A superbanda do grunge. Ou quase. Ou mais.

 

 

 

 

Quem curte grunge tem muito a comemorar em 2021. Há trinta anos, eram lançados Nevermind, da Nirvana, e Ten, da Pearl Jam – para ficar apenas nos dois álbuns de Seattle que alcançaram enorme sucesso de críticas e de vendas. Antes deles, mas também no ano de 1991, veio à luz o singular Temple of the Dog.

 

O nome do álbum foi o mesmo assumido pelo projeto responsável por sua produção. Atenção para seus integrantes: o baixista Jeff Ament e os guitarristas Stone Gossard e Mike McCready, que já ensaiavam as músicas da Pearl Jam; o vocalista Chris Cornell e o baterista Matt Cameron, que eram a metade da Soundgarden, outra banda de Seattle que no mesmo ano de 1991 lançaria o seu terceiro álbum, Badmotorfinger. Eddie Vedder, o garoto que já havia se integrado aos demais d(o que seria) a Pearl Jam, comparece cantando em quatro músicas.

 

Temple of the Dog estaria então nos presenteando com uma dose concentrada de grunge? A resposta é não, se buscamos por algo “típico”. A resposta é sim, se quisermos ampliar nossa visão do grunge. De todo modo, trata-se de uma ótima chance para explorarmos alguns dos caminhos do gênero que balançou o mundo do rock desde o início dos anos 1990.

 

 

  1. Passado e presente

 

Pode-se discutir longamente sobre quando nasce o grunge, mas certamente não é em 1991. Um marco inquestionável é a coletânea Deep Six, de 1986. Entre as seis bandas de Washington (o estado cuja capital é Seattle) que participam desse álbum, já está a Soundgarden. Duas outras bandas que precisam ser mencionadas: Melvis e Green River.

 

Vamos agora ligar alguns pontos: Ament e Gossard eram parceiros na Green River, ao lado de Mark Arm. Após a dissolução da Green River, Arm fundaria a Mudhoney em 1988, outra banda fortemente associada ao grunge. Na Mudhoney, vamos encontrar também Matt Lukin, que havia tocado na Melvins, na ativa desde 1983. Outro integrante da Melvins, Dale Crover foi um dos bateristas que passaram pela Nirvana antes que Dave Grohl assumisse definitivamente o posto.

 

Melvins, Green River, Soundgarden, Mudhoney e Nirvana são algumas das bandas que agitavam a cena de Seattle ainda nos anos 1980. O som que essas bandas estavam elaborando vinha de múltiplas fontes, em medidas e combinações variadas: diversas cenas punks e suas derivações hardcore; bandas como Butthole Surfers, Sonic Youth e Dinosaur Jr. com suas versões de noise guitar; o heavy metal do início dos anos 1970 e o hard rock dos anos 1980.

 

A Seattle da década de 80 era um lugar grande demais para não estar isolada do resto do país e pequeno o suficiente para tudo se misturar. Os rótulos do punk e do metal não davam conta dessa mistura e cada vez mais se passou a adotar outra palavra para tentar descrever o que surgia por ali: grunge. Para ele também contribuíram outras bandas, como Screaming Trees e Alice in Chains, já atuantes no final dos anos 80. O mesmo se aplica à Mother Love Bone, sem a qual não teria existido a Temple of the Dog.

 

 

  1. Divinas cachorradas

 

Mother Love Bone foi a banda em que tocaram Jeff Ament e Stone Gossard depois da dissolução da Green River. Seu vocalista era Andrew Wood, que não resistiu a uma overdose de heroína e morreu meses antes da banda lançar seu único álbum em 1990. Wood integrara antes a Malfunkshun, também participante da coletânea Deep Six. Seu drama é parte da narrativa que está nas origens da Pearl Jam e figura no documentário Twenty sobre a sua história.

