os Mulheres Negras, que ele integrou ao lado de Maurício Pereira e também é com o Karnak desde que ele surgiu nacionalmente via clipe de “Comendo Uva Na Chuva”, em 1994. Antes disso, Abujamra já tivera sua canção “Alma Não Tem Cor” gravada por Chico César e se posicionado como uma revelação da música brasileira “feita pra pensar”. De fato, a crítica e a preocupação com a globalização e o humor nonsense são traços marcantes do trabalho dele.

 

A música do Karnak, portanto, é universal. Dentro do idioma pop rock, os limites são constantemente redefinidos e ultrapassados, num movimento que faz parte da própria graça do trabalho. No caso de “Mesozóico”, a história de sua existência, supostamente datada dos anos 1980, coloca uma aura de retrofuturismo na empreitada, de proximidade do brega, algo que lembra um pouco o primeiro disco dos Titãs, que tinha uma pegada semelhante em termos de enfoque e tema. Uma canção como “Só Tenho Bip” é bem representativa disso, falando de um romance que se inicia no cruzamento da Avenida Paulista com a Brigadeiro Faria Lima, tem um arranjo que usa elementos – vocais, arranjo – para evocar a aura oitentista, misturando com o nonsense de alguém que, na hora de trocar telefone com a pessoa amada, só tem bip e não outro número. Essa junção de elementos é tipicamente Karnak e permanece interessante mesmo depois de mais de trinta anos de carreira da banda. Em meio ao absurdo de pouca sorte que a letra fala, está a crítica aos costumes, a tudo o que nos cerca. Ao mesmo tempo, há momentos em que esses limites são forçados, como na chata “Hala Mahafa”, que mistura elementos de música árabe com pop sem muita inspiração.

 

A crítica à modernidade é recorrente na trajetória do Karnak. E aqui ela está em posição de protagonismo, mesmo que seja temperada pela curiosidade das soluções musicais ou pela graça das colocações que Abujamra propõe. O single “Eu Só Nasci” é emblemático. “Eu nasci no Paquistão//Eu nasci lá no Japão//Eu nasci lá na Turquia//Numa cidade pequena parecida com o sertão” é o verso que abre a faixa e aponta para o exame da modernidade globalizante, a diversidade que une as pessoas pela cultura ou pela condição sócio-econômica. Na verdade esse contexto é colocado como um mesmo palco em que todo mundo é humano, independente de onde venha e, a partir disso, deveria ter direito à dignidade que a miséria e a desigualdade negam constantemente. Em “O Mesmo Céu”, a ideia é ampliada, dessa vez nos colocando em contraponto à natureza, ao planeta, ao céu, mostrando como somos insignificantes diante deles e, ainda assim, não somos capazes de enxergar as nossas semelhanças e perceber que somos mais fortes juntos do que competindo ou separados.

 

A tal diversidade musical que o Karnak oferece se manifesta tanto nos arranjos quanto nas ideias. Em “Carlevindo é Boy”, a narrativa nonsense sobre videogames é emoldurada por uma levada new wave estilizada, com barulhinhos eletrônicos primitivos, dando uma aura cinematográfica à canção. Em “Eu Quero Beijar Você”, o instrumental eletropop que leva a canção é interrompido na metade para uma escapada psicodélica que emula Beach Boys e faz o ouvinte casual parar e ouvir novamente. As ideias vêm em torrente e são aproveitadas na maioria das vezes. Em “A Gente Já Era” a mortalidade é colocada no grande painel “A gente já era, já era, a gente já era antes de ser”. A narrativa aqui lembra um pouco o ritmo de “Comendo Uva Na Chuva” e o instrumental tem ótimas guitarras e bateria nervosa, mostrando que há muito mais que piadas ou esperteza por aqui. Em “Nostradamus 404” o ritmo nordestino entra enguitarrado e evoca mundo livre s/a, numa grande surpresa. Fechando o ato, “Escombros Revelados” retoma a narrativa da fita que foi encontrada na Alemanha e se transformou no próprio álbum.

 

“Karnak Mesozóico” é divertido, bem feito e interessante. Em tempos de minimalismo emburrecido na música pop nacional, ele é mais do que bem-vindo.

 

 

Ouça primeiro: “A Gente Já Era”, “Só Tenho Bip”, “Quero Beijar Você”, “O Mesmo Céu”, “Eu Só Nasci”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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