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Não há nada na música nacional como o novo disco do Mombojó

 

 

 

 

Mombojó – Solar
34′, 8 faixas
(Independente)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Vinte e cinco anos após o surgimento como uma das forças mais inventivas do pós-Manguebeat, o Mombojó lança “Solar” (2026), seu primeiro álbum de inéditas em seis anos (a banda lançou o ótimo “Carne de Caju” em 2024, com versões para canções de Alceu Valença e “What Will You Grow Now”, em parceria com Laetitia Sadier em 2023). Para uma banda que percorreu caminhos diversos — do pop ao lo-fi, passando pelo eletrônico e trilhas cinematográficas —, este novo trabalho funciona como um ajuste de foco. Ao reatar a parceria com o produtor Léo D, o mesmo arquiteto sonoro de “Nadadenovo” (2004), o Mombojó dá um passo atrás visando dois à frente. Vai nas origens e utiliza essa referência como base para entender como uma banda de indie rock se ressignifica no Brasil de hoje. E dá certo.

 

A evolução sonora do Mombojó, marcada por uma curiosidade inquieta, atinge aqui um ponto de maturação onde a diversidade é a principal aliada. O disco expande suas fronteiras através de uma rede de colaborações que reforça o verniz cosmopolita com o qual a banda sempre flertou. Um dos pontos altos dessa integração ocorre em nova parceria com Laetitia Sadier, voz icônica do Stereolab, em “Sob o Vento Forte”. A canção é mais uma prova da capacidade do grupo em dialogar com vernizes internacionais sem perder a mão na psicodelia pernambucana que é sua marca registrada. Sadier e Felipe S criam um diálogo que funciona muito bem no instrumental de bateria quebrada, guitarras fluidas e uma levada que beira o dançável convencional, mas sai por uma tangente original.

 

“Solar” corre em seu próprio tempo. As oito faixas que o compóem fluem fácil, sem abrir mão da surpresa e das crocâncias instrumentais. O single “Mergulhando no Mar”, por exemplo, é uma das melhores gravações do grupo, misturando uma levada que parece o mundo livre s/a do meio dos anos 1990, desaguando num arranjo que oscila andamentos e ritmos, deixando ouvinte desconcertado, sem abrir mão da malandragem e do elemento pop, no melhor sentido do termo. E falando em dança, “Abaixo a Realidade” é uma autêntica faixa que oscila entre o nu-disco e o disco punk atuais, com participação de Letrux, dando muita liga. A instrumentação é menos densa, tem uma bela linha de baixo estalado e instiga á pista de dança (ou será à “pistinha”?) com Letícia fazendo as vezes de uma disco diva bem a seu jeito. Funciona bem. Outra lindeza reluzente é “Em Plena Sexta-Feira”, parceria com Lucas Alonso, que mistura tecladinhos infecciosos que recriam climas do próprio Stereolab e de outra banda imaculada do retrofuturismo noventista, o High Llamas. O andamento é maravilhoso, os vocais são muito bem gravados e o resultado é sensacional, puro pop do futuro do pretérito hoje. E tem ecos discretíssimos do arranjo de “Tropicália”, a canção, em “Em Cima da Areia”.

 

Há outras colaborações ao longo do álbum. O Le Commandant Couche-Tôt, projeto pessoal do francês Antony Malka, divide a criação na primeira faixa de “Solar”, “Quero Amanhecer”, com um riff de teclado elíptico que vai percorrendo toda a extensão da melodia, num efeito de circuito de corridas. O General Elektriks, alter-ego criativo do francês Hervé Salters, além da conterrânea Sofia Freire e do sensacional Domenico Lancellotti entram em cena na última faixa do álbum, “Canudo de Luz”, que pisa com vontade na praia da psicodelia sob o sol. Na letra, o astro rei suga a água do mar através de seu “canudo de luz”, numa visão que faz todo sentido em meio ao arranjo preguiçoso e multidimensional que a banda ergue. A melodia reivindica seu lugar no extenso cânone de canções praianas de amor viajante que a nossa música já deu ao mundo. Vocais, instrumentos, tudo funciona muito bem por aqui.

 

Ao término das canções de “Solar”, é possível cravar que não há nada feito no Brasil de 2026 minimamente parecido. É um misto de melancolia, sol, doideira calma e certeza da beleza. É o registro de um grupo que não precisa provar nada para ninguém. Tem música para quem ainda gosta de sentar, colocar o disco para rodar e prestar atenção no que está sendo dito. É um disco para quem, como eles, escolheu o caminho longo. E, vendo o resultado, foi a escolha certa: o Mombojó ainda tem muito a dizer, e isso, em 2026, é um luxo que poucos podem se dar.

 

Ouça primeiro: “Canudo de Luz”, “Em Plena Sexta-Feira”, “Abaixo a Realidade”, “Mergulhando no Mar”, “Sob o Vento Forte”, “Quero Amanhecer”.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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