Watchmen chega à TV

 

 

 

A HBO estreia Watchmen neste domingo, 20 de outubro, baseada nos quadrinhos criados por Alan Moore e Dave Gibbons, um clássico fundamental e a única graphic novel a figurar na lista dos cem maiores romances do século XX da revista Time.

 

A história original parte da premissa básica “o que aconteceria caso os super-heróis existissem no mundo real?” para transformar em pó várias convenções do gênero e discutir moral e política. As doze edições se passam nos anos 1980, em uma realidade onde, graças à interferência do herói Dr. Manhattan, os EUA ganharam a guerra do Vietnã e onde Richard Nixon ainda é presidente, assumindo mandatos consecutivos. O pano de fundo é a guerra fria com a então União Soviética, estado de tensão que desempenha papel central no desfecho da trama.

 

Desenvolvida por Damon Lindelof – o mesmo cara de Lost e The Leftovers – Watchmen chega com a missão de ser o novo carro-chefe da programação da HBO, espaço vago desde o fim de Game Of Thrones, em que pese a existência de grandes produções como Westworld e Years By Years. No elenco estão nomes conhecidos como Jeremy Irons, Don Johnson, Louis Gossett Jr. e Regina King.

 

Diferente do longa de 2009 dirigido por Zack Snyder, que se pretendia uma adaptação hiper fiel, a série começa cerca de trinta anos após o fim do gibi, de forma a traçar mais facilmente paralelos com a nossa realidade, e Lindelof garante que não é necessário conhecimento prévio da obra em quadrinhos para apreciar seu derivado televisivo, embora todos os acontecimentos da graphic novel façam parte do universo da nova série.

 

Watchmen foi fundo na desconstrução da mitologia dos super-heróis, apresentando personagens falhos e, não raro, patéticos. A questão das identidades, de como nos apresentamos e buscamos ser vistos pelo mundo, é outro forte pilar da trama. Indivíduos fracos e conturbados ganham força e propósito quando assumem a fantasia de vigilante.

 

Inclusive por isso, antes da sua estreia oficial, a série já apresenta polêmica ao retratar a força policial de Tulsa, Oklahoma, onde tem início a história, usando máscaras para combater a Sétima Cavalaria, uma organização supremacista branca que se inspira em um dos heróis do quadrinho original. Em tempos de relações ferventes entre a ordem pública e os movimentos sociais, notadamente nos EUA, será interessante observar como Lindelof e equipe driblarão o desconforto que pode surgir ao vermos policiais mascarados defendendo uma comunidade negra, quando nos cotidianos urbanos o cenário é complexamente diverso.

 

Situada em um universo onde existe apenas um ser humano super poderoso, o Dr. Manhattan, em exílio auto imposto da Terra quando do início da série, Watchmen introduz novos personagens no cenário engendrado por Moore e Gibbons, mas não esquece do elenco original, surgindo em novos contextos ou referendados por seus símbolos e significados.

 

Damon Lindelof foi responsável por duas grandes séries nos últimos vinte anos. Lost redefiniu a narrativa televisiva para produções do gênero e The Leftovers, apesar de pouco assistida, é simplesmente uma das maiores séries de todos os trempos, sensível e inusitada em doses iguais. A grande qualidade que o produtor/roteirita imprime aos seus trabalhos é um tratamento cuidadoso da narrativa, quase sempre com idas e vindas no tempo, através de memórias e flashbacks, muito semelhante ao processo criado por Moore nas páginas da HQ. Se a nova produção acertar o tom, e conseguir criar a partir de uma obra original complexa e quase definitiva, será muito provavelmente a próxima obsessão dos fãs de seriados televisivos.

 

Os elenco original de Watchmen

 

Watchmen, o quadrinho, se passa em uma realidade onde os vigilantes mascarados estão proibidos de atuar pelo governo, salvo poucas excessões. Diante da lei, a maioria dos vigilantes abandonou a carreira e passou a viver somente em suas identidades civis. Para facilitar a ambientação na série da HBO, segue um breve perfil dos principais personagens da história. Alguns retornarão, outros estão desaparecidos e outros ainda se tornaram símbolos de coisas maiores e mais perigosas.

 

Dr. Manhattan – O único ser com super poderes na realidade de Watchmen, Manhattan ganha suas habilidades após um acidente atômico. Dotado da capacidade de manipular a realidade e o tempo, ele se desprende da humanidade, tornando-se praticamente um deus. No início da série de TV, ele se encontra em exílio, fora do planeta. Seu retorno é incerto.

 

Ozymandias – Adrian Veidt é considerado o homem mais inteligente do mundo. Pesquisador e homem de negócios bilionário, treinou para atingir o pico da evolução física e aplicou essas habilidades no combate ao crime. Um cruza entre Batman e Lex Luthor, Ozymandias tem papel fundamental na história original.

 

Comediante – Vigilante anárquico que estava em ação antes mesmo dos personagens principais de Watchmen entrarem em cena. O Comediante fez parte dos Minutemen, grupo de heróis mascarados  dos anos 1940, e seguiu em atividade por várias décadas, realizando missões nada nobres para o governo estadunidense. É o seu assassinato que dá início à trama da graphic novel.

 

Coruja – O herói mais próximo do arquétipo clássico, algo ingênuo e inspirado por uma nobreza idealizada. É também quem representa melhor a decadência dos vigilantes. Quando surge na história, o faz como um homem sem ânimo, desesperançado e fora da sua melhor forma. Até retomar o combate ao crime.

 

Espectral – Filha de uma integrante dos Watchmen, Laurie cresceu cercada pela mítica das máscaras e uniformes, e da fama que os acompanhava. Iniciando sua própria carreira como heroína, ela assumiu o nome de combate da mãe. Foi companheira por anos do Dr. Manhattan e tem papel central tanto no destino dele quanto na trajetória do Coruja.

 

Roscharch – Vigilante urbano violento e com uma filosofia extremista. Roscharch é o Batman que cruzou a linha do autoritarismo. Apesar de tudo, seu código moral o coloca no lado dos heróis. É certamente o personagem mais marcante da graphic novel e em torno de quem boa parte da trama se estrutura, seguindo sua investigação do assassinato do Comediante.

1+

Fabio Luiz Oliveira

Fabio Luiz Oliveira é historiador e crítico da Arte não praticante. Professor da rede pública do Rio de Janeiro. Escritor sem sucesso, espanta o mofo de seus textos em secandoafonte.wordpress.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *