Parasita – O abismo capitalista cotidiano

 

 

Demorei para ver “Parasita”, escrito e dirigido pelo sul-coreano Bong Joon Ho (“O Hospedeiro”, “Okja”). Moro numa cidade em que filmes como este passam em horários conflitantes e/ou escassos. Mas o tempo transcorrido se justificou plenamente: é um longa de intensa carga dramática, daqueles que não permite que o espectador olhe para os lados. O cenário que vai sendo construído é de caos iminente e há tanta coisa errada ao longo da trama, que você pressente que, como diz o meme do Facebook: “a grande ficha, um dia ela irá cair”.

 

“Parasita” foi o grande vencedor do último Festival de Cannes, levando a Palma de Ouro por decisão unânime do júri. Agora o filme concorre ao prêmio de Melhor Filme Internacional no Film Independent Spirit Awards, que acaba de anunciar os indicados. A cerimônia de premiação, que celebra o cinema independente, será realizada no dia 8 de fevereiro de 2020. Aqui no Brasil ele já foi conferido por cerca de 80 mil pessoas, num boca a boca crescente, sendo o longa selecionado pela Coreia do Sul para concorrer a uma indicação na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar® 2020 e já é uma das principais apostas para a temporada de premiações.

 

A trama mostra duas famílias sul-coreanas. Os Kim são de classe média-baixa, vivem de bicos e habitam um porão numa comunidade que poderia ser definida como uma favela. O casal falhou nos empregos: ele era motorista e está desempregado. Ela era atleta olímpica e perdeu o bonde. Os dois filhos adolescentes tentaram passar para a universidade e não conseguiram – sempre lembrando que não há ensino público superior gratuito na Coreia do Sul, logo, se não tiver grana para pagar pela educação, não vai conseguir. A outra família, os Park, já é riquíssima. O pai é CEO numa empresa de TI e a esposa pode se dar ao luxo de apenas cuidar dos filhos, também um casal, só que mais novo. A menina está no ensino médio e o garoto ainda não completou dez anos.

 

As duas famílias vão se encontrar quando o filho mais velho dos Kim arruma emprego como professor da garota rica e o contato dessas pessoas com a vida de luxo e glamour as leva a fazer o necessário para ascenderem socialmente. Seria fácil se a trama parasse por aí. Em “Parasita” há um abismo imenso entre os Kim e os Park, mostrando que a sociedade atual, restrita a um mesmo recorte geográfico-histórico, abriga desigualdades impressionantes. É este estado que gera a impossibilidade de pessoas de diferentes classes viverem juntas em um relacionamento simbiótico. Daí vem a sacada de Joon Ho para o título do filme: “há pessoas que esperam viver com outras de uma forma coexistente, mas isso não funciona, então elas são empurradas para uma relação parasitária. É um título irônico”, diz.

 

O roteirista/diretor quis “retratar a contínua polarização e desigualdade de nossa sociedade. Estamos vivendo uma época em que o capitalismo é a ordem reinante e não temos alternativa. Isso no mundo inteiro. Na sociedade capitalista de hoje, existem castas que são invisíveis aos olhos. Nós tratamos as hierarquias de classe como uma relíquia do passado, mas a realidade é que ainda existem e não podem ser ultrapassadas”, explica.

 

O filme é tão brilhante que consegue ser engraçado, assustador e triste, enquanto mostra as inevitáveis rachaduras que aparecem quando duas classes se enfrentam na sociedade cada vez mais polarizada de hoje. Assisti-lo é uma experiência impressionante, guardando semelhanças desconcertantes com outro hit da temporada cinematográfica, o brasileiro “Bacurau”.

 

Direção: Bong Joon Ho

Coreia do Sul, 2019

Roteiro: Bong Joon Ho, Han Jin Won

Elenco: Song Kang Ho, Lee Sun Kyun, Cho Yeo Jeong, Choi Woo Shik, Park So Dam, Lee Jung Eun, Chang Hyae Jin

Duração: 131 min.

1+

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *