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Aqueles quatro discos queridos do Rush

 

 

A felicidade dos fãs do Rush é palpável. Ao anunciar o retorno aos palcos no ano passado, encerrando um hiato provocado pela morte do baterista Neil Peart, em janeiro de 2020, a dupla remanescente – Geddy Lee e Alex Lifeson – explicou que faria apresentações com a presença da alemã Anika Nilles. A jovem alemã ganhou a tarefa praticamente impossível de substituir Peart nas baquetas. Tal fato já era suficiente para fazer a alegria da galera, que aumentou exponencialmente quando foram confirmadas novas apresentações ao redor do mundo, chegando ao êxtase total com a revelação de cinco datas para o Brasil. Explica-se essa catarse. Não bastasse a certeza de que Lifeson e Lee jamais voltariam ao palco como Rush, tal fato também significou o encerramento definitivo da carreira da banda. O último trabalho lançado foi “Clockwork Angels”, em 2012, mostrando que, nos últimos tempos, o Rush já não era muito assíduo dos estúdios e das novas criações, concentrando sua força nos shows. Agora a volta aos palcos muda tudo e pode significar um olhar mais otimista para o futuro, quem sabe até um novo disco, vá saber. O fã, no entanto, está salivando para ver os grandes clássicos da banda mais uma vez ao vivo nesta nova turnê, batizada de “Fifty Something”, cujo título faz brincadeira com os mais de cinquenta anos em atividade. Muito que bem.

 

Eu não sou um fã do Rush, lamento informar. Tenho grande respeito pela banda e sei de sua importância para a formação do que se entende por “classic rock”, um conceito que busca definir, sobretudo, as bandas surgidas no início dos anos 1970 e que, de algum jeito, ainda estão por aí. O Rush talvez seja a epítome desse conceito. Um power trio, com fases diferentes ao longo de uma carreira imensa e que precisou se reinventar para seguir em frente. O fato é que, mesmo que tenha mudado sua sonoridade com o passar dos anos, o Rush nunca deixou de lado essa aura clássica roqueira setentista. Na verdade, isso não é exato. Houve dois momentos em que a banda se permitiu flexionar essa ideia de baixo-bateria-guitarra como santíssima trindade sonora, na verdade, um conceito que se provou limitante com o passar do tempo para vários artistas. O Rush tentou – e desistiu anos depois – tornar sua sonoridade “moderna” quando adentrou a década de 1980. Dá pra dizer que esse movimento produziu o que fizeram de melhor e de pior até hoje. E há quatro álbuns lançados por eles que, posso dizer, são os meus preferidos. Três deles pertencem a esse momento de oxigenação, lançados entre 1980 e 1982. E o outro álbum querido é dos anos 1990. Sendo assim, vamos a eles: “Permanent Waves” (1980), “Moving Pictures” (1981), “Signals” (1982) fazem, a meu ver, a trilogia perfeita do Rush. E, perdido no tempo e espaço, o pesado e interessantíssimo “Counterparts” (1993), fecha a quadra.

 

Os três primeiros da minha lista pessoal foram lançados num espaço de três anos, tempo que ainda contou com um disco duplo ao vivo, “Exit…Stage Left” (1981). Eles marcam a incorporação de elementos muito estranhos ao som que o grupo fizera até então. Quem ouvisse seu álbum de 1978, ‘Hemispheres”, jamais imaginaria isso. Totalmente progressivo e imerso num universo épico de ficção científica e fantasia, “Hemispheres” tinha apenas quatro canções, sendo que “Cignus X-1 Book II – Hemispheres” ocupava todo o antigo lado A. E também havia a épica “La Villa Strangiato”, canção emblemática desse período “classic rock” rushiano. Quem poderia pensar que o grupo lançaria um single como “The Spirit Of Radio” menos de dois anos depois? A mudança sonora é impressionante e gerou um salto de popularidade para a banda. É a velha história: os velhos fãs torcem o nariz enquanto novíssimos convertidos chegam aos montes. O fato é que “Radio” tinha até um trecho reggae em sua dinâmica, algo que suscitou uma inusitada inspiração em The Police, também um trio que fazia sua própria sonoridade, unindo punk, new wave e … reggae. Claro que o Rush não tinha – e nem queria ter – o mesmo molejo de Sting e sua turma, mas o fato é que tal movimento oxigenou suas criações e fez com que “Permanent Waves”, o disco de 1980, entrasse e fixasse residência no Top 5 americano por um bom tempo. Outro single, a ótima “Freewill” também confirmou a mudança de chave e a boa forma do trio.

