Não nos esqueceremos de Eunice Paiva

 

 

Eunice Paiva foi uma mulher de muitas vidas, muitos atos: esposa do deputado Rubens Paiva viu o marido, já com o mandato cassado, ser tirado de casa por oficiais militares armados em 20 de janeiro de 1971, para nunca mais voltar.

 

Rubens foi vítima de uma coincidência infeliz.

 

Dias depois, a prenderam junto com a filha Eliana. Depois de soltas foram enganadas com falsas informações (“seu marido está bem, logo será libertado).

 

Diziam que não precisavam se preocupar. Mentiram.

 

Ele nunca mais foi visto.

 

Eunice ficou sozinha com cinco filhos, o peso da omissão de quem deveria ajudá-la e o absurdo de se ver viúva de um marido desaparecido. Foi aí que uma outra mulher nasceu.

 

Já formada em Letras prestou vestibular para Direito, se formou, virou defensora dos indígenas. Sempre buscou a justiça, a reinvenção.

 

Nunca mais foi a mesma.

 

Eunice é mãe de Marcelo Rubens Paiva, autor de “Feliz Ano Velho”, que em seu livro “Ainda Estou Aqui” reconta a história de sua família para desvendar a tragédia que vitimou seu pai nos porões da ditadura e nos tocar com a nova vida de sua mãe: a de uma paciente com Alzheimer.

 

Cada página é uma coleção de parágrafos corajosos. Se por um lado a visão de Rubens sendo torturado, humilhado nos despedaça, é também impossível não admirar a bravura de Marcelo que narra sem rodeios a inimaginável atrocidade cometida contra seu pai e a grandeza de sua mãe.

 

Meu coração passou por duas grandes provas nos últimos anos 4 anos: a primeira foi ao ler “Cova 312”, o ótimo trabalho de Daniela Arbex sobre sua investigação para descobrir o sumiço de um membro da frustrada guerrilha do Caparaó, também nos anos de chumbo, e depois com “Ainda Estou Aqui”.

 

Quando o acabei não consegui explicar para a minha mãe, que sempre conversou comigo e me ensinou muito sobre esse período tenebroso da nossa História como eu estava me sentindo.

 

Eu só conseguia chorar.

 

O livro foi enviado pela Tag curadoria para seus assinantes em dezembro de 2017, depois dele ter passado pelas minhas mãos e me lembro que fiquei feliz por vê-lo indicado, lido e sentido por mais pessoas de gostos e faixas etárias diferentes. A persistência e força de Eunice nesse momento brasileiro para muitos de nós inacreditável depende de nosso respeito e memória.

 

Eunice morreu em dezembro de 2018, no dia do aniversário de 50 anos do AI-5, um talvez outro sinal de sua resistência. Mas não o último.

 

Ainda que os absurdos tentem se multiplicar sua luta sempre estará aqui. E a isso devemos agradecer a essa absurda demonstração de amor em formato de livro.

 

4+

Debora Consíglio

Beatlemaniaca, viciada em canetas Stabillo e post-it é professora pra viver e escreve pra não enlouquecer. Desde pequena movida a livros,filmes e música,devota fiel da palavras. Se antes tinha vergonha das próprias ideias hoje não se limita,se espalha, se expressa.

2 thoughts on “Não nos esqueceremos de Eunice Paiva

  • 22 de outubro de 2019 em 13:22
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    Que texto lindo! Sensível e delicado pra falar de um assunto tão pesado! Um assunto que, no nosso país não foi tratado com a devida importância! Débora, você escreve divinamente por que lê demais e ama tudo o que envolve o universo da arte! Faz a lição de casa! Grande ser humano, grande mulher e professora. O mundo e, nesse momento, o Brasil, está precisando multiplicar Déboras! <3

    2+
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    • 22 de outubro de 2019 em 14:47
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      Sim, sim, uma lindeza de texto. Isso é que é estreia de colunista, né?

      2+
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