A Mulher na Janela – Veredito

 

 

Um bom elenco? Temos. Um bom diretor? Temos. Um bom roteirista? Temos. Boas influências, boa fotografia, boas intenções. Sim, tudo confere. Então, por que raios “A Mulher Na Janela” não funciona? É dessas situações complexas e estranhas que envolvem filmes. Neste caso, apesar de todos os ítens acima, o problema definitivo é, certamente, o roteiro. E olha que o responsável por ele é Tracy Letts, vencedor do Prêmio Pulitzer, em 2008, que já assinou episódios de séries bacanas como Seinfeld e filmes como “Killer Joe” e várias peças de teatro. Além disso, Letts também aparece como ator em várias produções e, não por acaso, em “A Mulher…”, como o psiquiatra Dr. Landy. Vamos entender o que deu errado por aqui.

 

Amy Adams é a estrela do longa. Nada mais justo, ela é uma das atrizes mais talentosas de sua geração. Aqui ela vive Anna Fox, uma psicóloga que vive reclusa num apartamento gigantesco em Nova York. Anna tem problemas sérios de pânico e ansiedade e só de se aproximar da porta da rua, já entra em desespero absoluto. Movida a remédios e doses cavalares de vinho, ela passa seus dias numa rotina de sobrevivência. Tem um inquilino – David (Wyatt Russell) – que mora em seu porão e os dias se arrastam. De vez em quando ela fala no celular com a filha e com o marido, que estão separados dela, inicialmente por motivos que não são claros. O grande mérito do filme, pelo menos em sua parte inicial, é passar essa impressão de absoluta confusão. Temos certeza de que há explicações faltando, pontas soltas, problemas e detalhes por contar e, curiosos, vamos ficando.

 

A rotina de Anna é quebrada quando uma família se muda para a casa em frente, e ela passa a observá-los pela janela. Fica especialmente vinculada quando o filho adolescente do casal – Ethan (Fred Hechinger) – aparece em sua porta com um pequeno presente de boas vindas. A partir daí, surge um vínculo entre eles, especialmente porque Anna começa a perceber que o rapaz tem comportamento estranho e pode sofrer algum tipo de abuso psicológico. Pouco tempo depois, ela conhece Jane (Julianne Moore), mãe de Ethan, com quem conversa e tem mais informações sobre esta possível situação de abuso, protagonizada pelo marido dela, Alistair (Gary Oldman), que é descrito como um homem duro, voltado para o trabalho e que, sim, trata o filho com violência. Anna então passa a observar a família com mais atenção, chegando até a usar uma câmera potente, que lhe proporciona visão detalhada do apartamento em frente. Até que ela testemunha algo terrível na casa vizinha.

 

Só que Anna não é de confiança, lembra? Bêbada, sedada, amargurada, angustiada e reclusa, não conseguimos ter certeza de que os fatos são reais e o filme mantém sua aura de mistério justo nesta condição. Quando ele precisa se encaminhar para a explicação dos fatos que vão surgindo, o mesmo roteiro entra num processo de implosão, praticamente derretendo todas as camadas que havia construído, em favor de uma busca desenfreada por fatos e informações que amarrem as pontas soltas. No meio do caminho, as atuações do elenco vão ficando em segundo plano, os ambientes soturnos e caóticos do apartamento de Anna deixam de ser importantes e, mais para o fim do filme, todos os problemas – e são muitos – que atormentam a personagem somem como num passe de mágica, apontando para uma total reinvenção pessoal. O final chega a ser bizarro.

 

“A Mulher Na Janela” promete muito mas o resultado é decepcionante. Joe Wright é um bom diretor, sendo responsável por ótimos filmes (“Orgulho e Preconceito”, “Razão e Sensibilidade” e “Orgulho de uma Nação”, este último, inclusive, deu o Oscar de Melhor Ator a Gary Oldman), mas nem ele conseguiu ir muito além do estilo e da direção elegante. O ambiente do filme sugere um remix entre alguns filmes de Hitchcock, especialmente “A Janela Indiscreta”, com “Mulher Solteira Procura” (tem até ponta de Jenniffer Jason Leigh no elenco), não entregando nem um, nem outro ao final.

 

O longa está disponível na Netlflix e chama a atenção pelo pedigree e pelo trailer bem feito. Veja mas prepare-se para se irritar no fim. Bastante.

 

A Mulher Na Janela (EUA, 2021)

Direção: Joe Wright

Roteiro: Tracy Letts

Elenco: Amy Adams, Julianne Moore, Gary Oldman

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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