Nosso texto sobre a Copa do Mundo 2026
A Copa do Mundo de 2026, que se inicia neste 11 de junho, surge como a consolidação de um modelo de gestão esportiva que sacrifica a alma do jogo em favor de uma eficiência corporativa e da segurança nacional norte-americana. Ao optar pela realização inédita em três países — estados unidos, México e Canadá —, a FIFA expandiu o alcance geográfico do evento e escancarou sua rendição total aos interesses logísticos e diplomáticos da superpotência anfitriã. O que vemos é uma estrutura de controle que transforma o torcedor em espectador vigiado e o atleta em peça de um tabuleiro, onde a burocracia dos vistos e a vigilância ostensiva definem quem tem o privilégio de participar. Diferente de edições passadas, como a Rússia em 2018 ou o Catar em 2022, onde o autoritarismo estatal era visível, aqui a exclusão acontece através de uma ordem supostamente democrática, mas que promove uma segregação sofisticada: a seletividade de quem pode transitar, de quem pode trabalhar e de quem pode se fazer ouvir.
A história das Copas sempre flertou com o perigo da submissão ao poder, mas 2026 eleva esse cinismo a um patamar inédito. Lembremos da Argentina em 1978: o torneio serviu de vitrine para a ditadura de Videla, que buscava na bola uma cortina de fumaça para ocultar centros de tortura e o desaparecimento de opositores. Naquela época, o futebol foi usado como cortina de fumaça por um regime militar sanguinário; hoje, observamos uma potência democrática que utiliza mecanismos de controle para reforçar sua hegemonia. Essa nova ordem é abertamente seletiva e cria um sistema de castas esportivas que fere a integridade competitiva. É impossível ignorar o tratamento de realeza dispensado a seleções como a inglesa, que desfruta de corredores diplomáticos e facilidades logísticas absurdas, enquanto seleções de nações menos alinhadas aos interesses de Washington — como a do Irã — vivem um calvário. Os iranianos, confinados ao México e obrigados a deslocamentos exaustivos para jogar em Los Angeles sob regras draconianas, são a prova de que, nesta Copa, o carimbo no passaporte pesa mais do que o talento no pé. Não custa lembrar que o país é alvo de ataques americanos há meses, além de sanções econômicas há anos, sua presença no mundial não foi minimamente repensada e tal fato coloca em xeque qualquer chance de isonomia esportiva.

Este seria o símbolo mais contundente desse descompasso na própria natureza do evento se a memória recente não trouxesse à tona um gesto que beira o escárnio: a condecoração, concedida pela FIFA há algum tempo, que entregou a donald trump o seu “Prêmio da Paz”. Essa honraria, que no momento da entrega já soava como uma nota dissonante, tornou-se hoje a prova final do cinismo que rege esta edição, ao exaltar ninguém menos que o criador das políticas de isolamento que tornam esta Copa um exercício de exclusão. A comparação com o passado é inevitável e reveladora; se antigamente o futebol detinha o poder simbólico de colocar nações em diálogo, hoje ele se tornou um apêndice de tratados de segurança. O que vemos não é uma Copa que legitima a paz dos cemitérios burocráticos, onde o silêncio e a obediência aos protocolos da potência anfitriã valem muito mais do que qualquer gesto de humanidade dentro ou fora das quatro linhas.
Essa política de exceção transforma aeroportos em zonas de interrogatório. Basta lembrar do tratamento vexatório imposto a Younis Mahmoud, maior artilheiro da história da seleção do Iraque, que foi retido e submetido a sete horas de questionamentos em uma sala fria, sob suspeitas justificadas apenas por uma xenofobia institucionalizada. A mesma arbitrariedade barrou o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan — profissional de elite que viu seu sonho mundial ser ceifado por um carimbo negado na porta de entrada — dita o tom da recepção em solo americano. A humilhação não poupa ninguém: o Brasil viu sua delegação e equipes técnicas passarem pelo constrangimento de revistas minuciosas diretamente nas pistas de pouso dos aeroportos, como se atletas de alto rendimento fossem ameaças à segurança nacional. São cenas que remetem ao que de pior já vimos em regimes de força, onde o passaporte torna-se uma sentença e o futebol, que deveria ser o palco da igualdade técnica, tornou-se um campo minado onde o “estrangeiro” é, por definição, um suspeito.
O jornalista que outrora circulava pelas ruas, observando as contradições vivas do torcedor, agora está confinado a áreas delimitadas, vigiado por drones e sob constante ameaça de censura procedimental. A “Copa das Copas”, como insiste o marketing, é, na verdade, a Copa da higienização: um produto de luxo, entregue em resoluções técnicas impecáveis, mas absolutamente desprovido do calor humano que um dia tornou o futebol um fenômeno social. Enquanto a FIFA contabiliza margens de lucro que superam todas as expectativas e se esbalda em patrocínios, o torcedor comum é sumariamente excluído pelo custo aviltante de uma experiência que se tornou, em última instância, um privilégio de poucos. Os preços praticados nesta edição são uma afronta à história do esporte: ingressos que alcançam valores astronômicos (cerca de 2500 dólares para o jogo entre Portugal x Colômbia), transformando a arquibancada em setor VIP; diárias de hospedagem que, infladas pelo setor hoteleiro norte-americano, tornam a permanência nas cidades-sede um privilégio de uma elite cada vez mais reduzida. Até mesmo o preço da comida nos arredores dos estádios atinge patamares surreais, como, por exemplo, vinte dólares por uma cerveja.
Essa é a ferramenta definitiva da segregação: ela garante que o “torcedor real” — aquele que canta, que sofre e que dá cor às ruas — seja substituído por um público asséptico, capaz de arcar com os custos de um entretenimento blindado. A bola que rola a partir de hoje é rápida e a transmissão é em ultra definição, mas o futebol — aquele fenômeno social que transcendia governos e derrubava muros — parece estar cada vez mais confinado dentro das linhas de um campo que se tornou proibitivo, deixando para nós a amarga percepção de que a “paz” celebrada pela FIFA é, na verdade, a rendição completa do jogo aos interesses daqueles que ditam quem pode entrar e quem deve ficar, definitivamente, do lado de fora.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