 

Chris Cornell chegou a morar com Wood e foi bastante afetado por sua morte. Foi dele a ideia de chamar dois dos ex-integrantes da banda de Wood. O nome do projeto veio exatamente dos versos de uma das músicas da Mother Love Bone. “Temple of the Dog” é também outro dos jogos de palavras a se aproveitar da semelhança entre cachorro e deus na língua inglesa.

 

Cornell compôs duas letras sob o impacto direto de sua amizade com Wood. “Say Hello to Heaven” e “Reach Down” abrem a lista de dez faixas de Temple of the Dog. O herói dá lugar à heroína em “Times of Trouble”. Mas não se trata de um álbum monomaníaco. As demais músicas, também com suas letras escritas por Cornell, tratam de outros temas, como política, relacionamentos (des)amorosos, diversão e – não surpreende – religião.

 

Sonoramente, Cornell aparece novamente como o principal compositor do Temple of the Dog, mas Gossard e Ament trouxeram material que vinham trabalhando. Gossard chega a assinar sozinho duas faixas e uma delas vai receber uma versão da Pearl Jam.

 

O que escutamos em Temple of the Dog é algo variado, em andamentos e gêneros, que incorpora ou flerta com todas as influências que formam o grunge. Mas chama a atenção a presença importante de algo que não está na lista acima. Trata-se do blues, que se insinua em “Say Hello to Heaven” e aparece escancarado em “Call me a Dog”, “Times of Trouble” (que tem um solo de gaita) e “Four Walled World” (com slide guitar). “Wooden Jesus” tem uma pegada folk, reforçada por um banjo, e o álbum se encerra com a acústica “All Night Thing”, embalada por um órgão e um piano.

 

“Reach Down” anuncia-se com um riff de heavy metal, e o vocal de Cornell vai na mesma linha, mas a maior parte da música (com seus mais de onze minutos!) é basicamente blues e rock’n’roll, com direito a um improviso dominado pela guitarra de McCready (vale checar as diferenças com outro registro da mesma música, disponível no relançamento de 2016). Um rock’n’roll envenenado e algo rebuscado, como em outras faixas, em muito tributário da Led Zeppelin do início dos anos 70.

 

Rick Parashar, produtor do álbum junto com a banda, além de tocar órgão e piano em “All Night Thing”, assume o piano em outras duas faixas. Órgão, piano, banjo e gaita em um projeto grunge? Pois é… Antes de ser uma anomalia, Temple of the Dog mostra que na Seattle do início dos anos 90 ainda havia lugar para outros ingredientes além daqueles que estão na receita do grunge.

 

 

  1. Uma salva aos bateristas de Seattle

 

O grunge é descrito basicamente pelo trabalho das guitarras. Louvações às habilidades ou à personalidade dos vocalistas também são comuns. Cabe então fazer justiça aos bateristas daquelas bandas, como Dave Grohl, Dave Abbruzzese e Barrett Martin. Mais recentemente, mulheres vêm se destacando nos couros e pratos.

 

No grunge se reuniram a criatividade em andamentos pouco usuais no rock e a inquietude que rompe com uma certa tendência à regularidade e economia que predominou no pós-punk. Matt Cameron, que por alguns anos acumulou a função na Soundgarden e na Pearl Jam, é um ótimo exemplo.

 

A produção de Temple of the Dog confere a devida presença à bateria – o que fica nítido quando se compara as versões do álbum com as registradas em uma demotape. Quase todas as músicas apresentam variações de intensidade que dependem tanto das vozes e cordas, quanto (e muito!) da percussão de Cameron.

 

Atentem para a entrada da bateria em “Say Hello to Heaven” e “Reach Down” – e sigamos acompanhando as peripécias do instrumento nessas faixas e em “Times of Trouble” e “Four Walled World”. “Hunger Strike” deve muito do andamento peculiar de sua segunda metade à batida de Cameron. Ainda assim, onde a bateria mais se destaca é na elaboração de um elemento também pouco lembrado quando se apresenta o grunge: o suingue. Ele domina “Pushin Forward Back”, com seu andamento quebrado, e, sobretudo, “Your Savior” – tentem escutá-la sem gingar o corpo e ela não terá a mesma graça…

 

Suingue no grunge? Ok, é um ingrediente que poucas vezes aparece. Mas chega a ser fundamental em “Even Flow” e “Why Go”, ambas músicas do primeiro álbum da Pearl Jam. E desponta discretamente em trechos de “Would” (Alice in Chains) e “Let me Drown” (Soundgarden).

