Wado se apropria do samba à sua maneira

Wado – Obstrução Samba
21′, 10 faixas
(Lab 344)
(4 / 5)
Uma audição cuidadosa de “Obstrução Samba”, novíssimo álbum de Wado, aponta para várias conclusões. A primeira, que salta aos olhos – e ouvidos – é a liberdade estética que o artista dispõe em tempos como os atuais. Longe, muito longe da massificação da música brasileira vigente, encapsulada em paradas de sucesso duvidosas e manipuladas, é possível pensar em fazer um álbum que soa como uma depuração de conceitos tão amplos quanto “samba” e “tropicalismo”. Com pouco mais de 21 minutos de duração, Wado oferece uma nova visão para canções que ele letrou, compostas em parceria com MOMO, artista carioca radicado no exterior há tempos. Quando este lançou “Gira”, um disco que foi abraçado por vários veículos gringos como um dos melhores de 2024 no segmento “world music”, estava colocando pra jogo várias faixas compartilhadas com Wado. Se naquele álbum os arranjos eram mais tradicionais e formais, agora oito dessas parcerias ressurgem aqui, com duração encurtada, num exercício intencional de aproveitar o essencial, o básico e, a partir disso, repensá-las dentro de um novo conceito. Ainda é MPB, samba, tropicalismo, mas também é agora eletrônica, ijexá, tambores mil, tudo sob a batuta de um cara que já está em seu décimo quarto álbum, com rodagem suficiente para tal proposta “anticomercial”. Porque, oras, nem tudo é comércio nessa vida, certo? Aliás, muitas coisas não são.
Para levar adiante a ideia, Wado chamou várias pessoas bacanas para participar. O disco traz participações marcantes de artistas como Junio Barreto, Fábio Trummer, Marina Nemesio, Priscilla Tossan, Adriano Siri e Alvaro Lancellotti, além das coautorias de Otto e Davi Moraes nas faixas “Esse Mar” e “Deixa Acontecer”, respectivamente. Essa galera, além de deixar sua marca no projeto – que é tão pessoal – amplia seu alcance e oferece interpretações e visões ainda mais novas que as do próprio Wado. Inspirado no documentário “As Cinco Obstruções” de Lars von Trier e Jørgen Leth, onde Von Trier desafia o poeta e documentarista Leth a refazer sua própria obra sob diversas limitações criativas, Wado transpôs criou um novo álbum a partir das parcerias com MOMO. Ele diz: “Considero ‘Obstrução Samba’ o álbum mais forte da minha carreira desde ‘A Beleza que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa’”. E acrescenta: “Ele é uma obra coesa, com uma brasilidade madura – um disco que me traz, ou melhor, me devolve autoestima, autoconfiança e otimismo.”
É também um exercício de síntese. As canções são curtas, algumas duram pouco mais de um minuto, mas parece tempo suficiente para captarmos sua essência já que elas pulsam com vida e significado. O single “Jão” é um exemplo, marcando o tom com a participação de Fábio Trummer (vocalista da pernambucaníssima banda Eddie). A faixa é uma celebração da amizade e da colaboração, tecendo uma crítica sutil, mas perspicaz, à superconexão das redes sociais. Musicalmente, Wado imprime sua assinatura rítmica inconfundível, misturando referências de gente como Jorge Ben com batidas contemporâneas que revitalizam o samba-rock, mostrando como o tradicional pode se encontrar com o moderno de forma orgânica. “Passo de Avarandar”, por sua vez, é uma joia que contribui para a profundidade do disco. Com as vozes de Priscilla Tossan e Janu, a canção evoca a sofisticação musical e a poesia surrealista de Djavan. Sua letra, doce e abstrata, convida o ouvinte a uma introspecção, complementando a energia contagiante de “Jão” com uma sensibilidade mais introspectiva. Ambas as faixas, em suas particularidades, demonstram a versatilidade do álbum e a capacidade de Wado de explorar diferentes nuances temáticas e sonoras.
Finalmente, “Conversa Entre Sementes”, parceria de Wado com Alvaro Lancellotti (seu parceiro desde os tempos de Fino Coletivo) e a participação de Junio Barreto, se destaca como a faixa mais complexa harmonicamente. A canção apresenta uma letra original e profundamente poética que narra o diálogo entre duas sementes com desejos distintos. Essa metáfora poderosa explora a diversidade de caminhos e anseios da existência humana, fechando o ciclo das canções com uma reflexão sobre a individualidade e as múltiplas possibilidades que a vida oferece.
“Obstrução Samba” é trabalho raro. Seu efeito pode ser ampliado exponencialmente se for ouvido como contraponto a “Gira”, de MOMO, seu, digamos, irmão mais velho. É ousado, anticomercial e personalíssimo, reafirmando Wado como um dos grandes nomes no front da revitalização da MPB, abrindo-a ao mundo, a novas ideias e a abordagens que só fazem bem ao que é tradicional. Bola dentro.
Ouça primeiro: “Jão”, “Conversa Entre Sementes”, “Passo de Avarandar”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
