Os ratos soltos na sala

 

 

Durante um bom tempo – uns quinze dias, acho – o país ansiou por ver o tal vídeo que mostrava a reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020. Seja para comprovar o que o ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, havia dito sobre o atual ocupante da presidência desejar interferir na Polícia Federal, seja pela curiosidade de ver o alto escalão do governo federal unido num só ambiente, para vê-los deliberar, vê-los em ação. Eu admito que minha maior curiosidade era por isso, por esta visão, esta ciência. Eu sou do Rio de Janeiro, portanto não havia qualquer dúvida sobre a vontade deste sujeito em interferir na PF, eu já sabia. A ação era o que me interessava. E quando veio, ontem, eu me vi sem qualquer capacidade de reagir por um bom tempo.

 

Eu não poderia esperar nada de diferente de pessoas como weintraub, damares, paulo guedes, salles, o próprio ocupante da presidência, os militares de alta patente que o assessoram, enfim, toda essa caterva lamentável que governa o país hoje. O motivo do encontro era a pandemia da covid-19 e, a menos que eu esteja errado, as menções feitas a ela foram como um jeito de se aprovar mudanças na demarcação de terras indígenas na Amazônia, justo porque, enquanto morrem pessoas aos milhares, a imprensa não estaria atenta a isso. Quem deu essa ideia foi o ministro do Meio Ambiente, cuja função é … zelar pelo meio ambiente. Fora isso, nada mais foi dito. O então ministro da Saúde, Nelson Teich, ficou com sua postura catatônica, de boca aberta, vendo tudo acontecer. Talvez se perguntasse: “o que eu estou fazendo aqui, neste porão civilizatório?”. Pois é.

 

A ministra dos Direitos Humanos pedia prisão de governadores, o da Educação queria ´prender todos os vagabundos, começando pelos ministros do STF. O da Economia queria vender a “porra” do Banco do Brasil e direcionar recursos para grandes empresas, deixando as pequenas – que mais precisam de ajuda – na mão. E o ocupante da presidência chamava governadores e prefeitos de “bosta”, “estrume” e por aí vai. Teve gente querendo abrir cassinos, legalizar bingos, e foi contradita pela ministra dos Direitos Humanos, que disse que tais ações seriam “do diabo”. Teve “porra”, “caralho”, “cacete”, “foder” e um monte de palavras que a gente usa quando está na quinta série ou, entre os nossos, na mais absoluta informalidade. Sim, porque, quando a gente vai para ambientes de trabalho, de estudo, seja do que for, sabemos que não devemos nos posicionar deste jeito.

 

Essa gente, não. Essa gente tem clara na mente a ideia de que é preciso desritualizar o poder político. Ela promove o mais absoluto descrédito, não só pela função pública de governar, como pela mais íntima maneira de se portar em público. Ter certeza de como agir, como se colocar. Mas não. “Foda-se essa porra” – pensaria um deles. E tome agir como se estivesse numa reunião de contraventores, de aposentados no bar, de mafiosos num filme da TV. Tome agir como se estivessem em qualquer lugar, menos na presidência de um país de 210 milhões de pessoas, as quais estão em risco por conta de injustiças históricas e, como se isso não bastasse, uma pandemia apocalíptica, a qual essa gente não sabe como lidar, algo que está nos fazendo ser o epicentro da doença no mundo. A culpa é deles, toda deles e do povo que, a exemplo deles, não sabe como se portar em sociedade.

 

Fica fácil entender: as pessoas que se constituem no mais absoluto poço sem fundo da nossa sociedade estão representadas diretamente por esta gente. Os weintraubs – obtusos, raivosos – as damares – crentes, ignorantes, ressentidas – os salles – gananciosos, maus – os guedes – maus, sem empatia – e o presidente, o verdugo que chegou ao comando, todos eles são o espelho de uma parcela de pessoas que coexistem conosco. Nas nossas famílias, nos nossos locais de trabalho, fruto de uma psicopatia social intensa, materializada na raiva pelo próximo, pelo descaso absoluto com o outro, que é visto como um inimigo a ser derrotado, caso ele não pense como se espera. É tudo muito sério, muito triste.

 

Esta reunião ministerial, a despeito do impacto político que possa ter, é histórica. Nunca a república foi tão aviltada, espezinhada e jogada na lama, conduzida por um grupo lastimável de pessoas. Seria menos mal se essa gente não representasse ninguém na nossa sociedade, mas, tristemente, eles representam. E precisamos entender isso se quisermos agir para preservar os outros tantos que, não só não se sentem representados, como abominam tal realidade.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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