 

 

  1. Presente e futuro

 

Temple of the Dog foi gravado no London Bridge Studios, em Seattle, nos dois meses finais de 1990. Lançado pela A&M Records, major à qual se vinculara a Soundgarden desde 1989, teve pouca repercussão em 1991. A descontração que predominou na performance das músicas pareceu suficiente para compensar a dedicação dos músicos – e a despreocupação se reflete em uma arte pouco elaborada na capa e no encarte que embalam o vinil.

 

A coisa mudaria em 1992, com o sucesso dos álbuns de Nirvana e Pearl Jam e do single “Outshine” da Soundgarden. A A&M reeditou o álbum, sem quaisquer alterações, por sua vez aplicadas em uma nova versão do vídeo para “Hunger Strike”, justamente a faixa em que ocorre o dueto de Chris Cornell e Eddie Vedder nos vocais. O resultado: Temple of the Dog tornou-se um dos 100 discos mais vendidos em 1992 nos Estados Unidos, mesmo ano em que foi lançado no Brasil.

 

Além de “Hunger Strike”, “Say Hello to Heaven” e “Pushin Forward Back” também ganharam versões como singles ainda em 1991. “Times of Trouble” – que, ao lado de “Your Savior”, poderia merecer o mesmo destaque – reaparece com outra letra e nome (“Footsteps”) no catálogo da Pearl Jam, originalmente como o lado B do single de “Jeremy” (1992), um dos hits de Ten.

 

Não houve uma tour de Temple of the Dog, já que tanto Pearl Jam quanto Soundgarden dedicaram-se em 1991 a gravar e promover seus respectivos álbuns. Mas rolaram alguns poucos shows, ainda em fins de 1990. Em 1991, novas apresentações ocorreram aproveitando a presença de ambas as bandas em eventos ou festivais, algo que se repetiria em duas ocasiões durante a segunda edição do Lollapalooza em 1992.

 

Só em 2016 é que ocorre uma turnê do Temple of the Dog, para acompanhar o relançamento do álbum (com remixagens, versões demo, lives e outtakes) em seu 25º aniversário. Eddie Vedder, no entanto, não participou dessa turnê.

 

Antes disso, Chris Cornell, em apresentações solo, incorporou algumas das faixas de Temple of the Dog. O mesmo ocorreu com a Audioslave em seus shows, aproveitando-se da presença de Cornell nos vocais.

 

Quanto ao Soundgarden, curiosamente não há registros das músicas de Temple of the Dog em seus shows. Note-se que o excelente Badmotorfinger, o álbum de 1991, pouco dialoga com as composições da banda derivada, mesmo nas faixas em que o andamento é menos acelerado.

 

Com a Pearl Jam, a história é diferente. Além de “Footsteps”, de acordo com o setlist.fm, a banda de Eddie Vedder abriu espaço para cinco músicas de Temple of the Dog em shows seus – com destaque para “Hunger Strike”, com mais de vinte ocorrências. E ainda: Parashar, que produziu Temple of the Dog, foi chamado para ter a mesma função em Ten (ele também se encarregaria de Sap, EP da Alice in Chains de 1992).

 

Devemos lembrar que foi durante as gravações de Ten, ocorridas aliás também no London Bridge Studios, que a Pearl Jam assumiu esse nome. E então percebemos a importância de Temple of the Dog para catalisar a química que gerou seu álbum estreia. Sua composição merece, claro, um texto só para isso.

 

 

 

 

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Emerson G

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).

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