Cowboys Junkies há trinta anos, em plena jornada

Cowboy Junkies? Tem gente que só conhece a doce versão da banda para “Sweet Jane” de Lou Reed. Ela ganhou destaque em 1988 e voltou em alta rotação em 1994, após ter entrado na trilha sonora de Assassinos por Natureza, filme de Oliver Stone. E, vejam só, “Sweet Jane” apareceu de novo na mais recente temporada de Stranger Things.
Era de se esperar que um comentário sobre a Cowboy Junkies – coisa rara na mídia brasileira – estaria dedicado a The Trinity Session, onde “Sweet Jane” figura ao lado de outras versões (elas tomam metade das 10 faixas no vinil original). Motivos não faltariam: além de ter sido o álbum que projetou um obscuro quarteto de Toronto para as paradas, foi gravado em um único dia, com o uso de apenas um microfone, no interior de uma igreja. Em 2006, a banda voltou ao mesmo local para um registro ao vivo (lançado no ano seguinte em áudio e vídeo).
Mas não. Afinal, a Cowboy Junkies tem em seu currículo nada menos do que 16 álbuns de estúdio. Em 2025, a banda festejou seus 40 anos, desde o início com a mesma formação: Alan Anton e três irmãos Timmins, Michael, Margo e Peter. O quarteto continua na ativa, com um público fiel não apenas no Canadá, mas também nos Estados Unidos e alhures. É uma pena que nunca tenham se apresentado no Brasil.
Este texto é sobre Lay it Down, o sexto álbum da Cowboy Junkies, lançado em fevereiro de 1996. Confesso que há razões pessoais para essa escolha, mas me defendo com argumentos mais gerais. É o primeiro álbum após o contrato com a Geffen, gravadora da Nirvana (por exemplo). Antes, a banda estava na BMG/RCA, que relançou The Trinity Session e se encarregou dos três álbuns seguintes.
Lay it Down, portanto, abre uma nova fase na biografia da Cowboy Junkies. Para fechar a anterior, em 1995 sai um disco duplo ao vivo, 200 More Miles, com faixas que cobrem desde Whites Off Earth Now!! (a estreia de 1986) até Pale Sun, Crescent Moon (1993). Posteriormente, outros lançamentos recuperariam registros de apresentações desse período. Em novembro de 1996, quando a banda já estava no cast da Geffen, a RCA lança a coletânea Studio: Selected Studio Recordings 1986–1995.
A passagem da RCA para a Geffen cai na conta de Jim Powers, executivo que acompanhava a Cowboy Junkies na primeira gravadora e se transferiu para a segunda. Foi dele a sugestão para que a banda trabalhasse com John Keane na produção de Lay it Down. Keane era o proprietário de um estúdio antológico em Athens (Estados Unidos), onde haviam gravado bandas como 10,000 Maniacs e R.E.M.
Antes de aportar na Georgia, onde as sessões para Lay it Down rolaram entre junho e julho de 1995, os irmãos Timmins e Alan passaram alguns períodos em Rock Island, uma pequena ilha, com uma única casa, no Lago Kashabog, a cerca de três horas de Toronto. Ali, as canções do álbum começaram a ser compostas. Embora Michael Timmins permanecesse como protagonista nas criações, o processo foi muito mais coletivo em comparação com o projeto que resultou em Pale Sun.
Lay it Down abre com três canções peculiares no trajeto da banda e mesmo em relação ao conjunto das trezes faixas do álbum. “Something More Besides You” começa com Alan acariciando o baixo e com a delicada guitarra de Michael ao fundo. Entra a voz de Margo e quando ela chega no refrão o contraste com o que veio antes é brutal – lembrando, guardadas as devidas proporções, a dinâmica do quiet-loud do grunge. A letra levanta perguntas cruéis: “Duas pessoas nascem para cruzar / seus rumos, suas vidas, seus corações / se por acaso uma muda de direção / estarão perdidas para sempre?”. E o que pode ser mais cruel do que perguntar, várias vezes, se “existe algo mais além de você”?
