“Águia de Aço”, o primo pobre – e louco – de “Top Gun”

 

 

A gente fica velho e entende como é precioso amadurecer, né? E esta certeza surge em vários momentos do cotidiano como, por exemplo, na hora que você termina de rever “Águia de Aço” e percebe como ele é ruim. Na verdade, pior que isso, ele é um delírio armamentista americanoide, uma propaganda bélica da Era Reagan e uma verdadeira passarela de atuações risíveis, próximas do lamentável. Se não fosse a maturidade, a gente ainda estaria lá, com 15 anos, achando uma bomba como essa absolutamente sensacional. Eu explico: com esta idade, eu era um … nerd de aviação. Eu adorava ler sobre o assunto, tinha livros, colecionava revistas e, por influência do meu velho avô, um coronel da Aeronáutica, sabia nomes, modelos e tipos de aviões militares e comerciais. Sim. Via um filme de guerra e apontava os diferentes modelos americanos, ingleses, alemães, japoneses…Mas minha fissura – que permanece até hoje – era a aviação militar soviética, especialmente no pós-Segunda Guerra. Mas, voltemos ao filme.

 

“Águia de Aço” (Iron Eagle, 1986) chegou por aqui alguns meses antes de “Top Gun” e foi totalmente engolido por ele. Ambos são filmes que mostram caças americanos em ação em combates aéreos contra países “inimigos” dos Estados Unidos dos anos 1980. O primeiro mostra uma hipotética nação árabe, enquanto o longa estrelado por Tom Cruise levanta a possibilidade de um país no Sudeste Asiático ou Oriente. Mas, enquanto a produção que projetou Cruise para o estrelato tem um fiapo de roteiro e algumas atuações que podem ser vistas como minimamente competentes, “Águia de Aço” é um desfile de canastrice e fatos absolutamente impossíveis por todo o tempo. A “história” é a seguinte: em um vôo “de rotina”, dois caças americanos F-16 invadem os limites de um país árabe banhado pelo Mediterrâneo. Enquanto os americanos bonzinhos acreditam que estão em espaço internacional, os árabes maus e fanáticos interceptam os aviões invasores e um combate tem lugar. Os aviões americanos são rechaçados e um dos pilotos, o Coronel Masters, é obrigado a ejetar e cai prisioneiro.

 

Diante do impasse nas negociações para a soltura do militar, entram em cena seu filho mais velho, Doug. Sim, ele e a família – um irmão menor e a mãe – moram numa espécie de Vila Militar na base na qual serve o pai, no Colorado. Doug é um rebelde gente boa, arquétipo contraditório nesses filmes e tem um monte de amigos nerds, filhos de militares da base, que têm um … clube de vôo. Todos têm alguma intimidade com pilotagem e Doug, que é o malandrão da turma, tem várias horas em simulador de caça da Força Aérea Americana, sem falar que já pilotou aviões de caça reais, em vôos marotos com o próprio pai. Ou seja, os garotos e garotas da base desfrutam das instalações militares secretas em plena Guerra Fria com a anuência dos pais, que burlam o regulamento sempre que um marmanjo ou marmanja pede algo. Seria só esdrúxulo se não beirasse o delírio absoluto como quando o clube se mobiliza para obter dados secretos sobre a prisão do pai de Doug.

 

Sim, porque o jovem tem a ideia de ir resgatá-lo em pessoa. Para isso, planeja roubar um F-16 e ir até lá, trazer o pai. É quando entra o coronel reformado da Aeronáutica, Charles “Chappie” Sinclair, interpretado por Louis Gosset Jr, o sargento durão de “A Força do Destino”, lembram? Enfim, como o único adulto da trama, espera-se que Chappie irá colocar os moleques em seus devidos lugares, mas não. Ele não só topa ir com Doug ao resgate como empresta toda a profundidade de seu personagem, um ex-combatente do Vietnã, para referendar a empreitada. E mais: oferece um treino para Doug num F-16, no qual o moleque consegue destruir alvos terrestres. Detalhe: Doug adora música e só pilota com um walkman tocando as músicas da trilha do filme, no caso, “One Vision”, do Queen; “We’re Gonna Take It”, do Twisted Sister e até “Gimme Somme Lovin'” do Spencer Davis Group. Já Chappie gosta de soul, claro, e ouve James Brown, Ike And Tina Turner e tudo mais. O resgate é planejado e ensaiado como se fosse um preparativo para um camping de verão.

 

Daí vem o combate final. Mas com detalhes, veja. Doug e Chappie saem do Colorado, no Oeste Americano e vão até o Mediterrâneo com um abastecimento em vôo e os aviões abarrotados de armas – tudo conseguido pelos amigos da base, que hackearam o sistema de computador, conseguiram dados sigilosos da inteligência americana, enfim…. E, como era de se esperar, Chappie sofre um revés na missão e Doug precisa seguir sozinho. E ele segue, claro, destruindo sozinho toda a defesa aérea do tal país, incluindo aí baterias anti-aéreas e vários Mig-23, “interpretados” no filme por IAI Kfirs isreaelenses. Sobre isso vale um destaque: diz-se que o Departamento de Defesa americano se negou a fornecer aviões para a filmagem, então a produção buscou os aviões em Israel, tanto os F-16 quando os Kfirs, porque o país estava interessado em mostrar aos rivais territoriais o poderio aéreo da época. Para nerds de aviação – como eu – a pintura dos caças americanos no filme é a mesma dos israelenses, o que evidenciou o fato.

 

Doug resgata o pai. Chappie não morre, os amigos estão esperando por todos na base, ninguém é punido e Doug ainda ganha uma oportunidade de estudar na Academia da Força Aérea, mostrando que, sim, a Força Aérea Americana é legal, camarada e chuta as bundas árabes e de quem mais quiser se meter a besta com os americanos, especialmente quando estes levam a democracia e a liberdade nas bombas e mísseis de seus aviões ultra-modernos.

 

O filme só funciona – se funcionar – como alívio cômico dos mais esquizofrênicos, seja, pelo roteiro inexistente, pelo desfile de armamentos, pelas atuações lastimáveis ou sei lá mais pelo quê. Perto de “Águia de Aço”, em termos de atuação e talento, Tom Cruise está para “Top Gun” assim como Marlon Brando está para O Poderoso Chefão. Ao terminar “Água de Aço”, me dei por muito satisfeito pelos cabelos brancos e tudo mais.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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