Yesterday – Mais do que parece

 

Aqui vai uma dica: sempre que você vir o nome de Richard Curtis em algum projeto, vá conferir. Roteirista, diretor e escritor de talento impressionante, Curtis é um dos responsáveis por uma leva de produções britânicas, iniciada na década de 1990, que praticamente inaugurou um gênero. Poderíamos chamar de “comédia romântica”, mas restringir filmes como “Quatro Casamentos e um Funeral”, “Notting Hill”, “Simplesmente Amor” e “Questão de Tempo” – entre outros – a esta caixinha estética seria reducionista. Curtis tem a mania de fazer o espectador rir enquanto o coloca para refletir sem que perceba. Veja, não são reflexões existenciais profundas e definitivas, mas, enquanto sorrimos em meio a cenas muito bem pensadas, nos pegamos ponderando e nos sentindo participantes das tramas que surgem na tela. Sutileza é seu lema. E, bem, “Yesterday”, dirigido por Danny Boyle, tem seu roteiro assinado por Curtis. Já viu, né?

 

A premissa é simples e deliciosa: como seria o mundo se apenas você lembrasse que os Beatles existiram? Pois isso é o que acontece com Jack Malik (Himesh Patel), um músico fracassado, que trabalha como empacotador num supermercado de Suffolk, Inglaterra. Assessorado por sua inseparável amiga e empresária Ellie (vivida por uma exuberante e adorável Lily James), ele tenta emplacar uma carreira mas coleciona fracassos. Até que sofre um acidente em meio a um blecaute planetário de doze segundos. E acorda num hospital, sem dentes mas na condição de único ser humano a saber que houve uma banda chamada Beatles e que ela mudou a música popular.

 

Surgem logo questões éticas sobre usar as composições alheias como suas e um dilema clichê tem lugar: Jack deve assumir esta persona de compositor de genial e deixar pra trás uma vida simples? Ou deve permanecer como um cara comum, guardando para si a memória de todos os discos e canções dos Beatles? O filme evolui graciosamente e coloca vários questionamentos que são deliciosos para quem gosta de música pop e entende os mecanismos da indústria musical. Jack começa a aparecer na cena local e ninguém menos que Ed Sheeran bate em sua porta, chamando-o para abrir seus shows numa turnê europeia. Jack deve aceitar? O que virá em seguida?

 

À medida em que o filme avança, vemos como as canções dos Beatles vão sendo mostradas a um público consumidor 50 anos depois do fim da banda. Logo fica evidente que muito mudou, que clássicos como “Hey Jude”, “Let It Be”, entre outros, não são vistos e compreendidos como eram quando foram lançados e que, por mais que tente, Jack não é Paul, John, George ou Ringo, não tem suas referências e vivências pessoais, levando-o a uma jornada por uma Liverpool alternativa em busca de informações. Logo também fica evidente a importância da memória – não a lembrança pessoal somente, mas as batalhas para dar significado e sentido a fatos. O filme brinca com isso mas coloca o dilema de manipulação da verdade a um ponto de discutir – ainda que graciosamente – sobre o que seria verdade e o que seria ficção, e os limites entre os dois extremos.

 

Boyle e Curtis temperam o riso e a diversão com questões sérias sobre amizade, respeito, ética e amor. E colocam tudo isso com naturalidade e graça. Destaque para a participação de Kate McKinnon. como Debra, empresária de Ed Sheeran, que enxerga em Jack uma mina de ouro ambulante. Em certo momento ela diz: – não sei nada sobre ele, porque ele é um produto para mim. Suas falas sobre lucro, receita, grana e tudo o que parece importante para um artista – segundo a visão empresarial – são tristemente reais, ainda que arranquem risos da plateia.

 

Apesar do final previsível, “Yesterday” tem algumas sequências que vão emocionar os espectadores. Uma delas me deixou de boca aberta, mostrando que Curtis – e Boyle – ainda tem a manha neste negócio de arrancar emoções do espectador. “Yesterday” é mais que uma comédia bobinha, vá na fé.

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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