Roberta Sá – Giro

Gênero: MPB
Duração: 41 min
Faixas: 11
Produção: Bem Gil
Gravadora: Rosa Produções/Deck

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

Desde que foi anunciado, “Giro”, o novo álbum da cantora Roberta Sá, foi promovido como um trabalho que contava com a presença de Gilberto Gil e Jorge Ben. Nada mal para reatar uma parceria que ocorreu uma única vez – em 1975 – quando ambos lançaram um álbum inestimável para a MPB: “Gil e Jorge”. Os dois aparecem duetando na faixa “Ela Diz Que Me Ama”, lançada há algumas semanas. Mas “Giro” ainda trazia mais surpresas: seria um disco com Gil participando ativamente. Além de cantar em alguns momentos, ele assinaria várias parcerias e tocaria violão em todas as faixas. “O processo foi muito afetuoso, a gente não teve pressa alguma. Gil é uma pessoa muito generosa e, acima de tudo, um músico apaixonado por quem pensa e faz música. Esse álbum é, sem dúvida alguma, a maior alegria da minha carreira, nesses 15 anos”, diz Roberta Sá. Gilberto Gil retribui: “Aprendi a gostar da Roberta, primeiro como intérprete, depois como gente amiga e agora a tenho como parceira na fase já mais tardia do meu trabalho de mais de cinquenta anos. E eu tenho a graça de tê-la por perto fazendo o que a gente mais ama, a nossa música”.

Agora, disco lançado e escutado, fico me perguntando: como ninguém falou do resto? Entendam: “Giro” é um discaço. Quase é possível esquecer da presença de Gil ao longo das canções, mas, depois que o entusiasmo com as faixas vira raciocínio, é claro que o veterano cantor e compositor impregnou o estúdio e o clima do álbum. A presença de seu filho, Bem Gil, na produção e tocando/coassinando canções também dá um toque especial à coisa toda, porém, é preciso fazer justiça a Roberta Sá, que está cantando o fino, com sorriso na voz e graça que iluminam o percurso musical. “Giro” é um disco de MPB com matriz clássica, ou seja, não tem eletrônica, influência gringa, rebuscamentos para agradar as publicações estrangeiras, pelo contrário. É um álbum que se inicia e se encerra nas tradições sessentistas e setentistas do estilo. Mesmo assim, por mais clássico que seja, ele é totalmente moderno e adequado aos nossos tempos.

Algumas canções são realmente sensacionais. A preferida deste que vos escreve é “O Lenço e o Lençol”, que, ora bolas, é de autoria de Gil, letra e música. É sensacional ver achados na letra, como “vou pulando e caindo bem sentada, em posição de lótus na calçada e a multidão passando alegremente” ou “eu sou intensa como a luz do sol”, que dão nova dimensão à tradição do binômio carnaval x felicidade. O arranjo de cordas é outro achado que dá tons épicos à canção. A influência nordestina – um traço da obra de Roberta – também está presente, seja em forma mais moderna, como em “Outra Coisa e “Cantando As Horas” ou em formato mais tradicional, caso de “Xote da Modernidade”, que critica os nossos tempos como graça e formosura.

“Giro” ainda oferece belezuras como “Autorretratinho”, da lavra mais recente de Gil, com arranjo enigmático, que complementa a letra que se choca com o tom informal do título. Além dela, o sambinha “A Vida De Um Casal”, que é totalmente Rio de Janeiro anos 1970, enquanto “Afogamento”, também lançada por Gil em seu último trabalho, “OKOKOK”, traz constatações existenciais como “vou correr o risco de afundar de vez sob o peso da insensatez”, numa letra que é valorizada por outro arranjo contemplativo e belo.

Este não é apenas o melhor trabalho da carreira de Roberta Sá, mas um belo álbum de música brasileira, tradicional mas de olho no presente/futuro, cheio de gentileza e musicalidade. Uma lindeza.

 

Ouça primeiro: “O Lenço e o Lençol”

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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