“A Common Disaster” é a segunda faixa. Foi a carta de apresentação do álbum, o primeiro de seus quatro singles. Ganhou um vídeo que no Brasil rodava na programação do saudoso Lado B, aos cuidados de Fabio Massari. Música guitarreira, de estrutura simples. Novamente, temos o contraste entre as amplitudes sonoras que acompanham estrofes e refrão. Nas estrofes, há uma contenção reforçada pela voz de Margo e o baixo de Alan. Michael faz um solo breve, que termina numa explosão amplificada pela bateria de Peter. São apenas cinco segundos, mas há neles mais fúria do que em muita música punk de dois minutos.
Provoca a letra: “Eu tinha uma longa lista de nomes que levava em meu bolso / mas ficou só um e o seu nome está no topo”. Uma voz suave encarna essa figura ameaçadora, que convida alguém para partilhar “um desastre comum”. O cenário poderia ser uma daquelas cidades interioranas onde acontecem as histórias de Twin Peaks, o seriado de David Lynch.
“Lay it Down”, a faixa título do álbum, apresenta a mesma banda em uma terceira encarnação. Novamente o baixo de Alan é decisivo no andamento, acompanhado de perto pela bateria abafada de Peter. Uma sonoridade tensa e densa. Michael está livre para se revezar entre a melodia, alguns riffs e um solo blueseiro, que em apresentações ao vivo se desdobrava em improvisações.
Mais uma vez, mas em nada semelhante às ocorrências anteriores, aparece o contraste do refrão. Esse contraste tem muito a ver com a letra, que pode ser o relato acerca de um homem que desiste de viver: “Ele vendeu a maior parte do que estimava / o resto ele deixou que roubassem / Atirou no seu cachorro no campo aberto / o resto ele deixou que roubassem”. Ao final, esse homem assume o relato: “Por favor, me enterre nas árvores de algodão / o chão ficou frio demais pra mim”. Mas o refrão surge como um coro grego: “Deixa disso”.
Em um sentido, essas três músicas destoam da sonoridade que predomina nos álbuns anteriores da Cowboy Junkies e pode surpreender quem só conhece “Sweet Jane”. Em outro, entretanto, elas ilustram à perfeição o que a banda é. Tal identidade aparece nas palavras de Michael registradas no livro de Dave Bowler: “Quando voltamos para Toronto, o blues era a nossa referência, mantendo-o muito orgânico e simples. Tentando fazer com que cada nota contasse. Não nos interessava tocar muitas notas, apenas as que importavam. Unimos isso à estética pós-punk, Joy Division, The Cure, aquele som muito sombrio e cheio de espaços, mas com uma pegada de raízes americanas.”
O retorno ao Canadá aludido no trecho acima envolveu Michael e Alan, que formaram no final dos anos 1970 a The Hunger Project, uma banda de pós-punk. Chegaram a gravar algo, circulando por Nova York e Londres, mas sem muita repercussão. Voltaram a se encontrar em Toronto, onde, com os irmãos de Michael, criaram a Cowboy Junkies. O primeiro álbum é quase todo tomado por versões de blues, confirmando a importância do gênero negro para o quarteto branco. Mas o DNA pós-punk não desapareceu e receberia uma homenagem direta na versão para “Seventeen Seconds”, música da The Cure.
Em Lay it Down, esse DNA está bem presente nas três primeiras faixas. Enquanto Caution Horses, o sucessor de Trinity Session, aprofunda as tais raízes americanas, permitindo rotular o estilo da banda como “country alternativo”, os dois álbuns seguintes (Black Eyed Man e o já citado Pale Sun) exploram uma vertente blues rock, com mais instrumentação e preenchimentos. Para Lay it Down, outra direção foi tomada, como explicam no livro de Bowler: “Queríamos mesmo manter tudo minimalista. Se não tínhamos certeza se devíamos adicionar algo, simplesmente não adicionávamos. As melodias também ficaram mais econômicas. Tudo está mais preciso, então dá para ouvir melhor cada instrumento individualmente.”
O “instrumento” mais distintivo na sonoridade da Cowboy Junkies, em todas as suas fases, é a voz de Margo. É surpreendente saber que a primeira vez que ela tomou lições de canto foi para Lay it Down. Antes, ela foi encontrando seu timbre na mesma medida que a banda aperfeiçoava a sua candura sonora. Conta ela: “A música ficou mais silenciosa e minha voz passou a se integrar a ela, em vez de se destacar”. E assim escutamos essa voz que não parece humana, mas diáfana ou diabólica.