 

 

Se “Permanent Waves” chocou os fãs com novidades, o que poderia ser dito de “Moving Pictures”, o álbum que o sucedeu? Não só ampliava o flerte com a new wave e o reggae, como pisava fundo em outro elemento, que o grupo já havia incorporado com força: sintetizadores. Basta ouvir a introdução de “Tom Sawyer”, o maior sucesso radiofônico da história do Rush. Quem esquece ou não reconhece imediatamente a batida de Peart em meio ao sintetizador e a entrada da voz característica de Lee aos exatos cinco segundos de canção? O fato é que “Moving Pictures” lançou luz sobre um outro elemento marcante na sonoridade que o Rush empreendia então. A banda não havia simplesmente deixado para trás suas raízes progressivas e clássicas, mas estava, de um jeito personalíssimo, atualizando esses elementos para o novo momento da música. Havia ainda o tom progressivo mais convencional, bem como esta nova abordagem, em composições como “The Camera Eye” e “Red Barchetta”, respectivamente, esta última, feita em homenagem a um velho carro de Peart. No disco anterior, esse traço também era visível em “Jacob’s Ladder” e “Natural Science”. Ou seja, dava pra dizer que os sujeitos faziam, por enquanto, uma transição que visava agradar a todos.

 

 

Tal fato mudou um pouco com a chegada do próximo álbum de inéditas, “Signals”. Dá pra dizer que esses traços progs são deixados de lado quase definitivamente, em favor de um rock totalmente moderno, eletrônico e sintetizado, perfeitamente materializado na ótima “Subdivisions”, a canção que abre o álbum e que marca o abraço da banda a letras com mais consciência social. Aqui, Peart fala sobre a discriminação sofrida por crianças dentro do sistema de ensino. O tom do arranjo é épico e totalmente devedor desta sonoridade que unia bandas díspares como Van Halen e Genesis por conta do sintetizador e desse ar video-game-futuro-que-havia-chegado em forma de som. O aceno à visão policeana de reggae segue presente, especificamente em “New World Man”, faixa que poderia ser gravada pelo trio inglês. O fato é que “Signals” marca o início de uma fase pouco inspirada na carreira do Rush. Os dois álbuns seguintes, “Grace Under Pressure” (1984) e “Power Windows” (1985) ainda continham hits respeitáveis e surfaram na onda da MTV daquele tempo, com o Rush experimentando esse rejuvenescimento sonoro em forma de imagem, mas, com o trabalho seguinte, “Hold Your Fire”, de 1987, é possível cravar que o grupo lançou seu pior disco até hoje. O que era uma bem pensada fusão de tempo, influências e estilos resvalou para uma mal equilibrada tecladice sem fim, algo que ainda contaminou os trabalhos que vieram em seguida, ao duplo ao vivo “Show Of Hands (1989)”, “Presto” (1989) e “Roll The Bones” (1991), este último marcando o que parecia o fim deste ciclo estranho.

 

 

Na verdade, “Roll The Bones” (1991) deu uma pista falsa sobre o que o Rush faria. Se a faixa-título tinha até elementos de hip hop, acenando para uma diversificação sonora ainda maior do que a feita dez anos antes, “Counterparts”, lançado dois anos depois, mostrou uma sonoridade muito mais voltada para a guitarra. Os sintetizadores voltaram para um segundo plano, o reggae e outros elementos diferentes sumiram totalmente em favor de um rock totalmente voltado para as seis cordas, um terreno que Alex Lifeson sempre dominou com excelência. Não por acaso, nesta época ele soltou um álbum parelelo, com o nome de “Victor”, no qual brincava com as sonoridade do rock alternativo daquela época. Aliás, o Rush de “Counterparts” conseguiu transitar sem problemas para esta nova audiência roqueira, uma vez que o álbum tinha essa sonoridade enxuta e ótimas canções como “Animate” e a ótima, querida “Nobody’s Hero”, sucesso da saudosa Universidade FM. Depois dele, o Rush faria o igualmente pesado “Test For Echo” (1997) e entraria num hiato de cinco anos, causado por duas tragédias pessoais na vida de Neil Peart. Num espaço de dez meses, ele perdeu sua filha, Selena, num acidente de carro, e sua mulher, Jacqueline, vítima de câncer. A banda só retornaria atividades em 2001.

 

 

Certeza que os shows do Rush em 2026 serão celebrações justas de fãs e a chance para que novos possíveis admiradores conheçam a banda ao vivo. Pelo que já demonstrou, a nova baterista, Anika Nilles vai dar conta do recado, especialmente porque todos já sabem que ela não irá emular as peripécias de Peart, mas tentar acrescentar algo novo e pessoal sem que isso signifique desrespeitar as convenções rushianas. De qualquer forma, desejo bom show para quem estará presente nas apresentações e prefiro ficar com meus quatros discos dentre tantos lançados pelos canadenses. Neste período eles conseguiram juntar sucesso, modernidade, ousadia e respeito aos fãs. É algo raro na história do rock.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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