Entenda “New Year’s Day” antes de postá-la no ano novo

 

 

As pessoas podem fazer o que quiserem, certo? Defendemos isso o tempo todo, em vários campos do convívio. Respeitando as normas e leis, tá tudo bem. Somos contra preconceito, opressão, censura, tudo que limite a expressão do próximo. Mas, dentro deste contexto e desta postura, não custa explicar algumas coisas. Por exemplo: que tal as pessoas conhecerem o significado de “New Year’s Day”, clássico do U2, antes de postá-la nas redes sociais como se ela fosse uma canção otimista e que deseja a todos um … feliz ano novo? Sim, porque é o que teremos novamente, aliás, já deve ter muita gente animadíssima, postando o clipe de 1982/83, mostrando o grupo na neve, entoando a canção.

 

“New Year’s Day” foi o primeiro single do terceiro álbum do U2, “War”. Como o nome já diz, é um trabalho em que o grupo assume uma postura de combate e abraça o elemento político de forma definitiva em suas músicas. Ainda que os discos anteriores – “Boy” e “October” – sejam implicitamente políticos, em “War” a coisa assume um ar explícito, vem para a frente e se incorpora ao conjunto de temas de Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. Em 1º de janeiro a canção foi lançada, abrindo caminho para o álbum, que chegaria em fevereiro. As gravações ocorreram em Dublin, entre setembro e novembro de 1982, justo um tempo em que o U2 – e o Reino Unido – amargavam o governo Thatcher, conhecido por suas políticas neoliberais de privatizações e liberação do mercado, causando desemprego e aflição entre os mais pobres. Thatcher e sua medidas acompanhavam uma nova ordem mundial que se insinuava naquele início de década, que terminaria por promover grandes mudanças, culminando com o fim da União Soviética anos depois.

 

Este colapso socialista já era sentindo/pressentido e alguns líderes começavam a ganhar corpo, entre eles, o sindicalista Lech Walensa, atuando à frente do Solidariedade. É bom lembrar que, num país socialista, o sindicato quase tem um papel inverso ao que tem no capitalismo. Sendo assim, numa sociedade em que os direitos trabalhistas e o acesso à educação, saúde, alimento e trabalho eram garantidos, o pessoal do Solidariedade clamava basicamente por liberdade de expressão e negociação com o estado, dono dos meios de produção. Era uma luta válida e justa, mais precisa de uma observação mais atenta. Bono e The Edge, autores da canção, irlandeses católicos, eram observadores políticos ainda em formação, por isso, usaram a luta por liberdade subjetiva e independência do Solidariedade como inspiração para “New Year’s Day”.

 

Lembro-me de como Walensa ganhou destaque na imprensa ocidental na época, sendo figurinha fácil no Jornal Nacional, ganhando apoio em países que massacravam os direitos dos trabalhadores. Mesmo assim e deixando a visão política de lado – você pode e deve ter a sua e não precisa concordar comigo – é fato que “New Year’s Day” não é uma canção sobre o otimismo do ano novo, mas uma antecipação de mais e mais batalhas por liberdade e independência, guardando sempre o ponto de vista dos autores.

 

A melodia é imediatamente reconhecível e o baixo de Adam Clayton tem grande papel nisso. Também tem o piano/teclado de The Edge, que pontua a melodia, enquanto o grupo assume uma levada mais cadenciada e próxima do pop rock da época. “War”, o disco que viria depois, tem outra canção símbolo – “Sunday Bloody Sunday” – sobre um massacre sofrido por manifestantes irlandeses numa passeada, na qual foram fuzilados por soldados ingleses. Além delas, outras três são favoritas do coração: a estranhíssima – e belíssima “The Refuggee”, “Two Heartbeats As One” e a soberba “40”. Nos anos seguintes, pelo menos até a guinada eletrônica, em 1990, o U2 assumiria o protagonismo deste rock político no mainstream. Se houve um ponto de partida para isso, podemos ter em “New Year’s Day” uma boa escolha de consenso.

 

Escrevendo sobre a canção, me ocorreu que “Sunday Bloody Sunday” merece um texto à parte, especialmente pelo atentado que sofreu há alguns anos por aqui. Fique ligado/a.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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