Quero morar em “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”

Os fãs do Quarteto Fantástico – eu incluído – podem respirar aliviados. Finalmente Reed Richards, Sue Storm, Johnny Storm e Ben Grimm receberam um tratamento digno numa produção cinematográfica. “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”, dirigido por Matt Shakman, um cara que vem da indústria de séries para streaming, tendo assinado e roteirizado episódios em “Game Of Thrones”, “Fargo”, além de produzido “Wandavision”, é êxito quase absoluto. Shakman supervisiona uma equipe de roteiristas formada por Jeff Kaplan, Ian Springer, Josh Friedman, Cameron Squires, Eric Pearson e Peter Cameron na tarefa de trazer a história-chave do Quarteto para as telonas, a saber, a luta contra Galactus – O Devorador de Planetas e seu arauto prateado, devidamente adaptado nesta versão como a Surfista Prateada, interpretada por Julia Garner. Há uma série de acertos e pouquíssimos erros – quem nem são exatamente erros – ao longo das quase duas horas de produção. No fim das contas, a sensação é de alma lavada, especialmente para esses velhos fãs ainda esperançosos, tão desconfiados por conta dos maus tratos que seus heróis mais queridos tiveram em produções anteriores.
O primeiro grande acerto é colocar a mitologia Marvel de volta ao seu lugar. Isso significa colocar o Quarteto na Terra 828, uma versão paralela do nosso planeta, na qual a ação se passa em meio a uma época retrofuturista adorável. Numa Nova York com cara de “The Jetsons” e espírito de “Tomorrowland”, a ação nos traz a história dos quatro astronautas que voltaram transformados do espaço após serem expostos a radiação cósmica. O longa não se obriga a explicar detalhadamente como isso aconteceu, optando por situar a trama quatro anos depois, oferecendo um bom resumo em ritmo de talk show, no qual aparecem inúmeras citações douradas a episódios dos quadrinhos e dos desenhos animados que passavam na TV décadas atrás. Esse retrofuturismo dá ao filme uma lindeza visual irresistível, algo que, sinceramente, já não esperava mais ver numa produção da Marvel. Aqui, ao contrário, dá vontade de morar na Terra 828.
O segundo grande acerto é o elenco. Pedro Pascal (Reed Richards/Senhor Fantástico), Vanessa Kirby (Sue Storm/Mulher Invisível), Joseph Quinn (Johnny Reed/Tocha Humana) e Ebon Moss-Bachrach (Ben Grimm/Coisa) conseguem, cada um a seu modo e de acordo com seu personagem, transmitir o que é essencial no Quarteto desde que foi criado por Jack Kirby e Stan Lee – a sensação de que são uma família. Em meio aos desafios que surgem com a condição assumida de serem protetores da Terra e responsáveis por tocar a Sociedade do Futuro, uma espécie de ONU ideal, eles mantém suas características humanas preservadas. Johnny é o mulherengo, Ben é o introvertido gente boa e Reed/Sue são um casal lidando com sua primeira gravidez. Até que as coisas mudam subitamente, com a chegada da Surfista Prateada e seu anúncio de que o planeta está com os dias contados, uma vez que Galactus – O Devorador, está a caminho para fazer tudo desaparecer. A partir daí, o filme engata numa trama bem feita e deliciosamente fantasiosa de ficção científica clássica à la Flash Gordon, mostrando equilíbrio entre referências retrôs e atuais. Os efeitos especiais são quase ótimos, deixando algumas falhas aqui e ali, mas que passam despercebidas diante do grande número de bolas dentro que a produção dá.
Pontos altos para o fã – o design belíssimo da Excelsior, nave do Quarteto e seu acoplamento no módulo de velocidade acima da luz. O carro voador, que foi omitido criminosamente de outras versões do passado, a meu ver, um ícone dentro da imagética do Quarteto, bem como a boa dose de referências reais e retrofuturistas aplicadas na versão Terra 828 de Nova York. A nota de humor involuntário está na semelhança entre Galactus e o técnico de futebol Dorival Jr e, a meu ver, no seu encolhimento. Talvez traído pelas versões pessoais do passado, sempre imaginei o Devorador de Mundos como um ser de estatura ainda mais colossal do que aparece aqui. Talvez seja um exagero meu, vá saber.
Com participação já confirmada no próximo filme dos Vingadores, em 2026, e num segundo filme em 2028, e com easter egg duplo para a aparição de outro vilão clássico das HQs do passado, o Doutor Destino, espera-se que o Quarteto Fantástico possa se desenvolver naturalmente em meio a essas tramas já confirmadas. A julgar pela felicidade nítida do elenco e o clima afetuoso que a produção transmite, finalmente podemos esperar as belezuras que sempre quisemos ver na telona. Com os nossos heróis preferidos. Talvez não haja melhor sinal do que a emoção de querer ser protegido por eles diante das mais terríveis ameaças do universo. Como era quando eu tinha uns dez, onze anos. Maravilha.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
