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Os livros-manuais da Sociedade de Comércio da Terra

 

 

A memória não me é exata, mas, em algum ponto entre 1979 e 1980, eu pedi um livro para minha mãe: “Naves Espaciais: 2000 a 2100”, de Stewart Cowley. Era o after da chegada de “Guerra Nas Estrelas” aos cinemas e a expectativa por “Império Contra-Ataca”, com o surgimento de vários outros longas nos cinemas, de “Battlestar Galactica” a “Flash Gordon”, passando até por “Superman”. Tudo era espacial, com lasers e heróis. Só que “Naves…” não era exatamente sobre isso. Sem dúvida era um livro de ficção científica, enorme, cheio de desenhos sensacionais e a descrição minuciosa de cada espaçonave que trazia. E o autor era esse tal de Stewart Cowley. Bem, quando se tem entre nove e dez anos de idade, o que menos importa é o autor de um livro de naves espaciais e eu perdi a conta do número de vezes que li aquelas quase 100 páginas de desenhos e dados. Na capa, um aviso: “Manual da Sociedade de Comércio da Terra” logo acima do título. Só fui me dar conta da importância dessa expressão por outros dias. E fiz uma descoberta impressionante, pelo menos para um ex-garoto que cresceu achando que “Naves Espaciais: 2000 a 2100” era um livro, digamos, isolado, único. Não era. Não é. Há muito mais. Antes de falar sobre a descoberta, convém contextualizar o leitor.

 

 

O meu livro original de “Naves Espaciais: 2000 – 2100” se perdeu ao longo do tempo. Há alguns anos achei um outro exemplar à venda, em ótimo estado, e comprei. Reli tudo com interesse intacto. Está, inclusive, na mesa de centro da sala, junto com livros “sérios”, para fazer aquela composição de obras decorativas que a gente expõe no nosso relativo luxo pequeno-burguês de cada dia. Sendo eu, mesmo depois de tanto tempo, um fã de sci-fi, aviação militar e outras nerdices, um dos perfis que sigo no Instagram estampou, do nada, uma das gravuras do livro. Lá estava uma nave “Avery-Frost Orion”. Com olhos de nove anos de idade, fui ver do que se tratava e topei com a notícia triste: Bob Layzell, o sujeito responsável por todas as ilustrações do meu livro querido, havia falecido. Segundo relato da filha, Bob, que era diabético, sofreu um ataque cardíaco no fim de 2025 e, após permanecer seis semanas no hospital, partiu para ver novos mundos. Bob era inglês, nascido em Brighton, em 1940. Era desses baby boomers maravilhosos, contemporâneo dos Beatles e dos Stones, nascido e crescido num mundo em profunda transformação, com direito a uma dose pesada de perrengue pós-guerra.

 

 

 

 

Há um monte de informações sobre Layzell online, inclusive exposições e trabalhos para outros livros e séries ao longo do tempo, mas, em algum ponto de algum texto sobre ele, havia a menção ao “Terran Trade Authority” Universe. Ora, era a Sociedade de Comércio da Terra! Como assim, UNIVERSO? Pois bem, novamente pesquisando, dei de cara com, sim, uma série de livros que sucederam o meu querido “Naves Espaciais: 2000 – 2100” nos anos subsequentes. Nenhum deles foi lançado no Brasil, eles foram totalmente ignorados por mim por quase cinquenta anos. Imagino que algum outro maluco que tenha comprado o livro naquele fim de anos 1970 também tenha passado batido por esta informação. A chave para entender o sucesso disso tudo está no autor, Stewart Cowley. Há até um RPG baseado nos eventos criados por ele, desenvolvido 25 anos após a publicação do primeiro livro.

 

E do que fala este tal “universo”? Bem, é uma daquelas utopias dos anos 1960/70, na qual a perspectiva de futuro da época era permeada por otimismo. Segundo informações do livro, a Terra alcançaria capacidade de viagem interplanetária no início do século 21 e faria contado com uma raça alienígena, os “alphanos”, oriundos de um sistema planetário em Alpha Centauri. O problema é que a amizade com eles seria abalada por conta de outra civilização, os “proximanos”, habitantes de outro sistema solar, dessa vez em torno de Próxima Centauri. Dessa forma, uma guerra espacial teria lugar na segunda metade do século, com a paz acontecendo após anos de luta e perdas para ambos os lados. O livro descreve minuciosamente a régua do tempo, os avanços tecnológicos, os eventos, os feitos e batalhas, além de dissecar várias naves militares e comerciais das três civilizações, com dados, minuciosos de capacidade de fogo, motor, tripulantes, funções e tudo mais. Um verdadeiro deleite totalmente inventado pela cabeça de Cowley. Em texto que serve como apresentação desse universo no tal RPG, ele diz que sua inspiração veio a partir dos textos publicados em revistas técnicas inglesas dos anos 1950, os quais descreviam pormenorizadamente aviões e navios, com gráficos e imagens. Faz todo o sentido.

 

 

Os outros títulos da saga da “Terran Trade Authority” são: “Great Space Battles”, “Spacebase 2000”, “Spacewreck – Ghostships and derelicts of space”, “Starliners”, “The Space Warriors” e “Spacecraft: 2100 – 2200”, este último, a continuação do primeirão, “Spacecraft 2000 – 2100”. Como foram publicados no início dos anos 1980, estão fora de catálogo e custam o preço de um rim em bom estado em sites gringos nada confiáveis, porém, claro, daremos algum jeito de alguma forma.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 comentários sobre “Os livros-manuais da Sociedade de Comércio da Terra

  • Cara, eu tenho esse livro até hoje! Era bem garoto também, e pirava nas ilustrações do livro… que eram da autoria de vários artistas, essa última com a pseudo estrela da morte é de Angus MacKie. Nunca pensei que houvesse uma série, na verdade nunca pensei que fosse ler uma matéria sobre esse que é um dos meus livros de estimação. Valeu! Curto seu trabalho desde o tempo da Rock Press.

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    • Muito obrigado, Lauro! Também fiquei muito surpreso com a descoberta e sei que, como eu, há fãs desse livro espalhados por aí. Quis fazer algo para situá-los, até porque, não há nada em português que explique algo sobre ele.

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