A narrativa surreal e política de andré LR mendes

 

andré LR mendes – O Rei dos Animais

Gênero: Rock alternativo

Duração: 41 min.
Faixas: 12
Produção: andré LR mendes
Gravadora: Independente

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

O tempo, amigos, amigas, demais configurações, ele voa. Parece incrível, mas o grande andré LR mendes está comemorando 45 anos de idade e dez de carreira solo e, como é de costume, todo dia 15 de julho – seu aniversário – lança alguma coisa para seus ouvintes. Só que em 2021 a coisa foi diferente. Sem aviso prévio e qualquer alarde, andré soltou um disco inteiro, este bom “O Rei dos Animais”, com uma fornada de 12 faixas. Quem conhece a obra deste cantor e compositor baiano, ex-Maria Bacana, sabe que ele tem predileção por temas que vão do amor à consciência social, sem abrir mão do lirismo e das boas ideias sonoras. Nunca haverá um disco de andré que seja panfletário ou exacerbado em termos líricos, ele não descuida dos arranjos e pensa muito bem nas melodias. Como é o responsável por todas as etapas de seus álbuns – da composição à produção – o mérito é todo seu. Com este novo trabalho, andré reafirma sua posição como um cantautor de primeira linha nesta cena que já foi/ainda é o rock alternativo nacional.

 

É bacana ver como as texturas e timbres eletrônicos – que ele usou aos poucos através dos tempos – já se encontram totalmente amalgamados em seu folk rock alternativo original. Além disso, andré tem admiração por gente como Belchior, Renato Russo e Humberto Gessinger e dá pra perceber essas influências em todos os cantos do álbum, conferindo profundidade, sobretudo nas letras. Como um todo, elas partem de narrativas pessoais e vão assumindo contornos levemente surreais, cabendo outras pessoas, coletividades, sociedade e o próprio país, envolto nesta névoa de caos, morte e bandidagem atualmente. Sem estar alheio a tudo isso, pelo contrário, andré se vale dessas noções e as imprime como referências com muita sutileza, num trabalho elegante. Ao fim das canções, a gente percebe que estivemos diante de um painel crítico da nossa vida atual, não só política, mas pessoal, sentimental e afetiva.

 

Nas faixas de “O Rei dos Animais” têm espaço para várias histórias. “Essa Casa Cai Não” usa palavras e alegorias bem simples e populares (construção, a casa que pode cair, o lobo mau que vem aí) para ressaltar a importância de resistirmos em grupos. A canção “O Rei dos Animais” é uma espécie de reimaginação gessingeriana, com um acento soteropolitano e um surrealismo de contador de histórias, coisa bela de se ouvir. Esta sensação de que estamos num relato de realidade alternativa também surge em “Dudu” e assume ares mais amorosos quando chega “Morena Loira”. Já em “Porto dos Santos”, andré já se serve de uma visão do lugar onde vivemos, seja um bairro, uma cidade, um estado, um país, para falar de injustiça, salvação e respeito aos direitos individuais como meio de autenticar os direitos coletivos. Também é acerto no alvo.

 

Há um aceno mais nordestino em “Na Casa do Amor Divino”, mas que se insinua com sutilezas, seguindo o modus operandi do álbum, como uma referência leve. Ao longo das próximas canções, andré encarna essa verve belchioriana, especialmente em “Dois Anos e Onze Meses”, mas é em “Jasmim” que ele chega ao momento mais sutil do álbum, seja no arranjo delicado que vai cedendo espaço para guitarras meio beatle e ambiências que lembram esta interseção Bob Dylan via Belchior, com desenvoltura e beleza. “Como Açúcar” fecha o ciclo de canções, também com violões e uma leve sensação de déjà vu sobre o arranjo e os timbres. Nada mau para um disco que é sutil e incita essa confusão leve.

 

“O Rei dos Animais” é presente para fãs e ouvintes, mas é uma realização que andré experimenta, prova inequívoca de maturidade, seja como compositor, seja como executor de sua própria arte, uma vez que ele – e a esposa, Cintia M – fazem tudo, além das canções, os clipes, as capas e as fotos. É um trabalho de família, com amor e respeito pelo ouvinte. Ouça e mergulhe nesse mundo.

 

Ouça primeiro: “Jasmim”, “Porto de Todos os Santos”, “O Rei dos Animais”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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