Apaixone-se por Hollie Cook

 

 

 

Hollie Cook – Happy Hour
39′, 9 faixas
(Merge)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

 

Há muito tempo eu não ouço um disco tão regular e tão bom quanto o quarto trabalho da cantora inglesa Hollie Cook, “Happy Hour”. São nove canções excelentes, belas, bem arranjadas, que me fizeram pesquisar sobre sua vida e sua carreira, visto que, vergonha total, eu nunca lera ou ouvira nada a seu respeito. Descobri uma artista em pleno desabrochar criativo numa trajetória que já conta com outros três trabalhos, além de um pedigree interessantíssimo. Filha de Paul Cook, ex-baterista do Sex Pistols, e de Jeni Cook, ex-vocalista de apoio do Culture Club, Hollie foi batizada, veja bem, por Boy George, naqueles anos 1980 míticos. Diz a lenda que o próprio David Bowie atuou algumas vezes como … babá da pequena criança, para ajudar aos pais atribulados. Se isso é verdade, pouco importa, visto que Hollie é apaixonante. Sua música é o reggae. Sim, isso mesmo. Ela tem uma belíssima voz, um bom gosto extremo e uma capacidade ímpar para transitar entre o pop e a soul music, enquanto não abandona as raízes do ritmo jamaicano. Mas não vá pensando que ela é uma artista presa ao passado ou previsível, pelo contrário. O início de sua carreira foi na formação final das Slits, mítico grupo de punk-reggae inglês setentista, que retornara em 2005. Quanto a seu trabalho atual, os arranjos das canções de “Happy Hour” são modernos, no sentido de atualizar os detalhes de duas variantes belíssimas do reggae – o lovers rock e o smooth reggae noventista. Acredite, ouvir estas nove faixas é entrar num mundo no qual temos vista constante para o mar.

 

Ouvir “Happy Hour” é se deparar com um grupo de músicos dispostos a perpetrar belas canções. Tudo é muito bonito, mesmo. Há detalhes que levam os arranjos para perto da disco music, do pop mais tradicional e do smooth soul, lembrando um pouco o que faziam artistas como Maxi Priest lá nos anos 1990. É uma música de extremo bom gosto, produzida pela própria Hollie, pelo baterista Ben McKone, pelo tecladista Luke Alwood e por Youth, que já assinou produções para meio mundo, de Paul McCartney a Depeche Mode, além de integrar o Killing Joke. Com tanta gente boa envolvida, era impossível este caldo sonoro desandar. E muitos dirão que o reggae é um estilo que comporta poucas variações, certo? Pois este é um dos enganos mais recorrentes da música popular. São suas nuances sutis que o levam adiante, seja nos arranjos, seja nas inovações. Hollie, por exemplo, não se furta a usar elementos de dub em vários momentos, sem falar no inteligente uso dos naipes de metais e sutis elementos eletrônicos, uma multiplicidade de referências que a trazem para a contemporaneidade sem perder de vista as origens e tradições.

 

 

“Happy Hour” é um disco sentimental. Várias canções falam sobre desilusão amorosa e perplexidade diante da pandemia, mas, em alguns momentos, Hollie Cook deixa transparecer uma mulher forte e bem resolvida, daqueles que dificilmente serão derrubadas por um revés sentimental qualquer. Ela faz isso de forma absolutamente sutil e natural, em movimentos que não revelam qualquer ação programada. E muitas vezes a banda faz esse panorama sentimental se transmutar apenas pelo arranjo de algumas canções. É o caso, por exemplo, de “Unkind Love”, que está lá pelo meio do álbum, totalmente imersa num instrumental forte que contrasta com a voz suave de Hollie, numa ode a um amor que mais maltratou do que fez bem. Já em “Moving On”, em meio a cordas soul que parecem saídas de um disco da Philadelphia International, Hollie vai dando um ponto final a outro relacionamento que não deu certo, dizendo que “vai em frente”, porque não há mais nada a fazer. A vulnerabilidade está presente, é um ser humano falando, não uma criatura invulnerável como fazer crer os popstars vigentes. Quem nunca “seguiu em frente”?

 

Ouvir este álbum é prestar atenção a seus detalhes infinitos. “Full Moon Baby”, já por si só, uma faixa mais sensual e feminina, é uma lindeza de arranjo moderninho com acenos a elementos tradicionais, com muita ênfase no elemento soul noventista. “Kush Kween”, que é pura brisa do mar, é uma discreta ode à ganja e seus poderes conciliadores sobre o cotidiano atribulado. “Gold Girl” tem um coro de crianças em meio a naipes de metais e cordas, numa estrutura muito bem montada, mas é no terço final de canções que Hollie mostra seu verdadeiro talento como compositora e intérprete. “Love In The Dark” tem um arranjo cinematográfico, com belo uso de teclados e um registro vocal dos mais belos e sutis de todo o álbum. “Move My Way” talvez seja o momento mais pop do disco, com uma bela levada de bateria e uso inteligente de efeitos de teclado e guitarra, bem como dos metais e dos vocais de apoio, numa onda ensolarada e otimista. “Praying”, fechando o álbum, é, por sua vez, um dos momentos mais tradicionais, com uma ambiência sonora que poderia fazer dela um lado-B de “Exodus”, de Bob Marley & The Wailers, safra 1977. Lindo é pouco.

 

 

Hollie Cook é uma lindeza sem par. Talentosa, inteligente, sensível e bela, ela tem uma ótima noção de como pode trazer o reggae para o presente com respeito e relevância. Este “Happy Hour” não tem falha, nem momentos desperdiçados. É um pedaço ambulante de verão sempre vivo. Ouçam.

 

 

Ouça primeiro: “Praying”, “Moving On”, “Gold Girl”, “Move My Way”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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