Por outro lado, as músicas da Cowboy Junkies não seriam o que são sem as letras de Michael. Um amante de literatura, Michael é um sensível criador de crônicas, muitas vezes combinando na mesma composição mais de uma perspectiva, mais de um personagem. Em Lay it Down, pela primeira vez, todas as faixas são de autoria da banda. Em apenas uma delas, Michael compartilha a composição da letra com Margo. Ele também dividiu a produção com John Keane.
Deixemos então ele apresentar os temas que atravessam o álbum: “‘Now I Know’ foi a última música que escrevi para o álbum. Compus em Athens e, para mim, essa e ‘Something More Besides You’ são como um começo e um fim – esse foi o elemento conceitual da sequência. Eu sabia que precisava de uma música final; os temas daquele álbum precisavam de uma síntese e é isso que essa música representa. É uma compreensão do luto, da perda, de como aceitá-los. É disso que os relacionamentos são feitos, é disso que se trata a vida – constante evolução, a perda daquilo que você pensa que tem – e esse é o sentimento geral que o álbum transmite.”
É sintomático que palavras como “afundar” e “afogar” apareçam nas letras de “Lonely Sinking Feeling” e “Bea’s Song”. Elas têm relação com esse sentimento geral. “Just Want to See”, de acordo com seu autor, é a conversa de duas pessoas enquanto se dirigem para um funeral – “mas, no fim das contas, eles estão reavaliando tudo sobre o relacionamento deles”. “Come Calling” é também sobre um casal. Nesse caso, a inspiração veio da situação do homem do qual o quarteto dependia para a logística em Rock Island. Sua esposa havia sido diagnosticada com Alzheimer e ele se entregava à bebida como consolo.
O lado que envolve cumplicidade nos relacionamentos também está presente nas composições, como em “Hold on to Me” (“Vou guardar essa sensação / de acordar e te encontrar lá / eu vou me segurar em você e você se segura em mim”) e “Angel Mine” (que ganhou um videoclipe fofo). “Musical Key” é uma canção que os irmãos Timmins fizeram para evocar boas lembranças dos pais. “Speaking Confidentially” é um conjunto de afirmativas, quase filosóficas, onde os temas conceituais reaparecem: “Falando metaforicamente / a terra em que confio sob meus pés / está se movendo agora, mesmo levemente / mexo os pés, mas não sinto alívio.”
Sonoramente, essas dez faixas de Lay it Down desenham um quadro variado, porém mais familiar para seus apreciadores. “Just Want to See” é bem peculiar, mas não deixa de apontar na direção em que estão “Hold on to Me”, “Lonely Sinking Feeling” e “Angel Mine”, junto ao country alternativo. Arranjos mais acústicos predominam em “Bea’s Song”, “Musical Key” e “Now I Know”. Quatro recebem arranjos de cordas (mais marcadas em “Speaking Confidentially”), outra coisa inédita no trajeto da banda. “Come Calling” ganha duas versões, uma mais rápida e pop, que seria a perspectiva do homem (ainda esperançoso), outra mais devagar e sombria, a perspectiva da mulher (já rendida à doença). Neil Young e Leonard Cohen, para ficar em nomes compatriotas, passam por nossos ouvidos ao longo dessas músicas.
A Cowboy Junkies fez apenas dois álbuns com a Geffen. Na década seguinte, o selo criado na época da The Hunger Project foi reativado, com muito material compartilhado por meio de um website. As relações com as majors não são lembradas com sorrisos pela banda, pelas cobranças envolvidas. Uma delas, no caso de Lay it Down, era que a banda estivesse na capa do álbum, coisa pouco comum em sua biografia. Foram buscar inspiração em uma foto de Lou Reed. Daí saiu o cenário com suas cores e cadeiras. E cada um dos quatro pousou como quis, com variações registradas no encarte.
A banda caiu na estrada por cerca de sete meses para promover o álbum na América do Norte e Europa. Há poucos registros, mas basta um para dar uma ideia dessas apresentações. Michael tocando sentado suas guitarras. Margo ao lado de uma mesinha com um jarro de flores. O único músico de apoio é Jeff Bird, o principal colaborador nos estúdios (em Lay it Down, ele tocou órgão). A produção é minimalista, apenas o suficiente para a música fluir, provando que candura e intensidade podem existir juntas.

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).
