O Superman modelo 2025 é ótimo
Não adianta: “Superman – The Movie”, lançado em 1978, ainda é o melhor filme de super-heróis já realizado. Com a direção de Richard Donner, ótimo roteiro, boas escolhas no elenco e a revelação de Christopher Reeve, um sujeito nascido para encarnar o refugiado de Krypton, nem mesmo os 47 anos desde sua realização pesam na análise e no veredito. Por isso, todos as produções posteriores padecem deste sarrafo tão alto e tal comparação se tornou rotineira nos últimos vinte e poucos anos, quando eclodiu a nova leva de produções de heróis, seja do Universo Marvel, seja do DC Universe, este último, responsável por vingadores e paladinos como Batman, Lanterna Verde, Aquaman e o próprio Superman. Dentre todas as adaptações recentes da história, nenhuma foi tão bem sucedida em capturar o espírito que Donner exibiu em 1978, traduzido pela mistura exata de elementos que compuseram a história de Superman desde sua criação, nos anos 1930 do século passado, a saber, inocência, justiça, retidão e uma certa alegria de poder fazer o bem, não importa a quem. Lembrem-se, é uma ideia surgida há quase 100 anos, que, como não poderia deixar de ser, envelhece e precisa de atualização. Se Donner foi muito bem ao captar o espírito dos Estados Unidos e do mundo em 1978 e imprimi-los no personagem que Christopher Reeve levou às telas, nenhuma das outras adaptações posteriores, seja pra o cinema, seja para a TV, chegou perto disso. Até agora.
O Superman de James Gunn, que deixou sua marca ao dirigir “underdogs” do universo Marvel, como nos três longas dos “Guardiões da Galáxia” e da própria DC, como nos surpreendentes filmes do “Esquadrão Suicida” e da “Arlequina”, é não menos que exuberante. Para usar um termo próprio do marketing de alimentos, é “refrescante”. Tudo parece nos seus devidos lugares. Tem o ator certo, o jovem David Corenswet, que já apareceu em filmes como “Pearl” e em séries como “Hollywood”, mas que parece outro cara que nasceu para o papel. Tem um excelente Lex Luthor, a meu ver, melhor que o de Gene Hackman em 1978, vivido pelo ótimo Nicholas Hoult (o moleque esquisitinho de “About A Boy”, lembram? Que também fez o Fera em filmes dos X-Men) e tem um elenco de apoio encabeçado por Rachel Brosnahan (uma Lois Lane workaholic que sente saudades de sua adolescência como punk girl suburbana), a ótima redação do Planeta Diário, com destaque para o repórter novato Jimmy Olsen (aqui, um garanhão, vivido por Skyler Gisondo), heróis adjacentes que surgem de maneira muito bem colocada, como Lanterna Verde (Nathan Fillion), Mulher Gavião (Isabela Merced) e a ótima presença do Sr. Incrível (Edi Gathegi, que fez parte do elenco de House há vários anos), que quase rouba o filme. E outros vilões coadjuvantes, como Ultraman e a Engenheira. Gunn acerta ao usar esses outros personagens do Universo DC para dar contexto e abrir mão da necessidade de explicar a história do Superman, o início de sua vida na Terra e tal. Se, por acaso, você não sabe nada disso, sugiro dar uma googlada prévia. Ou ver o filme de 1978.
O que faz este filme ser superior a tudo que se fez do Superman após 1978 é a perfeita adaptação do arquétipo ao nosso tempo. Por trás das alegorias e adereços, há uma forte trama politica que envolve opressão, megalomania, idealismo, individualidade e o confronto aberto entre duas ideias de mundo, a vigente e a que o Superman espera conseguir implantar no planeta. Sua visão e suas ações não têm a ver com o que entendemos hoje como Estados Unidos, soando, a meu ver, como um participante de uma contenda – que está em andamento não só lá, como no mundo – em que a racionalidade e a crença no espírito humano estão sob ataque de visões pautadas apenas pelo dinheiro, pelo lucro e pela falta de empatia. O Luthor que Hoult entrega é uma versão híbrida de vários bilionários que dão as caras no noticiário, usando e abusando de recursos eletrônicos e dissimulações de vários tipos para fazer valer sua visão e os lucros. No filme há citações não-literais, mas óbvias que falam sobre o atual estado da sociedade estadunidense, questões de política internacional sob o ponto de vista do lucro na venda de armas e um confronto permanente que o personagem central vive por ser um “estrangeiro” na Terra, algo de que ele é lembrado constantemente pela mídia e pelo senso comum.
Aliás, a mídia é um personagem importante desde sempre nos filmes de Superman. Aqui o Planeta Diário, jornal de Metrópolis, no qual trabalham Lois, Jimmy e os outros integrantes da redação, além de Clark Kent, o alter-ego disfarçado do herói, faz de tudo para se atualizar para os tempos em que os jornais não são mais, digamos, viáveis como um meio de comunicação urgente. O filme disfarça isso muito bem e dá cores bem fortes aos repórteres e sua capacidade de interação com fontes e fatos. A única crítica que faço ao roteiro é não dar mais importância e falas para o sensacional chefe da redação, Perry White, aqui vivido pelo ótimo Wendell Pierce. Do lado de Luthor, vilões e assistentes do mauzão estão no ponto, entre a maldade e o pasmo, constituindo uma corporação alienada e maligna – a Luthorcorp – que funciona como empresas bem familiares no setor das redes sociais. Em tempo: Gunn foi mestre ao dar espaço para o cachorro Krypto, tornando-o um personagem importantíssimo na trama, que ainda oferece o gancho para o surgimento da Supergirl, que aparece no fim do filme, vivida por Milly Alcock, antecipando o longa em que ela estreará no papel da prima de Superman, no ano que vem.
Ainda ficamos com o longa de Richard Donner, mas é possível e compreensível que muita gente, nascida de 2000 para cá, reconheça esta nova produção como a mais interessante, fiel e divertida litura que o personagem, criado por Joe Shuster e Jerry Siegel no longínquo verão de 1938, recebeu.
Em tempo: Vejam como o Lex Luthor de Nicholas Hoult está a cara de Billy Corgan, vocalista dos Smashing Pumpkins.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Carlos (CEL), concordo com tudo, para mim foi o melhor filme do Super-Homem, muito humano, tanto no sentido de bondade quanto de fragilidade interior do nosso amigo azulão.